CAMISA 12



(publicada ontem, no Lance!)

CONTEÚDO E FORMA

“Tem muita coisa que cai na conta do Dunga, mas, na verdade, não foi ele que inventou”, diz o assessor de imprensa da CBF, Rodrigo Paiva.

Conversávamos sobre o sistema adotado pela Seleção Brasileira para lidar com jornalistas nesta Copa do Mundo. O local e a situação não poderiam ser mais apropriados: ao lado do portão (fechado) da escola St. Stithians, após o fim do período em que a imprensa pôde acompanhar o treino de ontem.

Preciso repetir (e chatear quem já leu) o que penso: fechar treinos, trabalhar com privacidade, é direito de qualquer técnico. Não é isso que está em questão, e sim a forma como as coisas são conduzidas. O que Dunga ainda não entendeu é que ninguém pretende que ele deixe de pensar, em primeiro lugar, nos objetivos do time. Ele está aqui para ganhar a Copa do Mundo. Mas parece não perceber que o relacionamento com as centenas de jornalistas que cobrem a Seleção Brasileira faz parte do trabalho dele. O inegável mérito de acabar com os privilégios de poucos, com os diferentes níveis de acesso aos jogadores, não pode ser usado para justificar o ambiente criado apenas para eleger um inimigo comum (a ele e ao time) e “fechar o grupo”.

Mesmo porque este grupo já estava fechado, antes de chegar aqui. Fechado pela longa convivência, pelo “clima de clube” tão difícil de ser reproduzido na Seleção, pelos resultados conquistados. A formação do elenco e a maneira como os jogadores se relacionam é outro mérito, talvez o maior de todos, da atual comissão técnica.

Voltando à cobertura da imprensa, se lembrarmos que não foram poucas as declarações (Julio César, Kaká e Maicon, pensando rápido) de jogadores a favor de um regime mais recluso, concluiremos que o sistema não foi imposto de cima para baixo. Se há alguém que preferiria ter mais liberdade, topou as normas que o próprio grupo estabeleceu. Pois nenhum time de futebol é comandado apenas pelo seu técnico.

Faço parte de uma geração de jornalistas que viveu o “elo perdido” da cobertura dos times de futebol. O fim de uma época em que se entrevistava jogadores ao final dos treinos, dentro do campo. Em que se falava com quantos jogadores fosse possível, pelo tempo que fosse adequado para todos. Em que não havia salas de coletivas, nem painéis com nomes de patrocinadores.

Lá pela metade dos anos 90, quando jogadores brasileiros voltaram da Europa acostumados a um método mais organizado, e menos exigente, tudo mudou. Surgiram os “departamentos de comunicação”, os assessores de imprensa.

O que está acontecendo hoje na Seleção Brasileira era inevitável. E não é invenção do técnico. Mas o técnico erra na maneira como se comporta.



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