CAMISA 12



(publicada ontem, no Lance!)

COPA POLAR

As primeiras palavras de Maicon, ao sair do campo após a vitória sobre a Coreia do Norte, não foram sobre o jogo.

“Que frio, meu irmão”, disse o lateral direito, o primeiro a marcar um gol pela Seleção Brasileira numa Copa do Mundo desde Josimar, no México’86. Se Maicon, que correu sem parar durante o jogo inteiro, sentiu, imagine o que foi.

Frio? Não. O que estamos passando aqui não é frio. Deve ser outra coisa, que tem outro nome, pois é muito pior. As folhas com a escalação oficial dos times, para todos os jogos da Copa, trazem informações como data, nome do estádio, horário, arbitragem. Também informam a temperatura e a umidade relativa do ar. A que foi distribuída no Centro de Imprensa do Ellis Park, na noite de terça-feira, estampava: 3 graus.

Subi para meu lugar, imaginando que seria difícil, mas possível aguentar, principalmente, o vento. Eu vestia seis camadas de proteção acima da cintura, três abaixo. Mais luvas, cachecol e o capuz da jaqueta. Pensei que estava preparado. Também pensei que a tremedeira nas pernas e nas mãos era apenas uma adaptação, algo que passaria rápido. Não passou. E em menos de meia hora de jogo eu já tinha decidido que o segundo tempo seria visto pela televisão, no centro de imprensa do estádio.

Na tribuna, jornalistas que mais pareciam alpinistas (um desfile de gorros, luvas e até toucas ninja) tentavam teclar em seus computadores. Impossível. Com luvas, os dedos não são precisos. Sem luvas, não são sentidos. Pobres dos narradores e comentaristas de televisão, que não podem se cobrir quase totalmente, deixando apenas os olhos desprotegidos. E pior, ainda precisam falar o tempo todo. Nessas condições, o simples ato de abrir a boca é um sacrifício.

De volta ao centro de imprensa, no intervalo, a cena era cômica. Pessoas se amontoavam na frente da saída de ar dos gigantes aquecedores. As portas laterais foram trancadas para evitar que o ar quente fugisse. E os banheiros ficavam do lado de fora.

Na hora de ir embora, por volta das 2 da manhã, o termômetro do carro marcava -1. Acredito que já tive contato com temperaturas até inferiores. Um amistoso da Seleção Brasileira na Basiléia (SUI), antes da Copa da Alemanha, é uma das primeiras lembranças. Além do frio, chovia. Mas o lugar onde assisti ao jogo era protegido do vento. O problema no Ellis Park foi o tempo de exposição ao frio. Da tremedeira, passa-se ao formigamento. O que vem depois não deve ser bom para a saúde.

A madrugada de terça para quarta-feira foi terrível. A frase de um dos nossos motoristas é um bom resumo: “fez tanto frio que senti falta da minha ex-mulher”.

Eu, que nunca dormi de meias na vida, já estou pensando em vestir duas.



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