COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

PRATO DO DIA

São dois jogadores por dia, sempre em entrevista coletiva. Nada mais, nada menos.

Os treinos, até agora, foram abertos ao trabalho dos jornalistas. Com apenas uma exceção, na manhã de anteontem. Fora os eventuais pedidos para que as câmeras sejam desligadas, grava-se tudo.

Em comparação ao que estávamos acostumados a fazer nas coberturas da Seleção Brasileira, é quase uma greve de silêncio. Em comparação ao que se faz nas outras seleções, ainda é um banquete jornalístico.

Quando um técnico brasileiro fecha um treino de seu time, seja no clube ou na Seleção, a medida é geralmente vista como um acinte. É uma provocação, um ataque ao que se imagina ser a “liberdade de imprensa”. Ver tudo e falar com todos é “nosso direito”. Basta o professor trancar o portão para que alguém repita o velho a-gente-bate-os-patrocinadores-reclamam-e-ele-não-fecha-mais.

Não importa que em nenhum país onde o futebol é importante como no Brasil, a imprensa esportiva trabalhe com o acesso e a fartura que temos. Na Argentina, ninguém fala com jogadores dos clubes grandes todos os dias. Jornalistas também não entram em todos os treinos. Na Espanha, especialmente no Barcelona e no Real Madrid, o contato é ainda menor. Cobri o superclássico do primeiro turno do último campeonato, e o treino dos catalães na véspera do jogo foi hermeticamente fechado. O da antevéspera, aberto por apenas 20 minutos. Não houve relatos de protestos da imprensa espanhola. Na Itália, na Inglaterra, na Alemanha, é a mesma coisa.

A praxe se repete nas seleções. Entre as mais tradicionais, até agora, só a Holanda abriu todos os treinamentos em território sulafricano. Mas colegas laranjas (sem ofensa) garantem que, cedo ou tarde, acontecerá. E se os holandeses promoveram um, e por enquanto só um, encontro de jornalistas com todos os 23 jogadores, há dias em que só é possível falar com um entrevistado.

Na Seleção Brasileira, o bufê está sobre a mesa diariamente, na hora do almoço. Dois jogadores à disposição de 300 repórteres de nacionalidades variadas, por 45, 50 minutos. Os estrangeiros reclamam, claro. Perceberam que o Brasil resolveu imitar os europeus no atendimento à imprensa. Mas continuam voltando no dia seguinte, pois as entrevistas dos jogadores brasileiros são mais longas do que as dos outros.

Não acho que seja o melhor sistema. A “socialização”da informação faz com que todos tenham as mesmas respostas. Mas a barriga de quem reclama continua cheia, porque poderia ser pior.

A maior dificuldade dessa cobertura não está relacionada a quantos falam, ou como, e sim a quem não fala nunca. Até hoje, membros da comissão técnica da Seleção eram acessíveis, ainda que informalmente. Tínhamos a palavra do médico quando alguém se machucava no treino. Ou um comentário do preparador físico sobre as condições de determinado jogador. Agora eles não podem dizer nada. Na verdade, nem os encontramos.

Por isso ninguém sabia o que realmente estava acontecendo com Julio César, até o treino de quinta-feira à tarde.

Nem nós, nem você.



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