COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

UM TREINO

Deixamos o clube de golfe, no bairro mais chique de Joanesburgo, a caminho do treino da Seleção Brasileira. Dentro do Land Rover alugado, um motorista/segurança e uma equipe completa de reportagem em televisão. Quatro pessoas carregando equipamento profissional, laptops, celulares.

O carro trafega pelas ruas tranquilas nos arredores do clube. Quarteirões quase exclusivamente residenciais. Muitas árvores, tudo limpo, carros caros. As casas são ótimas, grandes, bonitas. Dois, três andares. Terrenos espaçosos, jardins bem cuidados. Mas não se vê uma que não esteja bem protegida. Muros e portões altos, cercas elétricas, câmeras de vigilância. Em todas elas, sem exceção, placas de empresas de segurança avisam os passantes: RESPOSTA ARMADA. Por algum motivo, a líder de mercado no momento se chama “Piranha Security”. A placa afixada nos muros das casas que ela protege é mais detalhada: além do recado aos meliantes, tem o desenho de uma piranha cor de laranja e uma frase de humor negro: “quando os bandidos transgridem, nós mordemos!”.

O sistema de GPS nos leva por uma estrada de cinco faixas, com asfalto cheirando a novo. São 2 horas da tarde, o trânsito é leve. Nosso motorista conta que teve de atualizar os mapas do aparelho para dirigir por ali, a Copa do Mundo é a razão da construção da via. Ele comemora o pouco movimento e diz que, se continuar assim, chegaremos ao treino sem atraso.

Uma outra Joanesburgo surge na medida em que nos distanciamos do local onde a Seleção está hospedada. Nada que surpreenda brasileiros acostumados a andar por nossas grandes cidades. Mas não há obras em andamento, hotéis ou centros de compras recém-inaugurados. Nas áreas mais simples da metrópole sulafricana, a Copa não aparece.

Mas isso vai mudar em questão de horas. Estamos a caminho de Soweto, onde um pequeno estádio no subúrbio pobre de Joanesburgo receberá o time de futebol mais importante do mundo.

No carro, os quatro brasileiros se interessam pela mudança de cenário que o trajeto proporciona. O que se ouviu e se leu sobre Soweto remete a uma gigantesca favela. A parte que conhecemos, mínima em uma área onde vive um terço da população da cidade, é um pouco melhor. As pessoas moram em casas, usam roupas. O que se vê é pobreza, carência, mas não miséria absoluta.

Da estrada, vemos o estádio do lado esquerdo. No acesso, o trânsito para. Pessoas tomam conta da ruazinha estreita, passam entre os carros como se eles não estivessem ali. Continuamos apenas interessados, mas é visível a tensão que domina o motorista. Somos um alvo facílimo. Ele pede para que guardemos os nossos telefones celulares, e em nenhuma hipótese deixemos computadores à mostra. Comenta que um telefone não vale o problema que pode acontecer se alguém tentar nos roubar. Olha para os lados, irrita-se com a lentidão.

Chegamos sem ocorrências. Do lado de fora do estádio, centenas de sulafricanos que muito provavelmente não conseguirão ver um jogo da Copa, aproveitam uma tarde diferente. Dentro, alguns milhares cantam e dançam.

Era um simples treino da Seleção Brasileira.



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