CAMISA 12



(publicada ontem, no Lance!)

O GUARDA-COSTAS

Eram sete pessoas na mesa. Seis jornalistas brasileiros e um segurança sulafricano, ex-soldado do exército que, durante oito meses do ano, trabalha como guarda-costas da família real de um país árabe. Ele é um dos guias da ESPN aqui na África do Sul.

Bom momento para uma conversa sobre o país da Copa. Mas era preciso ter cuidado, sensibilidade para ouvir as opiniões de um ex-militar, branco, a respeito do que a África do Sul era e é.

“Faço parte da ‘geração perdida’”, ele diz. “Tenho 42 anos e não tive escolha. Ou ia para o exército ou para a cadeia”. Nosso amigo é de uma época em que as crianças brancas sulafricanas cresciam ouvindo que negros não eram gente. “Mas na minha casa, felizmente, formávamos nossa opinião”, pondera. “Se dependesse de mim, as mudanças no país teriam acontecido muito antes”.

Olhos se arregalam na mesa redonda da ótima casa de carnes de Joanesburgo. O interesse aumenta. O que você pensa de Nelson Mandela?, pergunta um colega. “É um ícone humano”, ele responde. “Eu o vejo como se fosse meu avô”, completa.

Meu papel ali era o de intérprete. Nem todos na mesa falavam inglês. Nosso segurança estava claramente surpreso pelo papo. Nós, absolutamente gratos pela oportunidade.

É impossível chegar à África do Sul despido de pré-conceitos, mas é preciso querer ouvir. E é necessário pelo menos tentar entender o que não nos faz sentido: falar sobre racismo nessa parte do mundo é mais ou menos como falar sobre drogas com holandeses. O que sabemos, o que pensamos, simplesmente não se aplica.

Ou talvez se aplique, sim. “Eu gosto da nova África do Sul”, diz nosso guia. “Mas o problema da tensão racial não foi resolvido, ainda há um longo caminho a seguir”.

Outro colega quer saber se ele assistiu a “Invictus”, filme dirigido por Clint Eastwood em que Morgan Freeman interpreta Nelson Mandela e Matt Damon faz o papel de François Pienaar, o capitão que levou a seleção sulafricana ao título da Copa do Mundo de Rugby de 1995, logo após a chegada de Mandela à presidência do país. “Li o livro primeiro, depois vi o filme”, ele responde. O diálogo que se se segue:

– Aquele momento foi mesmo tão importante?
– Talvez tenha sido o momento mais importante da nossa história.
– Nós podemos acreditar que aquele jogo teve tanto impacto?
– Absolutamente sim.

Por incrível que pareça, os olhos do sulafricano na mesa são os únicos secos. Parte da emoção vem da cena que acontece ao lado. A garçonete que nos atendia, negra, tinha se hipnotizado pela conversa. Prestava máxima atenção na tradução das perguntas, nas respostas e na nossa reação. Ela chamou dois colegas, também negros, e eles ficaram ali, ouvindo.

Se a Copa do Mundo acabar hoje, sem um mísero toque na bola, para mim já valeu.



  • Isa

    Sou apaixonada por futebol: seus esquemas táticos, regras, jogadores e seus relacionamentos com a bola e sem ela. Entretanto, mais apaixonante que o futebol é o que gira entorno dele e que podemos presenciar e apreciar graças a esses relatos. Como a garçonete que ouve atentamente e como espectadora atenta da história, agradeço.

    AK: Eu que agradeço o comentário. Um abraço.

  • Caro André,
    Confesso que esta é a primeira vez que leio seu post mas posso dizer que foi absolutamente suficiente para que, a partir de agora, se tornasse leitura obrigatória. Realmente fantástico! Concordo plenamente: uma oportunidade única ser ouvinte de ‘estórias’ contadas a partir da própria História. Como blogueiro amador, aprecio posts como esse seu. Obrigado e um abraço.

    AK: Seja bem-vindo. Obrigado e um abraço.

  • leonardo atleticano

    André, simplesmente fantástica essa história, sem dúvida é o que falta ao jornalismo esportivo, conteúdo. Você fez o que devia ser feito por todo jornalista, você não inventou, você não foi repetitivo, você não jogou pedra no Dunga para ficar na vala comum e falar o que todos dizem. Você deu informação, você contou uma grande história. Muito legal meu caro, muito legal mesmo, vi a matéria do Tostão dizendo que a mesmice na imprensa está terrível, você fugiu da mesmice amigo, belo texto.

  • Edouard Dardenne

    Essa história revela como a passagem de um evento como a Copa do Mundo pode ser importante para o relacionamento do país sede com o resto do mundo. A passagem mais sintética é essa: “falar sobre racismo nessa parte do mundo é mais ou menos como falar sobre drogas com holandeses.”. E ela, combinada com a reação do segurança de dos garçons, expõe uma sociedade com feridas ainda em cicatrização. Evidentemente, a diferença de cultura se evidencia onde quer que a Copa se realize. Mas quando ocorre no oeste europeu, na América do Norte ou nos desenvolvidos da Ásia, as diferenças são apenas engraçadas. Não na África.
    Finalmente, a sensibilidade e o respeito de quem ouvia a opinião do segurança são fundamentais.
    Eu estou ansioso para assistir a boas partidas, para ver o esforço dos jogadores pelo título esportivo mais importante do esporte mais popular do mundo.
    Mas episódios assim interessam, e dem interessar mesmo, muito mais.
    Um abraço.

  • Thiago Luiz

    Talvez esse tenha sido o maior acerto de uma Copa do Mundo na África: dar a oportunidade que as pessoas vejam de perto o que antes só se conhecia com informações vagas, muitas vezes distorcidas. Conhecer uma cultura totalmente diferente é algo ímpar. Sorte a sua que ainda é pago para isso, André!

  • Genial a história, parabéns pelo texto!
    Abraço

  • Obrigado por brindar os leitores com histórias maravilhosas como essa.

    Parabéns pela cobertura, você merece muito.

    Abração

  • Carlos Freitas

    André,

    Gostei da sutileza e registro a grafia do “pré-conceito”, antes que algum “estudioso” da língua reclame pelo “preconceito”.

  • Mário

    Ler suas histórias é realmente mt bom! Parabéns….

  • Cruvinel

    “Se a Copa do Mundo acabar hoje, sem um mísero toque na bola, para mim já valeu.”

    Incrível! Parabéns pelo texto!

  • alex

    muito legal… o que te leva a uma super, ultra, mega, blaster missão: A de contar TODAS as estórias até a sua volta….

    Quem sabe sai um novo livro. E se acontecer me convida pro lançamento, hein???

    abraços,

  • Bruno

    Uma história como essa vale mais do que o hexa. Parabéns.

  • Willian Ifanger

    Imagino como deve ter sido o impacto de chegar na Africa do Sul e se deparar com uma cidade praticamente européia, branca……como você mesmo disse, são os pré-conceitos. Infelizmente a tensão racial nessa região vai demorar muito pra deixar de existir. Tem as mesmas proporções do que acontece na Faixa de Gaza, entre muçulmanos e judeus.

    Incrível sua capacidade de captar o clima da conversa. Sempre é bom passar aqui e poder ler textos como esse. Você tem uma dádiva, meu caro. Obrigado por compartilhar essa dádiva conosco.

  • Alexandre

    Ao menos, de alguma forma, eles estão atacando este gravíssimo problema. Aqui no Brasil, muitos preferem praticar uma odiosa forma de racismo não assumido, muito mais difícil de ser combatida.

  • Ricardo Leles

    André. Simplesmente sensacional. Impossivel não se emocionar mesmo a distancia. São momentos assim que tornam o esporte tão cativante, ainda que para alguns o ideal de unir os povos fique em segundo plano. Seu testemunho e relato do seguranca ex-soldado sulafricano com relacao ao que o esporte ( no caso Rugby) pode fazer pelas pessoas no minimo se tornou inesquecivel. De arrepiar, já valeu a pena essa copa, só faltou a música “Chariots of fire”como trilha sonora. Abs

  • Peterson David

    É por este tipo de relato, narrado numa emoção contagiante que o blog figura na lista dos meus favoritos.

    abraço!

  • leonardo atleticano

    André, você precisa dar umas aulas de jornalismo ai na África, mostre para a turma que é possível fazer matérias interesssantes em um lugar tão místico e diferente como nesse belo continente. Mostre que se é para ir até a África, para fazer as mesmas perguntas e falar as mesmas coisas que se falou no Brasil nesses últimos anos, era melhor terem ficado quietos aqui no Brasil. Tenho visto um jornalismo rancoroso e pessimista, acho que a mídia hoje tem se mostrado mais amargurada, raivosa e vingativa que o Dunga, é uma marcação constante e as críticas pesadas rolam do nada. O Neymar, que outro dia era o segundo Pelé já está tomando as primeiras pauladas da imprensa, e o Dunga era louco de não leva-lo.

  • Ricardo Inocencio

    Parabéns André, pela oportunidade de ouvir isso da boca do sul-africano e ter compartilhado conosco…grande abraço !!!

  • Rodrigo Arduine

    E esse, simplesmente, o melhor post que já li no seu blog (desde seu primeiro postado no IG). Obrigado!

  • Leonardo Pires

    André, sempre tive a impressão de que a solidão, a distância da família e dos amigos e uma certa tristeza são fortes instrumentos de inspiração que nos permitem transportar mais espontaneamente os nossos sentimentos para as palavras escritas. A cada texto seu dos últimos dias, passo a ter certeza de que sempre estive certo…

  • Anna

    Muito bom o texto. Vi pela primeira vez o layout do impresso do Camisa 12. Interessante. E mais ainda, a colocação de frases no canto superior direito, que você até poderia reproduzir aqui. A última frase fecha com chave de ouro tudo o que foi escrito. Por isso que eu sempre gostei muito da disciplina História, desde criança. Ela fala por si só. E você percebeu isso e se sensibilizou.

  • Emerson

    A última coluna dominical, foi simplesmente espetacular e agora esta história, belíssima.Estes casos, indiretamente ligados ao mundial, são ainda melhores que as informações relativas à escalações, contusões, cortes… Parabéns André, torço para que você se depare com mais situações como esta última, durante sua estadia em terras africanas.

  • QUE post legal Andre. penso que sua profissao lhe proporciona experimentar momentos muito especiais.
    Esta experiencia de conviver com um branco sulafricano deve colaborar para desmistificar varios conceitos pre concebidos.
    legal observar que que o seres humanos em sua essencia buscam o bem, e aquela realidade horripilante que era o apartheid na verdade nao deveria ser a realidade que a maioria branca entendia como correto, mas sim expressava um pensamento inculcado, por decadas, pela elite branca a toda naçao.
    eu entendo que deva ser muito dificil voce ir contra uma ideia, contra um pensamento que é dominante em seu habitat, ainda mais quando este pensamento lhe traz muitas facilidades.
    achei interessante ele manifestar que ainda existe um longo caminho a percorrer, mas pela a conduta da garçonete e dos demais, que todos estao embuidos do proposito de acertar.

    Eu nao vi filme, mas me arrepiei todo somente com o trailer. IMPRESSIONANTE O CARATER E O CARISMA DE MANDELA, somente um ser com uma grande capacidade e principalmente dotado de um Coraçao enorme para conduzir de forma tao correta e positiva uma transiçao que se apresentava de forma tao assustadora!

    um abraço, bom trabalho e continue aproveitando destas oportunidades especiais!

  • André Quaresma

    André, após elogiar muito o seu texto ao seu pai, sugeri que a ESPN fizesse uma matéria sobre isso!
    Seria uma delícia assistí-la, eu fui lendo o texto e imaginando a conversa, quando percebi estava sentado com vcs ouvindo o ex-militar falar! Seria como o INVICTUS, o livro e o filme, no seu caso: o texto e a matéria!

    Já imaginei até o nome (mto criativo por sinal):

    “A África da Copa da África”

    Com toda a minha “experiência” jornalística adquirida nos 5 anos de faculdade de direito, já bolei até a vinheta.

    Algumas imagens do Antero Grecco segurando a Jabulani e gritando o nome do programa igual o “tiozinho” da Copa do Brasil! hehehehehehehe… impagável!

    PARABÉNS!
    Qto a idéia da matéria É SERÍSSIMA! SERIA MUITO LINDA!

    AK: Obrigado. Algumas coisas são muito mais difíceis de fazer em TV. Mas não custa tentar. Um abraço.

  • Rogerio Jovaneli

    André, que bela história. Por mais dura que seja a realidade da nossa profissão, felizmente o jornalismo (esportivo!!!) é capaz de proporcionar momentos maravilhosos como esse, muito bem relatado pelo colega.
    Só senti falta de uma coisa: o nome dos seis jornalistas (no caso, cinco, se considerarmos que você era um deles).
    Acho que seria justo. Afinal, pelo que entendi, os jornalistas fizeram perguntas e, portanto, ajudaram para que tivéssemos conhecimento desse momento especial.
    Abraço e ótima Copa para todos nós. Aqui e aí. Se bem que, muitas vezes, a sensação é de estarmos todos aí…

    AK: Obrigado pelo comentário. Pensei em nomear os presentes ao jantar, mas depois desisti. A coluna não é sobre eles. Um abraço.

  • Rogerio Jovaneli

    Como jornalista, entendi, sim. Como curioso – e acho que outros também sentiram isto -, decepcionado…hehehe
    Abração, cara!

  • Francisco Branco

    Acabei de ler seu texto, através do blog do teu pai. Minha primeira reação foi a de procurar pelo teu blog/coluna aqui no Lance, pra poder deixar meu recado:
    Que sensibilidade e que capacidade incrível a tua, primeiro por captar este momento, e segundo e mais importante, por conseguir transcreve-lo em seus detalhes com tamanha simplicidade e “magia”.
    O esporte eh uma ferramenta de transformação fantástica, e sem duvida, reportagens, ou apenas relatos como este que você deixou aqui, sao historicamente, tao importantes quanto os fatos históricos em si, pois alimentam e fortalecem nossas esperanças de que o futuro pode ser melhor do que o presente.
    PARABÉNS!!!!

  • O André Kfouri escreve de um jeito que toca a alma… não canso de dizer isso…

    Lendo seus textos SEMPRE me imagino ali, vivenciando tudo… tamanha a riqueza de detalhes e emoções…

    Sou fã número #01 desse outrora peixinho… hoje é um Tubarão Branco!

    Leitura diária obrigatória! Deveria ser Lei…

  • Bom dia (aqui no Brasil) André. Obrigado por nos trazer esse lado humano da África do Sul, é realmente tocante. E o que me deixou intrigado, em sequência, foi o fato de você ser o intérprete da mesa. Como que uma empresa escala para uma Copa um jornalista que não fala inglês? Curioso… Abraços e boa cobertura

    AK: Há muitos jornalistas aqui, em todos os veículos de comunicação, que não falam inglês fluente. Há os que não falam nada, os que falam um pouco, os que se viram mas não têm a prática para levar uma conversa ou uma entrevista… enfim, são níveis diferentes. Claro que essa habilidade é levada em conta, mas, para algumas funções, não faz diferença nenhuma. A competência de cada um é sempre mais importante. Um abraço.

  • Régis Marra

    Belíssimo texto André. Se não fosse ler mais nenhuma crônica das muitas que virão sobre a Africa do Sul já valeu a pena por essa. Abraço

  • Thiago Lp

    André, Parabéns pelo blog.
    Depois desse relato, não há dúvidas: a Copa já valeu a pena, mesmo que o futebol apresentado pelas seleções (em especial, a nossa) seja de qualidade discutível… História Brilhante !!!! E o melhor de tudo: o guarda-costas com a consciência de que tinha opinião formada e não se deixava influenciar pelo ambiente e condições racistas da época e o encontro dos maiores ícones sul-africanos em 1995, na política e no esporte. Se nosso país promovesse tais encontros, capazes de mudar a história, com certeza viveríamos numa sociedade mais igualitária e compromissada com todos sem distinção alguma.
    Posso dizer que, como leitor de suas colunas, sem dúvida, essa foi a melhor, senão, a mais marcante, e creio que, pra vc mesmo, foi a mais emocionante da carreira.
    Sem mais.

    Thiago
    Rio de Janeiro

  • SR. Fanfa Barboza

    Que o mundo jornalístico seja tomado de outros ANDRÉS. PARABÉNS

  • rodrigo

    nao assisti o filme mas, com certeza, muitas pessoas nao sabem a “verdade” por tras da final do rugby em 95 na africa do sul. o allblacks tiveram sua comida e agua envenenda (ou “batizada”, como queiram) pelos funcionarios do hotel em que estavam dias antes da final. varios jogadores estavam vomitando e alguns ficaram de fora da final. pergunte aos sul africanos, com certeza eles vao desmerecer a historia mas, alguns, podem confirmar o fato. logicamente, isso nao deve fazer parte do filme. segue o link: http://www.iol.co.za/index.php?set_id=6&click_id=581&art_id=qw961136822629B262&page_number=1

  • Benê Farias

    Excelente texto André! Li no blog do Juca e tive que vir até aqui para dar os parabéns. Somente quem é fã do esporte consegue se emocionar tanto com estas histórias que andam em paralelo com o esporte. Me emocionei muito mais assistindo Invictus do que com muitos outros filmes de drama. E textos como esse me fazem pensar bastante sobre como somos estúpidos em algumas atitudes.

    Te considero um dos melhores repórteres da TV brasileira, e penso que é um desperdício te ver sentado na mesa do Sportscenter, enquanto poderia estar trazendo para o público matérias maravilhosas como esta diariamente.

    Abraço.

  • Rita

    Puxa André, obrigada pelo relato.
    Sinto falta, na TV aberta epecialmente, que mostrem essa África do Sul.
    Estamos diante de uma oportunidade incrível, para que a sociedade de uma forma geral tire bons aprendizados.

  • Oi André,

    Estou um pouco atrasado na leitura dos posts, por conta de trabalho, mas sou um amante da natureza humana. Os meus olhos tb não conseguiram ficar secos lendo o seu relato. Obrigado por nos trazer a emoção de um simples diálogo. Um abraço.

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