COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

É COPA, AMIGO

Escrevo esta coluna do avião, a caminho de Johanesburgo. Pela terceira vez na vida, terei a oportunidade de cobrir uma Copa do Mundo, o que, confesso, é difícil de acreditar.

A primeira foi em 1998, na França. Eu tinha 24 anos, era o único repórter da ESPN Brasil responsável pela cobertura da Seleção Brasileira. Sabia que, sozinho, não teria todas as notícias, todas as entrevistas importantes. Cedo ou tarde, alguma coisa aconteceria e eu não poderia fazer nada. Armei uma rede de contatos com os telefones celulares de dezenas de colegas e enchia a paciência dos caras a cada começo de noite. Naqueles 60 dias, meu maior medo era ser o único a não ter “a principal história da Seleção”. Felizmente, “a principal história” só aconteceu na tarde da final. E ninguém deu.

Isto à parte, a Copa de 98 foi só alegria. Quando se é tão jovem, não se tem ideia do tamanho das coisas, de o quanto elas são difíceis. Você apenas vive o sonho da sua profissão. E sem dramas pessoais. Eu tinha acabado de conhecer minha mulher, sabia que ela estaria me esperando (ok, eu não sabia, mas torcia), então não havia motivos para preocupações.

A segunda vez foi em 2006, na Alemanha. Tudo já era completamente diferente. A estrutura da ESPN na Seleção Brasileira tinha cerca de 25 pessoas. Estúdio, redação, unidade móvel para entradas ao vivo, basicamente o pacote completo.

Já a parte pessoal sofreu mais. Quem tem família e pensa nela como um time, se pune triplamente por estar ausente. Primeiro pela saudade que vai e volta, mas sempre é pior na hora de dormir. Depois porque há um pensamento que não vai embora: “e se elas precisarem de mim?”. Fora o que você perde quando não acompanha dois meses da vida de uma menina de um ano e meio. Na volta, ela é outra criança.

A Copa de 2006 me proporcionou momentos incríveis. Um deles sempre aparece em conversas sobre “jogos marcantes”. Brasil x Croácia, a estreia. O Olímpico de Berlim é um desses estádios que deixam qualquer um boquiaberto pela beleza, pela harmonia entre velho e novo, pelo significado. Chegamos cedo e fui passear. Na hora em que os portões se abriram, eu estava do lado externo do anel superior, de onde se pode ver a rua e um parque que fica na frente do estádio. A imagem era magnífica: dois mares de gente, um verde e amarelo e outro vermelho e branco, rumando lado a lado a caminho da entrada. Era fim de tarde, o sol estava indo embora, uma luz dourada tomava conta da cidade. Parei e fiquei olhando, tentando entender que poder é esse que o futebol tem sobre as pessoas.

Não havia outro lugar no mundo onde eu quisesse estar. Mas, longe de casa havia quase um mês, a saudade já era enorme. Liguei para minha mulher e deixei um recado em que descrevia a cena e dizia que estava muito feliz, mas me faltava a presença dela e de nossa filha (única, à época). Entrei num banheiro, chorei uns cinco minutos e fui trabalhar.

Agora estou aqui, dentro de um avião, torcendo para que tudo aconteça de novo.



  • Anna

    Gostei muito dessa coluna, principalmente a parte que voce liga para sua esposa e compartilha o momento que viveu! Muito bonito! 🙂 Hoje posto cedo porque vou me ausentar o domingo inteiro com estudos e compromissos! Ótimo domingo aí na Africa do Sul!!!

  • Willian Ifanger

    Que inspiração, hein? Duas colunas espetaculares.

    Como a parte da família não tem muito como consolar, só pense no lado bom da aventura…..alguma chance de você estar ao vivo aqui durante os jogos?

    AK: Durante, não. Nossas transmissões não terão participação de repórteres. Mas faremos muita coisa ao vivo, todos os dias, no decorrer da cobertura. Um abraço.

  • Fábio Bruxel

    André, creio que além de cumprir com seus deveres profissionais visando fazer um bom trabalho pra ESPN, você também faz isso pelo torcedor, pra trazer notícia de qualidade para quem gosta de te ler.

    Parabéns pela ótima coluna e muito obrigado por tudo!

    Força!

  • Rejane

    Olá André! Parabéns pela coluna! Fiquei emocionada com a coluna imaginando se eu ficasse longe dos meus sobrinhos por quase dois meses sofreria muito! Tudo de bom na cobertura da Copa da Africa!

  • Rubinelson

    André, se nao quiser responder eu entendo, mas porque voce nao cobriu a copa de 2002?

    AK: Por que eu não responderia? A ESPN não transmitiu a Copa de 2002. A emissora decidiu mandar duas equipes de reportagem à Ásia, que mesmo sem credenciais da Fifa, fizeram um ótimo trabalho jornalístico. Eu fiquei no Brasil. Naquele ano, fui ao Campeonato Mundial de basquete em Indianapolis, que a ESPN mostrou. Um abraço.

  • Luis André Gomes

    Oi André! Sensacional a coluna! Parabéns. Estou tendo essa sensação de trabalhar e deixar a família longe. Tem seus (muitos) pontos positivos, mas a saudade e a vontade de compartilhar cada momento (como o pôr-do-sol em Berlim) com quem você gosta fazem com que essa experiência fique um pouco amarga. UM GRANDE ABRAÇO! BOM TRABALHO!

  • Leonardo atleticano

    André, muito legal seu texto, já fiz viagens curtas a trabalho, tenho dois filhos e sei como senti saudades, sei que seu trabalho é fantástico, e o coloca como testemunha de fatos inesquecíveis. Tenha certeza que sua família vai sentir muita saudade, mas o ótimo, é que vão sentir muito orgulho tambem, você tem feito grandes trabalhos.

  • Boa sorte, André.

    E minha total e irrestrita solidariedade no assunto “saudades da família”.

    (E antes que eu me esqueça: o nome da minha mãe era Luiza e o da minha caçula é Júlia.)

  • yuri – paris

    Meu caro André,
    Estamos todos aqui, do outro lado do computador, acompanhando seu trabalho. Boa sorte e boas histórias!
    E eu tenho uma dúvida e um comentário.
    Não foi o repórter de 24 anos, sozinho e com medo de perder “a notícia”, o único a ver e a sustentar (contra tudo e todos): “foi penalty, sim!”, no jogo contra a Noruega?
    E como eu perco o amigo mas não perco a piada, aí vai: vc é pé frio, meu caro. Sai daí. O Brasil ganhou em 94 e 2002 (Andrezão longe…), e perdeu tristemente em 98 e 2006 (Andrezão ali!). Ou, pelo menos, se cruzarmos com a França, arruma uma desculpa e não me apareça no estádio. ;o))
    Um abraço do,
    yuri

    AK: Pois é, meu problema são os franceses… sobre o pênalti contra a Noruega: sim, foi. Obrigado pelo comentário. Um abraço.

  • Ricardo Inocencio

    Uma pena né André ???

    Justo na Copa que o Brasil saiu campeão você não estava lá pra presenciar “in loco”.

    Quem sabe agora ??

    E o Mundial de basquete daquele ano foi inesquecível, com a Argentina eliminando os americanos e fazendo uma final memorável contra os sérvios (que foram campeões ajudados pela arbitragem)…

    Só quem é pai sabe como é complicado trabalhar e ter que ficar longe das “crias”, mesmo que seja por um dia, imagine por dois meses !!!!

  • Leonardo

    E aí, André…
    Muito legal a sua coluna……
    É bom ver que ainda tem gente que dá muito valor a família. E é bom ver a qualidade do seu trabalho, como toda a equipe dos canais ESPN…..
    Abraço,
    Léo

  • Touché! São por textos como este que sigo seu trabalho – há muitos anos, diga-se.
    Como jornalista, você é muito bom, mas como colunista [modo heresia ligado] você está pau-a-pau com o Tostão: excepcionais.

  • Gustavo Xavier de Almeida

    Andre, vc eh fera! simplesmente fantastico seus posts. Vc me faz sentir presente em lugares inatingiveis por ora, meu trabalho obriga-me a ausencias semanais e eu tb sinto saudades de minha mulher e filha (1 ano e 8 meses), eu tb choro ao sair de casa e deixa-las sozinhas.
    Vc eh o unico jornalista q eu acompanho diariamente, preciso escrever mais vezes.
    Boa COPA DO MUNDO e bom retorno, q sua familia continue unida e feliz…

  • Rogerio Jovaneli

    O texto é emocionante. O comentário “Canalha” do yuri também foi legal. Divertido.

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