COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

O MURO FOI JULIO

Thiago Motta tinha acabado de ser expulso por um árbitro belga conhecido pelo rigor disciplinar. O volante brasileiro não quis acertar o rosto de Sergio Busquets, mas deu azar diante do apitador errado. Quatro minutos se passaram entre o cartão vermelho, o choque italiano no Camp Nou, e a readaptação a um jogo de vida ou morte.

Um gol do Barcelona naqueles momentos, quando a Internazionale ainda tentava descobrir como compensar a desvantagem numérica, seria um golpe quase impossível de assimilar. Trinta e dois minutos do primeiro tempo, sem o jogador que tinha parado Léo Messi no jogo de ida… se houvesse “tempo técnico” no futebol, José Mourinho chamaria seus jogadores para uma conversa.

Mas não há. E também não há tempo para ficar pensando muito, quando o melhor time do mundo, que tem o melhor jogador do mundo (a não ser que você faça parte da “turminha do contra”, aquela que acha que Zico só jogou bola no Maracanã, que Ronaldinho Gaúcho nunca passou de um firuleiro e que o Ronald Koeman é que era craque) está babando para fazer o primeiro gol.

Touré Yaya domina a bola na intermediária, Messi corta da direita para o meio e recebe. No momento em que o argentino ajeita com o pé direito e foge do carrinho de Javier Zanetti, milhões de pessoas já sabem o que ele vai fazer. Craques são imprevisíveis, mas têm certos movimentos padronizados. Um, dois toques de pé esquerdo na bola, e já chegando à área, Messi arma o chute. É exatamente esse chute que você está pensando: meia força, meia altura, rente à trave. E entre todos os jogadores em campo, só dois têm a possibilidade, e a obrigação, de lidar com ele. Um é o zagueiro, também argentino, Walter Samuel. O outro é o goleiro brasileiro Julio César.

Samuel já participava do lance. No instante em que Messi escapou do bote de Zanetti, ele se aproximou para fechar o ângulo. O zagueiro pareceu vencido pelo segundo toque, mas se recuperou a tempo de se atirar na frente do 10 do Barça. Julio César estava exatamente no meio do gol, dois ou três passos para dentro da pequena área. Posição perfeita para reagir ao chute que ele também imaginava como seria.

Quase sobre a linha da meia lua, Messi bate. Parte interna do pé esquerdo, de curva, bola teleguiada para chegar ao canto direito baixo do gol, passando pela luva e pela esperança do goleiro. Julio voa, se estica e a toca com os últimos milímetros da mão direita, inspirando um jornalista italiano a escrever, no diário La Gazzetta dello Sport do dia seguinte: “se tivesse cortado as unhas…”.

A bola passa à direita do gol, perigosamente perto da trave. Julio se levanta e vibra, o volante Esteban Cambiasso faz o mesmo gesto. Lucio, que correu para dentro da área para acompanhar Zlatan Ibrahimovic, vê a defesa e aplaude o companheiro de clube e Seleção Brasileira.

A Inter se defendeu à exaustão, resistindo a uma blitz traduzida pelo impressionante índice de posse de bola do Barcelona: 75% do tempo.

Mas quem decidiu o jogo, e a vaga na final da Liga dos Campeões, foi Julio César.



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