COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

DO ROCK À BOSSA NOVA

A Seleção Brasileira não vai ganhar a Copa do Mundo. Do atendimento à imprensa. Lógico, falar e aparecer não deve ser o objetivo de quem vai a um Mundial. Mas é bem provável que a imprensa brasileira encontre, na África do Sul, o time menos acessível dos últimos tempos.

As emissoras de televisão do Brasil que transmitirão a Copa já foram avisadas, pela assessoria de imprensa da CBF, que não terão autorização para transmitir os treinos do time. É uma determinação da comissão técnica, com o propósito de garantir o controle sobre o ambiente de preparação. Será permitido gravar os treinamentos, mas não exibi-los ao vivo, como ocorreu quatro anos atrás, na Suíça/Alemanha.

Alguém pode perguntar qual é a diferença, para o técnico e os jogadores, se um treino é mostrado no momento em que acontece, ou se é apenas registrado pelas câmeras. A resposta passa por algumas situações. A primeira é a circulação de pessoas “estranhas” ao local de trabalho da Seleção. Se não há transmissão ao vivo, elimina-se todo um aparato técnico em volta do campo, com cabos, equipamentos e profissionais para operá-los. Menos gente significa menos interferência e menos problemas, principalmente se os jornalistas forem colocados numa área restrita.

Outro motivo é o circo que se formou em Weggis, na pré-Copa de 2006. Na Suíça, o direito de transmitir ao vivo os treinos do Brasil foi negociado com uma emissora local, o que ajudou a transformar a passagem da Seleção pela cidade em algo semelhante a uma banda de rock em turnê. O rolar pela grama de jogadores com torcedoras que invadiram o campinho (usando roupas muito mais justas do que suas formas permitiam) foi apenas um dos aspectos do espetáculo. Na África, ao que parece, o mal será cortado pela raiz.

E há também uma questão técnica. Treinadores têm o hábito de pedir para que as câmeras sejam desligadas em certos momentos durante os treinos, especialmente para esconder o trabalho de jogadas de bola parada. Algo bem mais complicado se houvesse certamente três, e possivelmente cinco, emissoras de TV conectando a África do Sul ao Brasil, via satélite. Dunga também deve gostar da opção de simplesmente fechar um treino para os jornalistas, ou nos deixar entrar apenas no final. Medidas que, diga-se, são direito dele. Direito exercido sem nenhum constrangimento pela grande maioria dos técnicos de seleções e clubes de outros países.

A parte mais interessante do relacionamento entre a Seleção e os jornalistas nem é essa. É o contato, quase sempre diário, nas zonas mistas e nas entrevistas coletivas. Em 2006, o acesso era tamanho que impressionava nossos colegas europeus. Os jogadores passavam por um corredor decorado com os patrocinadores da CBF, entre o ônibus e o vestiário. Claro que não eram obrigados a parar e falar, mas o encontro aconteceu todos os dias, antes de todos os treinos. O Brasil não perdeu a Copa por isso.

Em 2010, pelo que se fala, serão três jogadores por dia. Não é pouco. Mas comparando com a Copa da Alemanha, a banda de rock se transformará em João Gilberto.



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