COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

É O COMEÇO, NÃO O FIM

Minha relação com a classe política brasileira é inexistente. O sentimento que tenho por ela é de cinismo, nos bons dias. Nos ruins, desprezo. Não me surpreendo com nada que se descubra, independentemente do nível de desfaçatez. Também não espero nada de bom. A cada eleição, voto em quem considero menos pior, menos sujo, menos repugnante. Não me animo, não tenho esperanças, não acho que minhas filhas verão algo melhor.

É horrível, eu sei. Principalmente porque a geração dos meus pais não teve, por exemplo, liberdade para exercitar essa franqueza numa coluna de jornal. Sou mimado pela democracia, aceito a crítica. Mas a decepção que percebo em quem, um dia, acreditou, ajudou a moldar minha descrença. Nossos representantes podem não ser meus, nem seus, mas são nossos porque refletem o que somos como sociedade. E não se interessam por mudanças porque mudanças, para eles, são ruins. A não ser que seja para “melhor”. O que é pior.

Por isso é difícil acreditar no projeto de lei proposto pelos vereadores paulistanos Antônio Goulart (PMDB) e Agnaldo Timóteo (PR), que pretende alterar o horário dos jogos de futebol na cidade. A ideia, aprovada por unanimidade em primeira votação, determina que as partidas não podem terminar depois das 23h15.

Não me entenda mal: nada tenho contra os dois nobres vereadores. É verdade que quando penso na Câmara, lembro do adesivo “Eu tenho vergonha dos vereadores de São Paulo”, sucesso no trânsito paulistano há alguns anos por causa da “máfia dos fiscais”, hoje menos numerosos na maior cidade do país dos escândalos semanais. Mas o assunto aqui é futebol. E ainda preciso deixar um ponto bem explicado: acho péssimo o futebol às 22 horas. Péssimo.

Só que não consigo entender a grande diferença que existe entre um jogo que termina às 23h45, como hoje, e um jogo que termina às 23h15, como se pretende. Do ponto de vista da “defesa dos interesses do torcedor”, meia hora é muito pouco.

O argumento mais usado é o do transporte público. Nos dias úteis, o metrô fecha por volta de meia-noite. Pergunta: se a proposta de lei for aprovada, o que acontecerá quando houver prorrogação e/ou pênaltis? O texto dos vereadores Goulart e Timóteo nada diz a respeito dessa possibilidade. Sustentar que são poucos, a cada temporada, os jogos que vão além do tempo normal é pior ainda. Estamos falando de uma lei, não estamos? Não se pode aprovar uma lei sem as condições para que ela seja cumprida, especialmente num país em que leis são vistas, pela maioria, apenas como sugestões.

O que nos leva ao ponto central do problema: no texto original, o único objetivo que o projeto atinge é atrapalhar a grade da TV Globo. E isso é, para usar um termo leve, intrigante.

Na próxima terça-feira, haverá uma audiência pública na Câmara Municipal para que a ideia seja discutida. Nossa humilde contribuição: concentrem-se no início dos jogos, não no final. Que as partidas comecem, no máximo, às 20h30.

Aí, sim, o torcedor será defendido.



  • Roberto Carlos

    Andre
    Já imaginou o Timão campeão da Libertadores e jogo terminando numa quarta feira a meia noite? se tiver disputa de penaltis então piorou. A Fiel é composta por trabalhadores que acordam cedo para trabalhar, não vai dar para festejar.
    Abraços
    Roberto Carlos

  • RICARDO

    André boa tarde

    Simplesmente perfeito!!!
    Jogos as 21:30/35/40/45/50 … Não farão a diferença, agora as 19:30 e 20:30 é outra coisa.
    Só q a venus platinada, como diz o Malia, não vai deixar né

    Abraços
    Riba

  • Matheus

    Brilhante. Assino onde?

    PS: E na Paraíba, que existe um projeto de lei (acho que já aprovado) que proibe uso de termos chulos nos estádios… Grande serviço dos deputados de lá, hein?!

    AK: Eles são muito ocupados… Um abraço.

  • robfarah

    O único problema nessas discussões é que o pessoal esquece da dificuldade pra se chegar ao estádio.

    Com jogo às 20:30, é preciso chegar umas 19:30-20:00 no estádio, o que em São Paulo é impossível por causa do trânsito, a menos que se saia do trabalho às 18:00.

    Jogo às 22:00 tá ótimo. Depois do jogo não tem trânsito e dá pra voltar pra casa rapidinho.

    Aliás, o fato de atrapalhar os que dependem de condução, é um dos motivos pelos quais há menos confusões em jogos noturnos do que nos vespertinos.

  • O texto da lei fala em tempo regulamentar? Cita por exemplo que o tempo regulamentar do jogo não deve ultrapassar 23:15? Se não for o caso, a lei não deveria ser interpretada de forma que em jogos onde haja a possibilidade de prorrogação e pênaltis, a partida deverá começar em tempo hábil para que o caso do tempo extra e da disputa de penalidades esteja dentro do limite de 23:15? Se o limite de horário implicar ao evento inteiro, não só ao tempo regulamentar da partida, no caso da decisão de um título, o tempo usado para entrega de medalhas e taças tb não deverá ser calculado de forma a que tudo termine dentro do limite de 23:15? Se a interpretação da lei (que é o que realmente vale) seguir esta linha, já será um bom começo, pois em casos como o último exemplo, um jogo começando às 20:30 que tenha prorrogação e pênaltis e ainda entrega de taças, não terminará antes da meia noite. Seguindo este raciocínio, acho importante ter um limite de horário de começo da partida, mas tb um limite para o final do evento, o que faria com que jogos diferentes tenham limites de início diferentes. Posteriormente, podería-se definir na propria lei quanto tempo deve ser levado em conta pro caso de entrega de medalhas e de taças. Espero não ter embolado muito na explicação, mas é simples: Nenhum jogo começa depois de 20:30 nem termina depois de 23:15, sendo que o horário limite do final do evento deverá incluir possíveis prorrogação, pênaltis e entrega de^premiação. Para esta última, deverá ser reservado o período de 45 minutos (por exemplo). Assim, uma final de libertadores, por exemplo, começaria no máximo, às 20:00. Seria fantástico, não???!!!

  • Emerson

    Concordo com você André,tenho certeza de que esta lei não será sancionada, até porquê, no atual momento da administração Kassab,isto é,enfrentando alagamentos na cidade e,principalmente, o risco de ser cassado,não creio que o prefeito irá procurar nenhum tipo de atrito com a TV Globo.Ele sabe muito bem o que isto pode custar…

  • Edward Fernandes

    André,

    1º) Sugiro que vc não divulgue a sua descrença dos políticos (apesar de ter tôda razão) pois precisamos ter esperança que é a ultima que morre.
    2º) Horário de qualquer espetáculo não deve ser objeto de lei. (a não ser aquele horário que é prejudicial a saúde dos praticantes). Quem não concorda com o horário que não vá ao espetáculo até que se encontre o melhor horário para a maioria dos interessados.

    Abraços

    Edward

    AK:

    1) Agora é tarde.

    2) Concordo. Mas já que se fala em lei, que pelo menos seja útil.

    Um abraço.

  • Massara

    André, o horário ideal é mesmo às 20h30. Porque se o jogo começa antes disso, o trânsito da hora do rush não permite aos torcedores o comparecimento tranquilo aos estádios. Aí já entramos na discussão a respeito da (falta de) qualidade do transporte público.

    Abs.

  • Marcel Souza

    André, não moro em São Paulo, mas jogos iniciando as 20:30, com o trânsito daí, o povo consegue chegar? Pelo menos em jogos “grandes” (finais, etc), eu acho que fica complicado. Mas sou totalmente a favor das partidas começarem mais cedo. Começar as 22 é muito ruim!

  • Rodrigo Neves

    André,

    Quando você vai ao estádio em jogo que começa às 20:30hs, que horas você sai de casa?? Pretende chegar antes ou depois do início do jogo??

    Já ouviu falar em trânsito, engarrafamento, lanchar/jantar??

    Abraços,

    Rodrigo Neves

    AK: “Quando” eu vou ao estádio, e eu vou ao estádio todas as semanas, eu chego bem cedo. Mas meu exemplo não vale, pois é meu trabalho. Não, nunca ouvi falar em trânsito, engarrafamento, lanchar/jantar. O que é isso? Um abraço.

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