COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

ATUALIZAÇÃO DE SISTEMA

Talvez você considere Robinho um triatleta (se ainda não conhece a piadinha: pedala, corre e nada… rá, rá, rá). Eu não. Para mim, o ex-menino da Vila é um jogador imensamente talentoso, cuja carreira entrou em “modo virtual” em algum momento durante o período na Espanha. Você podia vê-lo na galáxia do Real Madrid, mas na verdade o que brilhava era uma luz que não estava lá.

A transferência para o Manchester City, alimentada por sentimentos feridos pela possibilidade de ser o contrapeso de Cristiano Ronaldo (e de acordo com Luiz Felipe Scolari, pela falta de escrúpulos dos que lucraram alto com a negociação), foi o desvio definitivo do caminho que se imaginava para ele. Mas é cedo, ainda, para declará-lo definitivamente uma foca do futebol ou um malabarista que errou de palco.

Seja qual for o principal motivo do retorno de Robinho ao Santos (a “busca da felicidade”, à la Adriano; a necessidade de jogar frequentemente para ir à Copa do Mundo; o medo da ressurreição de Ronaldinho Gaúcho na Seleção; ou de tudo isso um pouco), é seguro afirmar que as chances de sucesso são grandes. Ele está de volta ao berço de sua carreira e terá todas as oportunidades de se manter em campo, sem precisar se adaptar aos conceitos, corretos ou não, de técnicos europeus. De fato, o que acontecerá no Santos é justamente o contrário, porque o time não pode desperdiçar um reforço desse porte.

Mas o que deve ser determinante para que Robinho retome o nível de futebol que se espera, e chegue à Copa do Mundo confiante, é a qualidade da competição que ele terá por aqui. O que acompanhamos, ano após ano, em nossos estádios é o que pode ser chamado de “série C” do futebol mundial.

Os melhores jogadores do mundo estão nos principais campeonatos europeus. Os que não estão nesse patamar jogam em países como Portugal, Rússia e Turquia. Aspirantes às séries A e B, e os que não têm essa pretensão, estão no Brasil e em outros centros sul-americanos. É claro que há exceções, injustiças e exageros, mas essas são as linhas gerais. O que nos diferencia e qualifica nossos campeonatos é a inexplicável e (aparentemente) infinita capacidade de produzir jogadores muito acima da média, em grande quantidade. São os jovens que, em breve, veremos apenas pela televisão.

Dois deles estão no Santos, são os meninos atuais: Paulo Henrique Ganso (20 anos) e Neymar (18). Ao mesmo tempo em que contribuirão para o sucesso de Robinho, se beneficiarão dele. Neymar, especialmente, terá o privilégio de ver e estrelar um filme de seis meses sobre a própria vida, tantas são as semelhanças (surgimento precoce, estilo de jogo, expectativas e dificuldades) entre ele e o novo companheiro.

Quando Robinho reestrear, como titular, amanhã no Pacaembu, o Santos receberá um jogador diferente, que não precisa “ser recuperado” para o futebol. Só precisa resgatar os objetivos que tinha quando era um menino (aos 26 anos, já passou dessa fase) driblador e atrevido.

A camisa é a mesma.

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Nada a ver com a coluna, mas não dá para ignorar a interessante entrevista publicada hoje no caderno Ciência da Folha de S. Paulo, com Mark Frankel, cientista americano especialista em modificação genética.

Escolhi três trechos:

Folha – O doping do futuro é genético?

Mark Frankel – Sim. Nós sabemos agora que existem genes com impacto na velocidade, nos músculos, na resistência. Acho que, nos próximos anos, vamos saber cada vez mais sobre eles e sobre outros genes. Mas ainda temos muito a aprender sobre o que os genes controlam no corpo humano. Além disso, existem outros fatores que importam no desempenho de um atleta, como o tipo de vida que ele tem, o seu treinamento. Mas a comunidade olímpica precisa estar preparada para o próximo grande passo do doping, que envolve os genes. Até onde sabemos, o doping genético ainda não aconteceu, mas vai. É inevitável.

Folha – Já existe algum tipo de assédio aos cientistas por parte de atléticas e técnicos em busca de doping genético?

Frankel – Sim. Deixe-me contar uma pequena história. Há um pesquisador na Universidade da Pensilvânia que, alguns anos atrás, estava fazendo pesquisas com camundongos. O esforço dele era para aprender a aumentar a massa muscular dos bichos de maneira segura, para poder utilizar isso, um dia, em idosos humanos. Ele, então, publicou a pesquisa e ela apareceu em jornais. Poucos dias depois, ele recebeu ligações de atletas e técnicos querendo informações, querendo saber se aquilo estava disponível para eles usarem. Ele disse “não, eu trabalho com camundongos! Não está pronto para seres humanos”. Então perguntaram a ele quando estaria pronto, e ele disse que demoraria, porque primeiro teria de passar por testes clínicos para saber se seria seguro. Então ele escutou: “Mas tem como alguns dos meus atletas participarem desses testes?”. Mas atletas não são pessoas doentes, são saudáveis! E existem vários outros exemplos de casos assim.

Folha – Se os atletas quisessem, teriam acesso hoje a esse doping?

Frankel – Você poderia entrar na internet agora e comprar tudo de que você necessita para fazer geneterapia. É onde as universidades compram. Não é como esteroides, que são ilegais em muitos lugares. O material utilizado para geneterapia não é restrito. Não sabemos de ninguém que tenha tentado, mas existem pouquíssimos obstáculos para tentar, especialmente se você não se importa com os efeitos colaterais.

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Comentário do blog: obviamente, não há teste para doping genético, apesar dos esforços da Wada (Agência Mundial Antidoping). E se já há relatos de contatos de técnicos e atletas com cientistas envolvidos com esse tipo de pesquisa, não é um exagero imaginar que alguém, em algum lugar, já esteja usando o que se conhece sobre o tema.

Acredite: no esporte, a fila das “cobaias humanas” não é curta quando se trata de vantagens que podem resultar em glória e fortuna. E a última resposta acima não deixa dúvidas sobre o acesso.

A chamada “preparação química”, por mais poderosa que seja, em breve estará no passado.

Se já não estiver.



  • BASILIO77

    ROBINHO = CRAQUE NO AUGE.
    GIOVANI = CRAQUE NO OCASO.
    NEYMAR TEM TODA PINTA QUE SERÁ UM.
    GANSO, PREFIRO ESPERAR MAIS…POR ENQUANTO É BOM JOGADOR, O QUE NÃO É POUCO PARA UM MEIA DE 20 ANOS.

    SFC É O FAVORITO AO PAULISTA, TEM UM BOM TIME/TREINADOR, NÃO ESTÁ NA LIBERTADORES E TEM SIDO FAVORECIDO PELA “TROCA DE MANDO VOLUNTÁRIA”.
    ABRAÇO.

  • Eu acho que o Robinho deve servir de lição para Neymar e Companhia, não precisa tanta desespero para ir jogar na Europa por causa dos milhões de euros. Os milhões vêm mais cedo ou mais tarde. O talento de Robinho ficou perdido, e ninguém sabe se tem recuperação, entre Espanha e Inglaterra e entre as festas.

    Falando em campeonato inglês veja o golaço de Darren Ambrose. O cara bateu uma falta a 34 metros de distancia e acerto o ângulo. http://futebolaovivoonline.com/video-golaco-de-darren-ambrose/

  • Gostei da coluna, André! Sempre direto aos pontos e aos fatos.
    Sempre gostei do Robinho, mas acredito que ele perdeu a vontade de jogar há muito tempo, quando passou a gostar mais do dinheiro e das baladas do que das pedaladas e dribles que o consagraram (o Rogério que o digue). Espero que agora, de volta ao Santos, ele não esteja só em busca de se firmar na Seleção Brasileira, mas, sim, do incrível jogador que já foi.
    Ah, sim, me desculpe a propaganda (sei que aqui não é o espaço apropriado pra isso), mas gostaria que você lesse o texto que fiz sobre o acidente nas Olimpíadas de Inverno no meu blog. Espero que você comente algo sobre o assunto por aqui!
    Grande abraço…

  • Angelo

    Entro neste blog para ler alguma cronica sobre o jogo do Vasco X Fluminense e absurdamente nada, nada encontro…
    saudades de Nelson Rodrigues…
    que pobreza este site!

    AK: Conhece o ditado sobre o apressado?

  • Angelo

    Errata: neste site!

  • Leonardo Lopes

    Por isso que Bolts e Phelps me assustam! Espero estar errado, mas onde tem muito (mas muito mesmo) dinheiro envolvido, eu espero tudo…

    Abraço.

  • Daniel

    André,

    Respeito muito suas opiniões mas acho que você exagere muito quando qualifica o futebol brasileiro como série “C” do futebol mundial. Acho que precisa separar um pouco as coisas, ou seja, se levar em consideração estrutura, organização, seriedade etc pode classificar o nosso futebol como série “Z” do futebol mundial com todo o meu apoio. Porém, se você analisar o futebol praticado(dos principais times), os jogadores e parte técnica acho que o nosso futebol não perde em nada para o futebol europeu. Sou um cara que vai meio que na contramão de quase todos os brasileiros neste ponto mas acho que há muita confusão nesta análise: Coloque o futebol europeu na organização(ou na falta dela!), na estrutura e na falta de seriedade dos cartolas e profissionais do ramo e você irá enxergar um jogo completamente diferente do que você vê quando liga sua TV e assiste os “grandes’ jogos da Liga dos Campeões e dos melhores campeonatos europeus. Eu não sou muito fã de assistir a jogos europeus porque sempre que tentei(salvo, lógico a algumas exceções) não consegui pois o nível apresentado era semelhante à nossa 2ª divisão.

    AK: Desculpe, confusão é querer fazer um exercício impossível, como o que você sugere. Mesmo porque é (entre outros fatores) exatamente por causa dos nossos problemas de estrutura e organização que somos a série C. Se o futebol brasileiro fosse um pouco mais bem conduzido fora do campo, creio que seríamos mais competitivos em relação aos centros mais importantes. Talvez nossos jovens não sonhassem em sair tão cedo do país. O que não depende de opinião são os três níveis que citei na coluna: onde estão os melhores jogadores do mundo, onde estão os aspirantes a esse patamar, e onde estão os que sonham e/ou já não sonham mais. Um abraço.

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