COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

NÃO SERÁ UM DOMINGO QUALQUER

A melhor história sobre o Super Bowl XLIV é a chance de vitória do New Orleans Saints, tendo em vista a catástrofe do furacão Katrina, em 2005. Não creio que haja discussão sobre isso, assim como não creio que alguém seja capaz de lamentar se os Saints ganharem.

É óbvio que a tragédia humanitária, as vidas perdidas e as que foram afetadas para sempre, são incomparavelmente mais importantes do que um jogo. Mas quando se relaciona a vida com o esporte (e não há nada na vida que não possa se relacionar ao esporte), a trajetória do time de futebol da cidade de Nova Orleans é tocante.

O Superdome, casa dos Saints, foi transformado no principal abrigo da região. O estádio recebeu as pessoas que perderam tudo nas inundações provocadas pelo furacão, e fez dos Saints um time nômade. O clube mandou jogos no Alamodome de San Antonio, no estádio da Universidade de Louisiana State, e teve de ir a Nova Iorque enfrentar os Giants, com mando invertido numa segunda-feira à noite, em rede nacional de televisão.

Agora, quatro anos e meio depois, os Saints estão no Super Bowl. No primeiro Super Bowl. E já há uma “parada da vitória” marcada para terça-feira em Nova Orleans, seja qual for o resultado. Não é vitória cantada antes da hora. É que mesmo se perder, Nova Orleans ganha. Como discordar?

Os Saints jamais conquistaram um título. E a pessoa que tentará impedir o troféu inédito é o que torna essa história ainda mais especial.

Peyton Manning, quarterback do Indianapolis Colts, nasceu e cresceu em Nova Orleans. O pai dele, Archie, jogou 12 anos nos Saints. O irmão mais velho dele, Cooper, ainda vive na cidade e é um dos melhores amigos de Drew Brees, o atual quarterback do time.

Pense o seguinte: você, ainda menino, escolhe um time para torcer, obviamente porque é o time em que seu pai joga. Você cresce torcendo por esse time, sofrendo durante as seguidas temporadas miseráveis. Seu irmão do meio vira jogador profissional, segue a vida e a carreira em outra cidade. O mesmo acontece com o irmão menor (Eli, quarterback do NY Giants). Você torce por eles, lógico. Mas seu time é seu time. Um dia, depois de tantos anos de derrotas, a chance de um título finalmente se apresenta. E quem está do outro lado, para evitá-lo, é seu irmão. Roteiro de filme bom. E não é necessário entender ou gostar de futebol americano para saber por quê.

Agora, não há dúvida sobre a escolha dos Mannings no jogo de amanhã. Simplesmente não se torce contra o próprio sangue. Mas também não há dúvida de que, para eles, seria muito melhor que o adversário dos Colts fosse outro (desde que não os Giants, lógico).

Cooper Manning declarou à imprensa americana que da mesma forma que odeia quando os irmãos se enfrentam, também não está gostando nada disso. Angústia compreensível. Mas Cooper deve saber que a situação dele é como a de Nova Orleans.

Mesmo se perder, ganha.



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