COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

PÉ NO ASSOALHO, OLHO NA TAÇA

“Um carro cola no da frente, e eles dividem a resistência do ar”, explica Cole Trickle (Tom Cruise) à Dra. Claire (Nicole Kidman, ainda jovem), após os dois quebrarem o protocolo da relação médico-paciente, em “Dias de Trovão”. “O carro da frente tem de acelerar tudo, mas o de trás consegue manter a mesma velocidade com menos potência”, continua o piloto. “Após a última curva, o carro de trás abre, ultrapassa e ganha a corrida”.

Dra. Claire não se animou muito com a explicação física do “vácuo” no automobilismo, mas você deveria se interessar. Pode estar acontecendo no Campeonato Brasileiro.

O carro da frente, hoje, é o São Paulo. Mas essa coluna é sobre o carro de trás, que mantém a mesma velocidade, mas com potência guardada para os últimos metros. É o Flamengo.

“O que acontece com o Flamengo nessas horas é uma coisa difícil de explicar”. Frase de Leovegildo Lins da Gama Júnior, sobre o fenômeno que transforma o Rubro-negro numa jamanta sem freios em plena descida. Já aconteceu muitas vezes.

Júnior está falando sobre o líder do returno do BR-09, o time que ganhou 33 pontos (10V, 3E, 1D) nas últimas 14 rodadas. Mas o assunto também poderia ser o Campeonato Brasileiro de 1992, último que o clube conquistou, sob o comando do (genial) lateral-esquerdo convertido em (ótimo) meia-armador, então com 38 anos. “Naquele ano, o Flamengo cresceu quando se classificou para disputar a fase decisiva”, ele conta, “aí eliminamos times que tinham feito um campeonato melhor do que o nosso, e percebemos que alguma coisa especial estava acontecendo”, completa.

Você conhece o processo. Para quem não está prestando atenção, parece que o time se acerta da noite para o dia, por encanto. Júnior segue falando sobre 92: “o (técnico) Carlinhos encontrou o melhor esquema, alguns jogadores começaram a render muito mais do que se esperava, e o Maracanã encheu. Aí, já viu”, lembra ele.

O sistema de disputa do campeonato era diferente, permitia que um ajuste tardio impulsionasse um time para o estágio do “ninguém segura”. No formato atual, em tese, a falta de regularidade é punida com a falta de objetivos. Mas o BR-09, você deve ter percebido, não se notabilizou pelo pequeno número de candidatos. E a inexistência de um líder disparado criou o ambiente para o ataque de um “time de chegada”. É o que testemunhamos desde a aproximação do Flamengo ao G-4, a entrada na “zona do troféu” e, agora, a vice-liderança. Mas que não se perca de vista que, por mais forte que seja essa chegada, o Flamengo ainda precisa da ajuda alheia. O que pode ser resolvido com a combinação dos resultados de amanhã, no Maracanã e no Engenhão.

Há quem veja muito de Júnior’92 em Petkovic’09. Guardadas as óbvias diferenças, eles estão num patamar comparável de liderança, impacto, idade. A questão é que a história de um já está escrita, em letras douradas. “Campeão com 38 anos… você imagina o que aquilo significou para mim”, diz Júnior.

Dá para imaginar o que significará para o time atual, colado no carro da frente.



MaisRecentes

Cognição



Continue Lendo

Sete dias



Continue Lendo

Em voo



Continue Lendo