LIVRO ABERTO



As críticas dizem que se trata da mais honesta e reveladora autobiografia de um esportista.

As entrevistas dadas pelo autor e os trechos já publicados na imprensa americana cumpriram o papel de turbinar o lançamento (ontem) do livro em que Andre Agassi conta sua vida.

Drogas, inveja, mentiras, segredos.

E a “surpresa” de que um dos maiores tenistas da História é uma pessoa.

Mesmo antes da leitura, é formidável a discussão sobre as revelações de Agassi, e seus motivos.

Como já deixei claro (mas acho que apenas em resposta a comentários sobre o assunto) não creio que haja algo no livro que me cause decepção.

Aliás, talvez só exista uma hipótese capaz disso: descobrir que um cara que jogava tênis com classe, fleugma até, fraudou jogos em troca de vantagens financeiras. Não é o caso.

Nem mesmo o uso de substâncias que melhoram a performance (o que também não é o caso, só para reforçar) me faria olhar para alguém como ele de outra maneira. Não seria diferente de muitos outros, flagrados ou não. Mas essa é outra (polêmica) conversa, que fica para outro dia.

A conversa de hoje é sobre o que Agassi escreveu em seu livro, e por quê.

O cara está sendo grelhado por tenistas e ex-tenistas. O espanhol Sergi Bruguera, derrotado por Agassi na final dos Jogos Olímpicos de Atlanta’96, reivindica a medalha de ouro. O russo recém-aposentado (foi eliminado hoje do Masters 1000 de Paris) Marat Safin quer que Agassi devolva para a ATP o dinheiro que ganhou em prêmios.

Tudo porque ele confessou que usou metanfetamina, em 1997, por aproximadamente um ano.

Sabe quantos títulos Agassi conquistou em 97? Zero.

Aquela foi a temporada em que ele caiu para o centésimo-quadragésimo lugar no ranking.

Obviamente não tenho conhecimento para versar sobre os efeitos da metanfetamina no organismo de um tenista, durante um jogo. Sei, como qualquer pessoa pode saber, que a droga atua no sistema nervoso central, e provoca euforia, aumento do apetite sexual, das sensações, além de diminuir a fadiga.

Deve funcionar para quem quer ficar dezoito horas pulando ao som de música eletrônica.

Para acertar uma bolinha centenas de vezes, com precisão, e fazer isso melhor do que o cara do outro lado da rede? Tenho minhas dúvidas.

Claro que essa confissão pode ser apenas uma parte da verdade, a parte menos feia. Mas deixemos a suposição de lado, e falemos sobre o que se sabe.

O que se sabe é que Andre Agassi foi pego no exame antidoping por uso de uma “droga social”, em 1997. Informado, escreveu uma carta para a ATP, alegando que uma das pessoas que trabalhavam com ele era usuário, e que um gole na latinha de refrigerante do assistente o contaminou.

Colou. E pelo jeito, como a figura em questão era Agassi, nem precisava ser uma história tão bonita. A ATP é a mesma entidade que já aceitou que um tenista flagrado com cocaína botasse a culpa num beijo.

O teste positivo de Agassi foi ignorado, não houve punição. E aí está o grande absurdo desnudado pelo livro. Não há explicação (de novo: sou contra a suspensão de atletas que usam substâncias proibidas que não melhoram o rendimento. Sou a favor do tratamento deles. Mas os regulamentos exigem o gancho) para a vista grossa. A ATP é que deveria ser o alvo dos questionamentos, mesmo porque, se houve outros episódios com Agassi, ela sabe.

Quanto aos motivos para expôr tantos segredos e falar abertamente sobre outras pessoas, duas coisas:

Ele “está querendo vender livro”? É evidente que está. Os direitos autorais foram muito bem negociados, e nenhuma das partes envolvidas com a obra está interessada em vê-la encalhada nas estantes.

O que é muito diferente de “querer aparecer e faturar uma grana à custa dos outros”. Andre Agassi foi um dos maiores tenistas de todos os tempos. Está aposentado e multimilionário. Ele não precisa de holofotes, ou de dinheiro.

Fora isso, quem abre uma autobiografia para terminar a última página e concluir que não leu nenhuma novidade? Não há razão para escrever um livro como esse e continuar amigo de todo mundo.

Duas das melhores autobiografias de esportistas que li foram escritas por tenistas. E são altamente reveladoras.

Em seu livro, Boris Becker confessa anos e anos de alcoolismo (com relatos de jogos em que estava completamente bêbado) e vício em pílulas para dormir.

John McEnroe também se abre sobre a vida noturna de um astro em Nova York e sua relação (nada amistosa, ao contrário) com Jimmy Connors.

Após a leitura, a sensação que se tem é a de conhecê-los melhor. São pessoas.

Imagino que essa seja a intenção de Agassi. Mas só saberei quando o livro chegar.



  • Anna

    André, também quero ler o livro. Discordamos nesse assunto. Sou a favor de tratamento sim, mas também de punição a que usa drogas sociais ou dopantes. Eu sou radical, fazer o quê? eu já disse aqui neste espaço que me decepcionou muito tudo isso. Não sabia que o Boris Becker, de quem sempre fui fã, bebia. A bebida me incomoda muito, detesto, mas o efeito dela só deprime. Por mais que anfetamina não melhore o rendimento, deixa a pessoa ligada. Talvez imaginasse que Becker era um pouquinho bad boy e o aceitasse e talvez tivesse idealizado o Agassi, enfim. Tenho certeza que ele não precisa de dinheiro, quer repercutir o livro e vender e também expurgar seus incômodos. Só não precisava atirar pra tudo que é lado, contra seus colegas. Tb acho que seus títulos não devam ser mexidos,nem sua medalha em Atlanta, mesmo que após a confissão tudo que conquistou fique em xeque, sob suspeita. Conquistou dentro de quadra, já era. Se não foi pego no exame na época das conquistas, não há porque perdê-las. Legal falar sobbre o assunto. Estava curiosa! Abraço, Anna

  • Felipe dos Santos Souza

    André, fazia tempo que não comentava aqui (mas acompanho diariamente). E devo dizer que você mata a charada quando diz que a única coisa que o livro “revela” é que um dos grandes do tênis de todos os tempos é… uma pessoa. Pensei nisso quando li o seu comentário que originou a discussão – e mais ainda ontem, com os tristíssimos acontecimentos envolvendo Robert Enke. Aliás, mais com este último, diga-se de passagem: o cara às portas de ser titular em Copa, numa das seleções mais tradicionais da história das Copas, e dá cabo da própria vida. Enfim, são pessoas. Com qualidades e defeitos, coisas que dão certo e problemas. Abraço!

  • TEOBALDO

    Muito feliz a citação do jornalista, quando diz que o livro “revela” um lado pouco perceptível dos multi-campeões (a generalização é minha, se permite), ou seja, que todos eles são “pessoas com virtudes, defeitos e, principalmente, fraquezas”, como qualquer um de nós. Parabenizo, também, o participante Felipe do Santos Souza, por ter captado esta sutileza. Discordo, cético que sou, que os atletas pegos em antidoping não mereçam punição. E, em tese, concordo com o Safin, quando ele diz que “se o Agassi está tão arrependido, que devolva todos os prêmios conquistados”. Deplorável e condenável sob todos os pontos de vista, o posicionamento da ATP no caso. Saudações.

  • Rafael

    André, há controvérsias sobre a situação financeira do campeão, veja o trecho abaixo extraído do blog do Paulo Cleto. (post de 16/10/2009)

    “Agassi afastou-se do mundo do tênis após encerrar a carreira e tentou aumentar a sua fortuna – possivelmente a maior entre os tenistas, especialmente se somada à de fraulein – tentando uma grande tacada imobiliária que foi para a cucuia.

    Coincidência ou não, após a bancarrota, que começou a tomar forma no ano passado (fiz um post a respeito), o rapaz faz um estratégico e pensado retorno ao mundo do tênis: inauguração da quadra coberta em Wimbledon, presença ostensiva em Wimbledon e U.S. Open (onde recebeu convidados pagantes em um mega-camarote), estréia em torneios Masters (derrotado na final na semana passada) e agora declarações bombásticas sobre o futuro do tênis, mais especificamente sobre tenistas.”

    Não me restam muitas dúvidas sobre o que motivou o livro.

    AK: Eu li algo sobre o empreendimento imobiliário. Há mais ou menos 3 anos, a fortuna de Agassi (não estou contando as humildes economias de Steffi) passava dos 160 milhões de dólares. Se ele realmente perdeu quase tudo isso numa tacada que deu errado, e escreveu um livro para pagar as contas, deve estar mesmo desesperado. Consta que os direitos autorais foram vendidos por “míseros” US$ 5 milhões. Ele vai ter de vender muito livro… um abraço.

  • Putz, André, fiquei decepcionado sim, mas não com a história da metanfetamina. O que pegou pra mim foi ele sair atirando para todo lado, metendo a boca em Sampras, Chang, Becker…tenho certeza que ele é um ser humano, só não é o ser humano que eu achei que fosse.

    Abraço

  • Gustavo

    AK,

    Nao sei se eh coincidencia, mas li as biografias do Becker e do McEnroe recentemente, e gostei das duas pela maneira como abordam os assuntos de maneira direta e honesta. Acho que o que mais me surpreendeu foi o JM dizer que nunca gostou de tenis, mas teve a carreira vitoriosa que teve porque gostava menos ainda de perder pros outros.

    Moro na Australia a 4 anos, e ja estou encomendando a minha copia de “Open” pela Internet, porque aparentemente nenhuma editora local resolveu lancar por aqui, e no pacote ja vou incluindo a biografia do Sampras e sua recomendacao do livro do Magic com o Bird.

    Como estou fora do Brasil ja faz um tempo, nao consigo acompanhar os lancamentos. Vc recomenda alguma coisa sobre futebol? Sou saopaulino, li recentemente o livro do Rogerio com o Plihal, mas confesso que fiquei decepcionado, achei muito curto e muito superficial. Espero que o RC lance uma bigrafia de verdade quando encerrar a carreira.

    Abraco,

  • Danilo Araujo

    Putz, desculpa Andre mas vou falar aqui de algo que não tem nada haver c/ o Agassi de quem sou fã como vc… mas vc viu ontem no jogo do PalmeirasxSport qnd o reporter da globo afirmou que os tecnicos de som ouviram o apito do juiz o narrador Cleber Machado ficou calado ? pq ele ficou quieto ? dps ele veio falando que os jogadores do time nordestino pediram impedimento enquanto na verdade a reclamação era pelo arbitro ter apitado 2x… fato que eu vendo o jogo em minha humilde casa junto do meu filho ouvimos tbm. O que me espanta que quase mataram o Simon em 2 dias e olha que eu tenho motivos uma vez que sou atleticano e vc sabe pq… mas pq o silencio ? pq ninguem falou mais nada ? por favor, sou seu fã e leitor assiduo do blog, divulgue isso, questione ou me de um retorno… estou indignado c/ esse acontecido e unica maneira de me expressar foi por aqui… desculpas novamente por um comentario s/ anexo c/ o assunto… forte abraço.

  • “A ATP é a mesma entidade que já aceitou que um tenista flagrado com cocaína botasse a culpa num beijo.”
    Você sabe e pode dizer quem foi?
    Abraço

    AK: Richard Gasquet. Um abraço.

  • O Mion tá certíssimo… o que me decepcionou tambem foi ele ter saído tacando o pau em todo mundo…. Ninguém é obrigado a gostar de ninguem mas não precisa ser anti profissional.

  • Marcel Souza

    OI André,

    Só pra ficar no assunto livros, finalmente chegou meu livro do Jordan, aeeehhhh!!! Agora é só ler, ehehe.

    E ainda no assunto, e o aguardado livro seu com o PVC? Não ouvi vocês falarem mais nada dele.

    1 abraço,

    AK: Já em fase de diagramação. Obrigado em um abraço.

  • Marco Antonio

    Curioso que se as autobiografias de tenistas são ótimas, as biografias de tenistas também são sensacionais.
    Vamos colocar Aqui Tem! nesta lista de ótimos livros sobre tenistas…

  • Ze’

    Fiquei decepcionado foi com a postura moralista de gente que eu acreditava que tinha a cabeca menos fechada, como alguns tenistas profissionais que escrevem por ai. O Agassi tomou decisoes que nao “ornam” com habitos de um atleta profissional. Fora isso, quem nunca fez besteira na vida? Agora, o que ele ganhou na quadra foi com esforco, talento e dedicacao. A metanfetamina detona o sujeito, por isso ele ficou tao mal em 1997, sem ganhar nada, mas se um cara vai jogar tenis profissional e entra na quadra louco de metanfetamina, certamente cai duro depois do segndo pique. OBVIO que ele nao usou para jogar. Eu continuo tendo a mesma admiracao por ele que eu tinha antes de eu saber dessa historia.

  • Alex (EUA)

    Realmente as revelacoes do livro cairam mal por aqui, mesmo se o tenis e’ muito longe de ser um dos esportes mais populares. Parte do acordo com a editora e’ certamente fazer publicidade sobre o livro, o que agora tem o Agassi frequentando multiplos shows de TV (hoje foi CNN). Acompanho o tenis de perto e, como fa, nunca torci pelo Agassi por nao gostar de sua forma de ser (se bem que o tolerava mais na sua segunda fase). Porem, sempre tb reconheci o talento. Acho que a decisao de publicar tal livro e’ pobre, mesmo porque acredito que ele nao levou em conta a ramificacao que essa notoriedade negativa pode ter nos filhos…
    Se quisesse dar-lhes uma licao de vida, revelaria estas coisas a eles em privacidade… (mas esta e’ so’ minha modesta opiniao!)…

  • Eduardo R.

    Qual a motivação dele? Uma pessoa de expressão mundial tem que saber dos efeitos de suas palavras sobre o mundo. As declarações ferram a ATP (que o ajudou), ferram parceiros de esporte, ferram o pai dele (que o “forçou” a jogar um esporte ele DETESTAVA – conforme entrevista ao 60minutes). Um grande FDP egoista? Ou ele conta esta história para mostrar que há superação de uma crise, para passar esperança a pessoas na mesma situação que ele, para que menos crianças no futuro sejam forçadas por seus pais a fazer algo, etc….? Vamos precisar ler o livro para tentar descobrir.

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