COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

DOZE SEGUNDOS

O telefone toca num quarto de hotel em San José, capital da Costa Rica. O técnico René Simões atende, com uma pergunta: você sabe qual é o preço de doze segundos?

Em casa, este colunista se assusta com a indagação, imaginando que René está falando de tarifas de ligações internacionais. Em tempos de VoIP, Skype e outras maravilhas, só gasta dinheiro com telefone quem quer. Mas o assunto é outro. René se refere à classificação da Costa Rica para a Copa do Mundo. Ou, na verdade, da quantidade de tempo que faltou.

Corte para o estádio RFK, em Washington, na noite da última quarta-feira. Estados Unidos x Costa Rica, segundo tempo. No primeiro, dois gols do atacante Bryan Ruiz deram ao time de René uma preciosa vantagem. Mas as pernas costarriquenhas já estavam pesadas, aos 26 minutos da etapa final, quando o meia Michael Bradley aproveitou um rebote na pequena área e diminuiu.

O futebol-força do time americano tomou conta do jogo, inspirado pelo desejo de homenagear o centroavante Charlie Davies, internado em estado grave num hospital da cidade, por causa de um acidente de carro sofrido na madrugada de segunda para terça-feira. Todos os jogadores usavam a camisa 9 de Davies por baixo de seus uniformes.

René Simões decidiu substituir Ruiz, cansado, pelo volante Junior Díaz. Mas o artilheiro da noite, jogador do Twente da Holanda, avisou o banco que conseguiria aguentar mais um pouco, segurando a bola no ataque. Quem saiu foi o defensor Esteban Sirias.

Bryan Ruiz correu mais 8 minutos, até esgotar-se. Deixou a partida para a entrada do meio-campo Cristian Bolanos, aos 36. O jogo era ataque contra defesa, como se a bola estivesse proibida de sair do campo da Costa Rica. Nem quando os Estados Unidos perderam o zagueiro Oguchi Inyewu (recém-contratado pelo Milan), com rompimento do tendão patelar do joelho esquerdo e ficaram com dez jogadores, a pressão diminuiu.

René resolveu mexer de novo. Mandou o zagueiro Douglas Sequeira entrar no lugar de Dennis Marshall. “Eu precisava fazer alguma coisa, porque o adversário não saía da minha área. Mas aí aconteceu aquela confusão”, conta. René ficou lívido quando viu o quarto-árbitro levantar a placa mostrando o número 15 como o substituído. O 15 era Junior Díaz, em campo havia 13 minutos. O jogador que deveria sair era o 5, Marshall. Quando se aproximou do assistente para avisar do erro, uma cena se armou na beirada do campo. O quarto-árbitro estava irredutível, René também. Dois seguranças chegaram para acabar com o bate-boca. Quando o árbitro mexicano Benito Archundia apareceu, foi para expulsar René. “Acho que ele pensou que eu estava tentando mudar a substituição para ganhar tempo”, imagina.

O técnico brasileiro foi escoltado por dois policiais. No vestiário, não viu nem ouviu nada. “Até que os meus reservas chegaram, chorando, falando do gol”, conta. Gol de Jonathan Bornstein, de cabeça, no que restava dos acréscimos: 2 x 2.

Da África do Sul para a repescagem contra o Uruguai, em 12 segundos. Impossível responder a pergunta de René.



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