COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

CAPITÃO, MEU CAPITÃO!

A Seleção Brasileira tinha acabado de conquistar a Copa das Confederações. Tinha virado um jogaço contra os Estados Unidos, em Joannesburgo, depois de estar perdendo por 2 x 0. O time que “só sabia jogar no contra-ataque”, mostrou que sabia fazer muito mais.

Na tribuna de honra do estádio Ellis Park, os jogadores brasileiros, com as camisas invertidas para exibir seus nomes, aguardavam a chegada da taça. O capitão Lúcio a recebeu das mãos do presidente da Fifa, Joseph Blatter, e a ergueu para o mundo ver. “É nossa!! É nossa, Brasil!!”, gritou o zagueiro.

Lúcio, você sabe, fez o gol que valeu o título, e chorou ao correr para abraçar Elano. A imagem de um campeão do mundo comovido após marcar um gol é dessas que nos fazem acreditar que, no final das contas, ainda vale a pena ver o futebol como criança.

Lúcio é um símbolo do sucesso de Dunga, na primeira parte de sua missão no comando do time. Sim, sucesso comprovado e inatacável. A Seleção Brasileira, hoje, é formada por jogadores que gostam uns dos outros e gostam de estar juntos, vestindo o mesmo uniforme. Não é por outro motivo que, com freqüência, alguns se apresentam machucados. E outros, como fez Elano, consultam o treinador antes de mudar de clube, para garantir que a convivência no grupo brasileiro não correrá riscos.

O ambiente ajuda a explicar por que esta Seleção, em formação desde a Copa América de 2007, se transformou em um time bom de ver, como ficou claro nas duas últimas vitórias. E esse mérito, independentemente do que aconteça quando o Brasil voltar aos estádios sulafricanos, não pode ser cassado por ninguém. Dunga deveria estar sorrindo de orelha a orelha.

Mas não está. Continua irritadiço, incapaz de ouvir uma pergunta como apenas uma pergunta, e capaz de perder a paciência com o mal-humorado que, atrás do banco de reservas, cornetava a bela atuação do Brasil contra o Chile.

Dunga, você também sabe, foi o capitão da Seleção que, ao levantar a Copa do Mundo de 1994, gritou palavrões endereçados a seus críticos. Não passa pela minha cabeça querer avaliar o que passou pela dele naquele momento, mas suponho que a glória máxima de um futebolista o tenha feito feliz.

Também não ignoro o que ele enfrentou no período entre aquela Copa e a anterior, os rótulos que recebeu e teve de carregar. Mas, afinal, ser jogador da seleção dos brasileiros (capitão, ainda mais) é um privilégio inseparável do ônus das opiniões.

Ônus que Lúcio conhece, alvo que ele mesmo foi, é, e continuará sendo, a caminho de sua terceira Copa. Mas Lúcio não se comporta como se o mundo quisesse sua cabeça. Parece entender que aquela camisa é de vidro, e que sempre será preciso desviar das pedras. Mostra que a viagem pode ser emocionante, e o final, genuinamente alegre.

Talvez Dunga precise se sentir contestado, perseguido. Talvez só funcione assim. Tomara que não.

Tomara que na próxima vez em que tocar numa Copa do Mundo, se tiver essa fortuna, o ex-capitão faça como o atual.



MaisRecentes

Cognição



Continue Lendo

Sete dias



Continue Lendo

Em voo



Continue Lendo