O VOO AIR 23 POUSOU



Michael Jordan, o maior jogador de basquete do Sistema Solar, entrou hoje para o Hall da Fama do esporte.

Não tentarei escrever um texto bonito sobre um gênio. Ficaria ruim.

Apenas contarei uma história.

Tive a sorte de cobrir quatro edições do All-Star Game da NBA, entre 2001 e 2004. Foram experiências verdadeiramente inacreditáveis para quem cresceu vendo Bird, Jabbar, Magic e, claro, Michael Jordan.

Nos dois primeiros anos em que trabalhei no evento, o “jogo das estrelas” não teve a presença de MJ, aposentado. Impossível evitar a decepção por não poder vê-lo a olho nu.

Mas em 2002, na Philadelphia, Jordan estava de volta para o último período de sua carreira. Lembro do arrepio que senti ao ouvir a reação do público quando aquele nome extra-terrestre (tem hífen?) foi anunciado na quadra. E da sensação estranha de ver o Pelé do basquete em ação, e me perguntar se era ele mesmo que estava ali.

No ano seguinte, em Atlanta, foi ainda melhor.

Eu já tinha “participado” de uma entrevista mais ou menos coletiva de Jordan em outubro de 2001, quando meus chefes na ESPN Brasil toparam a ideia de mandar uma equipe de reportagem para cobrir o jogo de abertura da temporada 2001-02 da NBA.

New York Knicks x Washington Wizards, semanas após os atentados de 11/09, no Madison Square Garden.

Dezenas de microfones e câmeras cercaram Jordan ao lado do ônibus dos Wizards, para ouvi-lo falar sobre seu retorno ao basquete, num momento tão dramático. Da minha posição, eu mal conseguia ver a cara dele. O cinegrafista que me acompanhava ergueu sua câmera o máximo que pôde. Estiquei o braço até doer, para tentar captar o áudio. Deu certo, mas nenhuma chance de fazer uma pergunta.

Na Philadelphia, mesmo com todo acesso que a NBA permite aos repórteres, só o vi na quadra.

Mas no vestiário da seleção do Leste em Atlanta, dei sorte. De costas para o armário que tinha a plaquinha com o nome de Michael Jordan, eu gravava uma passagem contando que era muito raro encontrá-lo ali. Jordan não costumava aparecer no vestiário no momento em que as portas eram abertas para a imprensa, antes do jogo. Ela tinha plena consciência de que, se estivesse disponível, os outros jogadores seriam solenemente ignorados.

Quando terminei a frase, ele passou ao meu lado, já de uniforme. A sorte foi dupla, pela aparição e pela minha posição, de frente para o entrevistado mais importante, e improvável, da noite.

Em segundos, tive de me abaixar para não ficar na frente das lentes das outras equipes de TV, mas fiz quatro perguntas, todas respondidas com atenção e simpatia.

Essa é a minha melhor “lembrança jornalística” de Jordan, e um dos momentos mais legais da minha carreira de repórter.

Aquele foi o último All-Star Game de que ele participou. Jordan quase ganhou o jogo com um fantástico arremesso saltando para trás (o famoso “fadeaway”), da zona morta, na cara de Shawn Marion. Se Jermaine O’Neal não fizesse uma falta imbecil em Kobe Bryant, oferecendo-lhe três lances livres, o Leste venceria.

Como fã, as memórias são inúmeras.

As favoritas? Jogo 6 das finais em 1998, contra o Utah Jazz. A célebre empurrada em Bryon Russell, antes de acertar o último arremesso pelo Chicago Bulls (num outro dia, conto em que condições vi esse jogo).

E o fantástico chute vencedor contra Craig Ehlo, do Cleveland Cavaliers, na primeira rodada dos playoffs de 1989.

Acho que são dois momentos lendários.

Não por acaso, eles estão nessa coleção, feita pela ESPN, das 23 melhores jogadas da carreira de Michael Jordan.

Divirta-se.



  • M. Silva

    A final a que você se refere ocorreu em 1998. A de 1988 foi um não menos fabuloso Lakers de Magic Johnson e Kareem Abdul-Jabbar (mesmo que em final de carreira) contra o Pistons de Isaiah Thomas e Dennis Rodman, em sete jogos.

    AK: Obrigado pela correção. Um abraço.

  • andre

    Valeu André, essa seqüência me fez voltar no tempo, esse cara foi o maior de todos, sem dúvida!

  • Anna

    Que privilégio! Extraterrestre não tem hífen mas pouco importa. A descrição de que MJ foi o melhor do sistema solar tb foi ótima, apesar de eu discordar levemente… Um dos maiores, sem dúvida. E a entrada pro Hall da Fama entra para a História. Agora só falta Magic Johnson.

  • Edmilson Fidelis

    Michael Jordan deveria ter uma galeria própria. O cara transcende genialidade no esporte.

    Confesso que não acompanhei o quanto gostaria por questão de tempo. Estava em uma fase em que ralava muito duante o dia e à noite.

    Mas tive o prazer de fica noites em claro vendo Magic Jordan e acordando minha mãe com os gritos que dava na sala.

    Começei esta saga com Jabbar, que me fez ser torcedor fanático dos Lakers até hoje.

    Talvez por isto, e somente por isto, eu prefira Jabbar com seus previsiveis e imarcaveis ganchos e Magic Jordan com suas jogadas sempre imprevisiveis.

    Coisas de torcedor mesmo!

    Mas não reconhecer Jordan como THE BEST OF THE BEST, e não só do sistema solar, é uma besteira que não ouso fazer!

  • Almir Vieira

    Nem sempre preciso, mas sempre coerente, André,
    O lance contra o Utah não foi em 1998? Ganhei até uma aposta (camisa vermelha dos Bulls) por causa das finais…
    Abraços!!!!

    AK: Sim, teclei errado. Já corrigi. Obrigado e um abraço.

  • AK! A gente do BasketBrasil acompanhou, pela internet, toda a cerimonia. Permita-me likar, aqui, o matéria… http://www.basketbrasil.com.br/nba/michael-jordan-encerra-noite-de-discursos-no-symphony-hall-no-hall-da-fama-do-basquetebol

    Aliás, o MJ soluçando na entrega do prêmio me deixou emocionado aqui em casa… O cara é duca…

  • Ricardo Pires

    André, ter a oportunidade de ver o M.Jordan de tao perto jah é inesquecivel, que dizer entao de entrevista-lo!? Deu sorte! Realmente muito especial.

    Agora mudando de assunto. Acabo de ver a entrevista coletiva do Sr. Adilson Batista ontem na Toca da Raposa. Entre outas infelicidades, ele criticou de maneira bronca a preferência religiosa de outros atletas e defendeu o catolicismo como se fora um membro da Inquisiçao Espanhola. Mais um exemplo de seu desequilibrio pessoal que se reflete também no time. Quem quiser assistir, aqui vai link.

    http://www.superesportes.com.br/ed_esportes/003/template_esportes_003_134224.shtml

    Mas ele levantou um ponto interessante: como controlar a qualidade (e assegurar a legitimidade) de informaçoes passadas pela imprensa nacional em tempos de tanta competitividade e com tantas ferramentas novas, como Twitter, blogs, etc? O famoso efeito cascata costuma imperar.

    Um exemplo: O Lnce divulgou uma entrevista com o Kléber na qual ele dizia preferir voltar ao Palmeiras em 2010 para jogar a Libertadores. Logo depois ele vem no ar desmentir. Seu suposto Twitter jah o havia feito mas ninguém sabia se era legitimo.

    Complicado…

  • BASILIO77

    E no final do mês ainda tem uma graninha na conta.
    Canalha!
    Abraço.

  • Cruvinel

    Tu tem SORTE, cara!

  • Marcel Souza

    Mais uma história bacana sua André! Já falei e não custa insistir, que tal um livro com essas histórias depois do seu livro com o PVC?

    Permita-me talvez ser meio chato. Não lembro se foi aqui no Lance ou ainda no IG, você contou uma história do MJ sobre um dia que ele se apresentou pro técnico de tênis quando devia estar social, ou de calça de pijama, não lembro direito, ehehe… Só lembro que era um exemplo seu de como o cara mandava nos times (e técnicos) em que jogava. Se não me engano você disse que essa história estava num livro. Que livro era esse?

    1 abraço!

    AK: O livro se chama “The Jordan Rules”. Um abraço.

  • Marcel Souza

    Valeu André! Esse será encomendado!

    1 abraço e bom domingo.

  • Marcel, “The Jordan Rules” é muito bom, encomende correndo…

  • landinei jose dos santos

    Estes momentos do michael jordan, sao simplesmente sensacionais.

  • Paulo P. Nascimento

    André,
    Teve um jogo de final de conferência, no ano que MJ voltou ao Bulls. Que ele matou a pau. Não lembro o adversário, só lembro que ele não podia jogar com a camisa 23, então ele tinha que jogar com outro número. Durante o primeiro tempo, o marcador dele dizia: Esse MJ não é o mesmo sem a 23. E ele não jogou nada. No segundo tempo, ele voltou com a 23 , mesmo podendo sofrer punição pela NBA, e ai ele acabou com o jogo.

    Abs

    AK: Playoffs de 1995, contra o Orlando Magic. Mas não foi bem assim. Esse foi o ano em que MJ voltou de sua primeira aposentadoria. O número 23 do Chicago Bulls tinha sido retirado em sua homenagem, e ele voltou usando a camisa 45. Um cara chamado Nick Anderson, após o primeiro jogo da série, disse que aquele Jordan não era bom como o antigo. A partir do segundo jogo, Jordan voltou a usar o número 23 (e os Bulls foram multados por isso). O Magic venceu a série. Um abraço.

  • Daniel

    Cara… vc me assustou… primeiro o título: “O VOO AIR 23 POUSOU”, depois: “Não tentarei escrever um texto bonito sobre um gênio. Ficaria ruim.”

    Eu achei que ele tinha morrido!!! Pombas, me deu um susto!!!

    Naquela final contra o Utah eu perdi 20% dos meus cabelos…

  • Paulo Alves

    André
    Michael Jordan transcendeu o esporte, foi o mais competitivo, genial esportista que eu v.
    André vc foi um privilegiado em ter visto MJ, a final de 98 foi inesquecível, a jogada da ultima cesta e após com a mão….

  • Bruno Pereira

    André, o jogo de 1998 contra os Jazz não foi aquele que você assistiu de madrugada lá na França, e que quando acabou você saiu andando igual um louco pelos corredores para tentar encontrar alguém que também tivesse visto o jogo?
    abraços

    AK Foi. Já contei essa história, né? Um abraço.

  • MJ não é alienígena, mas é realmente o melhor do sistema solar. Fonte: “Space Jam”.

  • Eduardo

    Olá, gostaria que vc desse sua opinião se houve de fato um veto do Jordan com relação ao Isiah Thomas no Dream Team. E como era a relação entre os dois, nunca vi falta de respeito entre eles. Aquela história do All Star Game de 1985 que o Isiah boicotou passes para Jordan procede? Sou fã do Isiah, vc André não acha que um Dream Team sem Isiah foi menos mágico? Vc não gostaria dele em Barcelona? O cara foi um gênio na armação, sempre top 5 em all star, como não foi em 1992?
    Outra coisa, vc já entrevistou o Thomas? O que acha dele?
    Abraço!

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