COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

O DESRESPEITO VOLTOU

X é um jogador de futebol, profissional.

Como tantos outros, foi revelado por um clube do interior. Como tantos outros, o talento e a ambição o levaram à cidade e ao clube grande. Foi neste momento que seu nome tornou-se mais conhecido, por causa da disputa de dois times rivais por seu futebol. Nesse aspecto, também, o roteiro copiou o que já aconteceu com outros jogadores que tinham qualidade para sobreviver no topo da pirâmide futebolística.

X tem. E muitas. Seu início em um dos principais clubes brasileiros foi como um meia de boa chegada no ataque. A bola não perdia velocidade quando passava por ele, os passes eram precisos e inteligentes. O saudável hábito de procurar o gol fazia dele uma presença perigosa perto da área, mas foi outra habilidade que lhe garantiu um lugar no time, durante a segunda temporada: a marcação.

Meias que sabem marcar são tão importantes quanto volantes que sabem jogar. É difícil dizer em qual das duas categorias X se encontra. Mais difícil ainda era ser adversário do time dele durante o Campeonato Brasileiro daquele ano. Um time que tomou pouquíssimos gols e ganhou o título com larga vantagem.

No ano seguinte, nova demonstração de utilidade coletiva. X passou a ser escalado como lateral-esquerdo, posição que claramente não era sua predileta. E mesmo sem repetir atuações do mesmo nível das que fazia no meio-de-campo, chegou a ser convocado para a Seleção Brasileira. Eventualmente, perdeu a vaga entre os titulares, mas não a noção de que o futebol é “nós”, não “eu”. O que contribuiu para que voltasse ao time, ora na lateral, ora de novo no meio. E para que estivesse em campo no jogo que significou o terceiro título seguido.

Mas a presente temporada não começou bem. A combinação entre o desgaste natural e a queda no aproveitamento levou a uma troca no comando e, consequentemente, uma nova fase. No momento em que o time mostra um encaixe diferente, e interessante, X é um dos principais motivos. De volta à posição em que sente melhor, joga com intensidade e entrega. Talvez seja isso que se convencionou chamar de “atitude”.

A contribuição de X não passou despercebida por uma parte da torcida, que lhe dedica uma música personalizada. Mas no lugar de idolatria e orgulho, a “letra” composta pelos intelectuais prefere a grosseria, a mesquinhez, a intolerância.

Quem a canta nunca reclamou por X ser um jogador de baixo nível. A agressão gratuita é puramente pessoal. X é ofendido por parecer diferente, mesmo que ninguém saiba se é. Mesmo que ninguém deva se importar se é.

A agressão também é ignorada por uma estrutura que gosta de se fazer de “engajada”, preocupada com outras ofensas igualmente enojantes, como o racismo. Nem o clube, que se diz moderno, se posiciona.

X diz que não ouve. Mas ouve. Diz que não liga, mas liga. Sua postura é admirável. Por muito menos, houve gente que pediu para sair.

Eis uma ótima oportunidade perdida, por todos, para fazer o que é certo.



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