COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

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Um ótimo domingo para todos os pais.

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MASSA DO APITO

Bandidos em geral, árbitros e assistentes pilantras, e demais corruptos do futebol devem adorar o nosso Código Penal.

Como se sabe, a decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo sobre a continuidade da ação contra os envolvidos na “Máfia do Apito” foi adiada para a semana que vem. Mas dois dos três desembargadores já votaram a favor do habeas corpus que tranca o caso na esfera criminal. Tecnicamente, existe a possibilidade de mudarem suas posições, mas não aposte (termo apropriado para o caso) nisso. O último voto, mesmo diferente, deve ser apenas uma formalidade.

O promotor de Justiça, e coordenador do Gaeco, José Reinaldo Carneiro, participou de toda a investigação que comprovou as ações do grupo que comprou árbitros, e fabricou resultados, no Campeonato Brasileiro de 2005. Ele contesta, juridicamente, a decisão (quase) final dos desembargadores. “Habeas corpus só pode viabilizar trancamento de ação penal, quando a conduta é manifestamente não-criminosa”, diz.

A questão técnica é exatamente essa: há quem entenda que, no Brasil, manipulação de resultados esportivos não é crime, pois não existe “legislação específica” que contemple essa conduta. José Reinaldo Carneiro discorda. “Também não há legislação específica para quem vende um terreno que não existe, ou falso bilhete premiado da loteria, e isso é estelionato.”

Não se discute a obrigação dos desembargadores de respeitar o que está escrito na Lei. Mas seria interessante debater se alguém que lucra financeiramente ludibriando os outros, é ou não um criminoso, mesmo que a “atividade” não esteja prevista no Código Penal. Seria mais interessante ainda se tivéssemos magistrados dispostos a levar esse debate aos tribunais.

Para leigos como nós, pedir a condenação de quem quer que seja, sem premissas legais, talvez seja a pior reação gerada por casos como esse, em que não há dúvidas sobre quem fez o quê. Ou como. Ou por quanto tempo. Ou por quanto dinheiro. Está tudo provado de maneira exemplar. Sem falar no réu confesso, o ex-árbitro Edílson Pereira de Carvalho. “Não estou brigando para que as pessoas sejam condenadas. Estou brigando para poder processá-las. É o meu papel”, diz o promotor.

A solução, pelo menos em tese, parece estar a caminho. Não resolverá nada em relação a esta “Máfia do Apito”, mas talvez possa ser aplicada para punir malandros futuros. Em 2005, José Reinaldo Carneiro apresentou ao Congresso Nacional um projeto que cria o crime de “fraude esportiva”, e também trata da violência nos estádios e da ação dos cambistas. “O projeto será aprovado”, acredita.

Não se trata de alteração no nosso moderno Código Penal. Aprovado o texto, a nova modalidade ilegal será incluída no Estatuto do Torcedor. Representará a “legislação específica” que não temos, mesmo que isso não garanta muita coisa. “No Brasil, há muito tempo, nós nos preocupamos com o estelionatário pequeno. Em relação aos grandes, ainda estamos muito atrasados. É por isso que a sociedade sofre tanto”, diz Carneiro.

Ainda caberá recurso contra a decisão do TJ de São Paulo.



  • Anna

    Infelizmente acabou em pizza como no senado o imbroglio secreto de Sarney. Uma pizza de sabor ruim, difícil de deglutir, talvez de brocolis com espinafre. Enquanto não houver reformulação do código Penal, não terá jeito. O sentimento de impunidade é que é muito chato, la-men-tá-vel. Feliz dia dos pais para vc e para o seu pai!

    AK: Obrigado pelo comentário e pelos votos. Um abraço.

  • Marcio Cesar

    Caro André,
    Com essa decisão, pelo menos legalmente, acho que dá margem para que o o referido árbitro solicite a CBF a função que este possuía, antes de ser processado. Uma vez que não há crime, processo ou outro termo qualquer que os dignissimos desembargadores queiram determinar, parte-se do pressuposto que não houve crime, daí podemos definir que o árbitro é inocente. Já imaginou a cena, este mesmo juiz, novamente em campo apitando um importante jogo de série A?
    abraços

  • Marcelo David Macedo

    Meu pai faleceu quando eu tinha 8 anos. Uma das lições que ele teve tempo de me ensinar foi a de nunca chegar em casa com um material escolar que não fosse meu. Poderia ser um lápis, uma borracha… nunca mais esqueci.

    Diante de tanta canalhice, prefiro estimular tais lembranças. Feliz dia dos Pais, André. Sorte de suas filhas, que receberão as mesmas lições.

    AK: Obrigado. Para você também (hoje ou no futuro). Esse é o único caminho. Um abraço.

  • Paulo

    Acabou em pizza, porque foi apenas uma operação “cortina de fumaça” para determinar o título brasileiro de 2005 e inverter posições de quem era líder da competição: o Inter de Porto Alegre, que sempre tem a sua campanha banalizada em favor do Todo Poderoso Timão. A mesma “máfia do apito” continuou a reinar em 2007, quando ajudou a determinar quem deveria cair para a segunda divisão. Passou a idéia: “não estamos ajudando o Corinthians” no episódio dos penaltis de Goiás e Inter. E em 2009, depois de trazer um Timão que não encontrou rivais de mérito na Segundona, o levou ao título da Copa do Brasil, que até o Lula queria. E outra coisa, continua agindo a favor de um outro paulista, que bem conhece os bastidores: independentemente da melhora do time, percebam que o São Paulo FC também nunca é “prejudicado”, na análise dos chamados “erros de arbitragem”. Foi assim que desnivelou a balança a seu favor em 2007 e 2008. O time do Juvenal tem a melhor das “parcerias”, “velada” e constante. Na hora do vamos ver, árbitros inexpressivos são escalados… Prejudicam todos os outros e facilitam a vida do Tricolor Paulista de Todos os Lobbys. Cadê o gol do Grêmio (legítimo), que foi anulado, há algumas rodadas atrás, lá no Teatro Morumbi? Vamos ver se haverá gritaria, quando o SP Fashion Week for prejudicado realmente? Não é o caso isolado de 2005… A máfia do apito continua e por isso, nada pode ser devida e seriamente investigado. Os mecanismos de favorecimentos existem mesmoi, infelizmente… Apenas uma opinião…

  • Paulo Pinheiro

    André

    Nem tudo está perdido.
    Pode-se aprender com a “Máfia do Apito” e tirar lições.

    Por exemplo: quando há um esquema de arbitragem pra favorecer o time “A” ou “B”, ele não será claramente manifesto com lances capitais de uma partida (gol impedido, pênalti inexistente…), mas sim no critério de faltas e cartões, segurando demais uma equipe e soltando demais a outra.

    O próprio Edilson falou isso e agora temos esse conhecimento pra detectar outros esquemas que se desenharem (nem todos pra loterias).

    Vocês terão algumas surpresas se observarem bem…

    E fica aí também o desafio: que tal o estudo de critérios objetivos pra marcação de faltas?

    Essa atitude de “o árbitro tem que deixar o jogo correr” favoreceu MUITO à Máfia do Apito. Chega! Falta é falta. Seja falta, faltinha ou faltão. Se acontecem em excesso o último culpado disso é o árbitro. Que se estabeleça um número limite por jogador e por equipe e vamos resgatar o futebol de verdade.

  • Jovaneli

    André, li essa sua ótima coluna no jornal, mas estava longe da internet, por isso não comentei antes. Cara, como valhe a pena lê-lo. Irretocável.
    Curiosidade: esse título maravilhoso saiu no momento em que começou a escrever a coluna ou já estava em sua cabeça há alguns dias? Adorei.
    Enfim, sou bem realista e, por isso mesmo, não creio em mudanças significativas em curto prazo. Impunidade é a cara do Brasil. Talvez nem a médio prazo. Mas não deixei e jamais deixarei de ficar indignado. Isso é o mais importante. Não podemos deixar de nos indignar com essa podridão.

    AK: Cara, às vezes o título vem antes, às vezes vem depois. Esse veio depois. Obrigado e um abraço.

  • dennis

    Mesmo que, via recurso, essa decisão seja modificada (até acredito que será – isso vale um post separado), a prescrição fatalmente fará com que a pizza seja saboreada bem quentinha. Pode apostar

  • ADSON CARVALHO

    Infelizmente para grande Massa Atleticana fizemos finais de brasileiro com Flamengo, Corinthians e São Paulo!!! Fomos garfados nas três finais pela sempre atuante “Máfia do Apito”. Para espanto geral, tivemos que aturar um juíz carioca (José Roberto Whight), apitando jogo decisivo entre Fla x Galo??? Pasmem…
    Na única vez que jogamos uma final contra um time sem ajuda da máfia (Botafogo) ganhamos o título brasileiro… Através dos pontos corridos fica mais difícil de manipular resultados, por isso tenho esperanças este ano…
    Galo, o time mais roubado do mundo!!! (Livro Guinnes de Records)
    att.
    AC

  • Gustavo

    André, seu posicionamento é respeitável a respeito desse tema. Mas atenção: muito cuidado, MUITO cuidado com promotores públicos, por duas razões.
    Primeiro porque o papel deles é acusar e têm de apresentar boa produtividade (ou seja, levar pessoas a serem condenadas, sejam culpadas ou não).
    Segundo, porque são notórios por adorar holofotes (pergunte a seu advogado, se não acredita). Lembra do Kenneth Starr, daquele caso do Bill Clinton? Pois é.
    Agora, sua coluna é ótima. Foi um dos únicos jornalistas que vi tratarem esse caso (e outros) de forma crítica.
    Por essas e outras, já é sagrado ler os Kfouri na segunda-feira pela manhã. Abraço.

  • AFernando

    Ótima coluna, André. Infelizmentre é lamentavel deparar com ações mafiosas num dos esportes que movem os sentimentos do povo brasileiro. Mas exemplos não faltam, para estes “profissionais” assim agir. Veja como agem os “representantes” de nossa sociedade, quer no ambito federal estadual ou municipal, tudo pelos proprios interesses. La men tá vel.

  • Hugues

    André, pergunta pra está questão, se eles não podem ser julgados, pois não há legislação específica, logo a atitude da CBF em realizar novamente os jogos envolvidos nos esquemas é ilegal, logo o título do Corinthians é ilegal. Vou mandar esta ideiapro Fernando Carvalho, colocar como discurso no começo do DVD.
    Abs
    Keep up the good work.

  • Paulo

    O título do Brasileirão de 2008 foi decidido somente na última rodada e a força de lobby do Tricolor Paulista foi evidente, porém banalizada por parte da imprensa que atualmente só é comprometida com a promoção do espetáculo. São Paulo é cidade com mais dinheiro do que Porto Alegre. O Grêmio ganhou o seu jogo e o São Paulo também… Só que com gol impedido do artilheiro Borges. Este ano, já são dois jogos com intervenções claras de árbitros “ruins” ou “inexperientes”. Palmeiras 0 X 0 São Paulo. A TV mostrou claramente o penalti cometido por Miranda sobre Diego Souza que o árbitro ignorou!!! São Paulo 2 X 1 Grêmio. Grêmio prejudicado; São Paulo ajudado; Assistente 1 Gilson Coutinho (PR) – estava bem colocado – e Héber Roberto Lopes (PR) invalidam lance que poderia dar em gol de Máxi López, aos 5min, anotando impedimento inexistente. Estava 0 x 0.

  • giovani

    Nosso judiciario não esta muito atras de legislativo, não. A justiça tambem esta desacreditada. As leis brasileiras dão margem para interpretações diversas e tendenciosas. Um juiz entende de um jeito e o desembargador de outro. A cada esera que o processo chega, ta la um entendimento diferente.

  • Edmilson Antonio Fidelis

    Promotor quer condenar, sejam culpados ou não.

    Defensores só defendem inocentes.

    Santos! (E não falo do time da Vila Belmiro!)

    Tem cada uma que parece duas!

    Em tempo: Assasinato com palito de dentes está no código?

  • izabella lopes pagnoncelly

    SÃO PAULO FUTEBOL CLUBE UMA PAISÃO SEM LIMITES NAO CONSIGO NEM ESPLICAR O TAMANHO DA PAISÃO !!
    TE AMO MAIS Q MINHA FAMILIA JUNTA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    EU SOU IZABELLA UMA MENINA FANATICA PELO SÃO PAULO FUTEBOL CLUBE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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