COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

NÃO TOQUEM NO OURO DE CESAR

“É muito fácil chegar pra mim, quando o meu filho é campeão olímpico, e falar ‘Flávia, você está precisando de alguma coisa?’. Mas eu queria saber, lá atrás, quando ele perdia pra caramba e quase parou de nadar, se alguém chegou pra mim, ou pro Cesar, e perguntou se a gente estava precisando de alguma coisa. Isso nunca teve.”

A frase é de Flávia Cielo, a mãe mais rápida da natação mundial. Faz parte do premiado programa “Brasil Olímpico – Uma Candidatura Passada a Limpo”, da ESPN Brasil, exibido em fevereiro desse ano. Quem viu, sabe que tem muito mais. Declarações fortes dela e de Cesar Cielo, o pai, sobre as dificuldades de criar um atleta no Brasil.

A frase tem seis meses, mas vale pelos 22 anos de vida do nadador mais rápido do mundo. Vale pelos segundos e centésimos que ele passou na piscina do Cubo d’Água, em Pequim 2008, pelos segundos e centésimos que passou na piscina do Foro Itálico, em Roma 2009. E valerá por tudo, e será muito, que ele ainda fará.

É natural que conquistas individuais de atletas brasileiros sejam celebradas como conquistas coletivas, como se fossem produtos do que fazemos como “nação esportiva”. Esse é o caminho escolhido pelas raposas que usam terno, com a alegre colaboração dos mal-informados e/ou mal-intencionados. Mas é ridículo, humilhante, vergonhoso, imaginar que o feito histórico de um César brasileiro em Roma, seja um feito “nosso”.

Cesar Cielo Filho, campeão olímpico dos 50 metros livre, campeão e recordista mundial dos 100 metros livre, é um de nós. Nasceu em Santa Bárbara do Oeste, interior de São Paulo. Sua relação com o que se chama de “natação brasileira”, seja lá o que isso for, termina aí. Aliás, o correto é dizer que suas conquistas foram alcançadas, por esforço próprio, e de quem está a sua volta, apesar da “natação brasileira”.

Ele não é o primeiro, é só o mais bem-sucedido. Ricardo Prado (campeão e recordista mundial dos 400 metros medley no Mundial de Guaiaquil, em 1982) e Gustavo Borges (multimedalhista olímpico) lidaram com níveis diferentes dos mesmos problemas.

Ao ver Cielo chorando no pódio romano, foi impossível não lembrar da cerimônia de entrega de sua medalha de ouro em Pequim. Foi o mais emocionante momento que já presenciei, em quinze anos cobrindo eventos esportivos. Sem comparação com o segundo. Ao ver sua família pulando na torcida, sob o sol do verão europeu, também não deu para evitar outra lembrança da China. A de seus pais, andando para um lado e para outro, sem que seus pés tocassem o chão. Eles flutuavam.

São esses os momentos que não podem ser descritos, apenas sentidos. Momentos cujo valor não se calcula, nem mesmo pela insaciável ganância das nossas “autoridades esportivas”.

As medalhas de ouro de Cesar Cielo não são nossas. Simplesmente porque nós não as merecemos. Elas são dele, do técnico dele, e da família dele.

E de mais ninguém.



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