COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

MANDA PRO ALBA7

Ainda estou impressionado com a apresentação de Cristiano Ronaldo no Real Madrid. Principalmente com o fato de 75 mil pessoas terem lotado um estádio para ver um jogador de futebol, que em 1h30 de entrevista, respondeu a uma pergunta sobre o jogo de futebol. Uma.

Sobre relacionamentos, dentro e fora do novo local de trabalho, o interesse foi tamanho que dava para rechear um “TV Fama”.

Cristiano segue o caminho de David Beckham. É uma estrela pop, uma personalidade que pode ser vendida de várias formas, um “ícone” fashion (há gosto para tudo), que, também, joga futebol. É como os celulares modernos, aparelhos que também fazem ligações. Em defesa do gajo, diga-se, ele joga muito mais bola do que DB.

Há algo mais em comum entre eles. Beckham, você sabe, também foi de jatinho de Manchester para Madri. Também tinha o número sete praticamente tatuado nas costas. E também teve de procurar outra forma de ser identificado com a camisa merengue. No Real Madrid, há duas coisas que não mudam: Alfredo di Stefano tem de estar presente em todas as ocasiões importantes, e Raúl González é o dono da camisa 7. O resto é o resto. Raúl é uma divindade.

Rápida história: em 2005, logo depois da contratação de Robinho, passei alguns dias em Madri fazendo uma série de reportagens sobre a “fase verde-e-amarela” do clube. Por sorte, havia um Espanha x Sérvia e Montenegro naquela semana, pelas Eliminatórias para a Copa da Alemanha.

A Espanha precisava ganhar para manter suas chances. Empatou. Velório no estádio do Atlético. Enquanto quase todos os jornalistas foram para a coletiva do técnico Luis Aragonés, preferi me posicionar na zona mista. Os jogadores foram passando, alguns falaram. Quando vi, estava cercado por repórteres de rádio e TV. Os olhares para o meu microfone, com o cubinho da ESPN Brasil, eram do tipo o-que-você-fazendo-aqui?. Eu não queria atrapalhar, até abri espaço para um cinegrafista. Mas guardei meu lugar, de frente para a porta do vestiário.

Perguntei quem eles esperavam. “Raúl”, resposta seca. Olhei pro relógio, o jogo tinha acabado havia quase duas horas. Será que ele fala? “El capitán siempre habla”. Aí um deles cometeu o erro de perguntar minha opinião sobre “el capitán”. Bom jogador, inteligente, mas se não fosse espanhol jamais teria uma carreira tão longa no Real Madrid. E se fosse brasileiro, não jogaria na Seleção. Na lata. Fui mal?

Pareceu que sim. Os olhares ganharam contornos homicidas, mas me deixaram ficar ali. Raul finalmente saiu. Elegante, gel no cabelo, discurso protocolar. Em três minutos de entrevista, percebi mãos trêmulas, perguntas nervosas. Era como se Raúl fosse feito de ouro. Agradeci a hospitalidade dos súditos dele e me mandei.

Quatro anos depois, penso da mesma forma. Raúl não é um caneleiro, tem um currículo impressionante no clube, mas o tempo dele passou. A seleção espanhola percebeu isso. Talvez não por acaso, ganhou alguma coisa.

Chegou a hora de chamá-lo para uma conversa, presenteá-lo com vários mimos e, com toda a classe do mundo, dizer “obrigado, e boa sorte”.

Entre outras vantagens, liberaria a 7 para o português.



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