COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

NÃO SEJAMOS PRIMATAS

Com todo respeito ao atacante gremista Maxi López, é difícil acreditar que ele não conheça a palavra “macaco”. Quem nasceu num país onde é comum se fazer referência a brasileiros como “los macaquitos”, tem perfeito conhecimento do termo.

Mas se você imagina que lerá, aqui, uma condenação sumária ao argentino, interrompa a leitura. O episódio Grafite/Desábato, em 2005, deixou lições. Pelo menos para mim.

Não sabemos se Maxi López chamou o volante cruzeirense Elicarlos de macaco. Mas tudo indica (a reclamação do próprio, e o testemunho do meia Wagner, que diz que ouviu, seriam um complô?) que sim. Ocorre que, se chamou ou não, importa pouco. O que se perdeu no circo armado em torno do bate-boca é, apenas, o mais importante.

Um jogador negro ser chamado de macaco, durante uma partida de futebol, é um absurdo, indecente, enojante. Preconceito do pior tipo, falta de educação inominável. Mas não é crime de racismo.

Deixe-me repetir: Não. É. Crime. De. Racismo.

Na Lei brasileira, em termos gerais, os crimes de racismo estão relacionados ao tratamento diferente que se dá a alguém, em virtude de sua raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional, em situações em que todos deveriam receber tratamento igual.

O que Máxi López fez, se fez, é injúria, ofensa à honra. É a mesma coisa que chamar alguém de ladrão, safado, viado, índio, japonês, alemão, filho da…

Veja que interessantes o primeiro e o último exemplo da frase acima. Vivemos num país em que os árbitros de futebol, quando erram, são chamados (em todos os jogos, seja qual for o nível) de “ladrão filho da…”. E isso é legal, é divertido, engraçado, “faz parte”.

Mas quando se mexe com a cor da pele, parece mais grave. E pode até ser, mas não à luz da Lei. Parece ainda mais grave quando o autor da ofensa é um “argentino filho da…”, como Maxi, como Desábato. A sorte do primeiro é que ele não foi em cana.

Leandro Desábato foi parar numa delegacia paulistana, em abril de 2005, porque o então secretário de segurança pública de São Paulo acreditou na leitura labial que a televisão mostrou (e que mais tarde se provou equivocada), e mandou um delegado entrar no Morumbi para lhe dar voz de prisão.

O zagueiro ficou preso por 36 horas e não pôde se comunicar com sua família, num caso que terminou arquivado porque Grafite, sentindo-se abandonado por quem o instigou a prestar queixa, decidiu não ir em frente.

Há sinais de racismo na prisão de Desábato? Se você acha que ele foi tratado como foi porque é estrangeiro, sim. Felizmente, o mesmo não aconteceu com Maxi López.

Que fique claro: Elicarlos tem todo o direito do mundo de levar o processo adiante. Só ele sabe como se sentiu.

Nós, temos o dever de tratar as coisas como elas são, com responsabilidade e correção. E não temos o direito de nos colocar acima do que está escrito na Lei.

Fazer isso, nesse caso, é crime. De racismo.

Quando cometido por intermédio de meios de comunicação, dá reclusão de dois a cinco anos. E multa.

ATUALIZAÇÃO, 13h54 – O blog agradece os e-mails recebidos sobre o tema, e faz uma correção: a injúria qualificada (racial) é mais grave, à luz da Lei, do que a injúria simples.

O objetivo da coluna era esclarecer que não se trata de crime de racismo.



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