COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

PASSA A CANETA

A crise dos mercados, como se sabe, ajuda a explicar porque o Milan vendeu Kaká. Entre outras coisas, Berlusconi “precisava da grana”. Irônico, mas verdadeiro. Mas por que motivo o Manchester United, um dos clubes mais ricos do universo, aceitou vender Cristiano Ronaldo?

Bem, porque nenhum clube do mundo deve dizer não, obrigado, a 96 milhões de euros (o câmbio não faz muita diferença, porque é algo inimaginável: R$ 256 milhões). É simples assim. No mercado da bola, especialmente na Europa, clubes dizem a todo momento que “fulano não está à venda, não tem preço, blá-blá-blá”. Na maioria dos casos, isso é negociês para “as propostas precisam aumentar”. Quando as propostas aumentam, fulano está à venda e tem preço definido.

Clubes-empresas bem administrados, como Manchester United, só são clubes-empresas bem administrados porque fazem mais bons do que maus negócios. E aqui não se fala do tipo de negócio que o Man U. fez com Cristiano. Esse não é um bom negócio, é um negócio obrigatório. O Real Madrid ofereceu um valor que nenhum jogador, por melhor que seja, vale. Não precisou repetir a oferta.

Uma das provas de que a única resposta possível para os ingleses era dizer “onde assinamos?” é uma declaração dada por Sir Alex Ferguson em dezembro do ano passado, quando o United estava furioso pela oferta hostil vinda de Madri. “Você não acha que faríamos um contrato com aquela máfia, acha? Eu não venderia nem um vírus a eles.”, disse o técnico-executivo.

Agora ele tem de se garantir pela bravata, e a maneira mais fácil de fazê-lo é dizer a verdade. A transação que será concluída em breve estava preparada desde o ano passado. O gajo, que já considerava seu período em Manchester no terreno da hora extra, não escondia de ninguém que queria ir embora. Ferguson o convenceu a ficar mais uma temporada, mas estava claro para todas as partes que seria a última. Ramón Calderón, presidente do Real Madrid à época, disse anteontem que “todas as pessoas envolvidas concordaram em fazer o negócio neste ano. Na temporada passada, eles acharam que era muito cedo”. Na última quarta-feira, em conversa por telefone (de 15 minutos) com o atual manda-chuva merengue, Florentino Pérez, o executivo-chefe do Manchester United ouviu que o dinheiro estava pronto. David Gill, então, interrompeu as férias francesas de Ferguson apenas para comunicá-lo.

Sir Alex se deu bem. Está com um cheque em branco para fazer a alegria de muitos agentes de jogadores pela Europa (ou fora), e remontar seu time, que, apenas para lembrar, é tricampeão inglês e vice-campeão europeu. Entre outras decisões, ele escolherá o próximo dono da camisa 7 vermelha, linhagem que teve George Best, Eric Cantona, David Beckham e Cristiano Ronaldo.

Há quem veja no frenesi consumista (que pelo jeito ainda não acabou) do Real Madrid um ataque ao “fair play”, como frisou o presidente da Uefa, Michel Platini. Só não dá para criticar quem está, ou estará, do outro lado da transferência bancária.



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