COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

O VERDADEIRO MILAGRE

É uma delícia ver um jogo de futebol, decisivo, que não envolve o nosso time.

Melhor ainda quando é um rival que está em campo. O compromisso emocional é quase nulo. Você escolhe o adversário para torcer, se ajeita no sofá e passa a desejar que dê tudo errado para “eles”. Se der, ótimo. Se não, pena, mas não há razão para dor de cabeça.

Essa coluna é (mais uma) sobre Marcos, o santo. Mas não repetirá os elogios tantas vezes feitos ao goleiro do Palmeiras, obviamente merecidos e amplificados nessa semana em que ele desceu dos céus pela segunda vez, e se transformou em Luke Skywalker, treinando com o sabre-de-luz de olhos fechados, em “Guerra nas Estrelas”. Marcos tem a força que faz a bola procurá-lo.

Mas ele também tem a força para fazer mais. Recebi vários e-mails sobre a atuação de Marcos na Ilha do Retiro. Muitos palmeirenses, emocionados com a façanha do arqueiro que ganhou o jogo contra o Sport no tempo normal e nos pênaltis. Muitos não-palmeirenses, espantados com a capacidade dele de fechar um gol tão hermeticamente, aos 36 anos, depois de tantas funilarias. Mas essa coluna não é sobre eles.

É sobre duas mensagens, uma de São Paulo e outra do Rio de Janeiro, contando histórias parecidas, que atestam o que um cara como Marcos é capaz de fazer.

A mensagem paulistana veio de um são-paulino que viu o jogo com os dois irmãos e um amigo corintiano. Altíssimo nível de energia negativa emanou daquela sala durante os noventa e tantos minutos de blitz ao gol palmeirense. Grotescos palavrões foram disparados na direção de Paulo Baier, a cada gol não feito. E um divertido abraço coletivo colocou em risco uma mesa de vidro, na comemoração do gol de Wilson.

A mensagem carioca veio de um rubronegro, que começou a acompanhar o jogo no segundo tempo, após a tradicional pelada de terça-feira. Ninguém ali estava torcendo necessariamente contra o Palmeiras, mas contra um determinado palmeirense que não precisa (por óbvio) ser identificado. Naquele canto do Rio de Janeiro, um gol pernambucano foi comemorado com especial prazer.

Mas aí vieram os pênaltis. E tanto no apartamento em São Paulo quanto no pós-pelada carioca, comportamentos se alteraram imediatamente. Parecia dupla personalidade. Bastou Marcos pegar o pênalti cobrado por Luciano Henrique, e a coisa virou. A torcida a favor dele superou o processo de secagem que o Palmeiras sofria, levando a experiência de ver um jogo “do time dos outros” a um novo patamar.

Jogadores bons, seja qual for o critério, nos fazem ir a estádios, ligar o rádio ou a televisão, comprar a camisa. Ídolos estão um degrau acima, pois dão sentido à nossa existência como torcedores. Mas só os raros jogadores transcendentes nos mostram exatamente como o futebol deve ser.

Nesses tempos em que idiotas se divertem se matando por causa de cores diferentes, alguém capaz de despertar respeito e admiração em todos os lados, sem que se olhe para a camisa, é a prova de que ainda chegaremos a algum lugar.

É o verdadeiro milagre de São Marcos.



  • Adoro o Marcos, o São Marcos. Ontem ele fez 17 anos de Palmeiras. Sensacional. Muito boa a coluna. Gostei também de voce citar gente de Sao Paulo e do Rio de Janeiro, comprovando que sua visão é global sempre, do Oiapoque ao Chuí, o que o capacita a falar de qualquer campeonato por sua inteligência, perspicácia tranquilidade (qualidade rara no meio) e competência.

  • Rodrigo

    Tem razão.

    São Marcos é um exemplo vivo de como a rivalidade pode ser saudável.

    Aos 36 anos de idade, pode-se dizer que ele já fez muito para isso acontecer. Espero que aguente firme até os 40, ou mais!

    Abraço.

  • Cara, parabéns pelo seu texto. Foi de arrepiar!

    Você tem razão: existem pessoas que têm o dom. São Marcos é uma delas.

    É incrível a simpatia que ele proporciona a cada entrevista. São pessoas como ele que não deveriam se aposentar nunca!!

  • Willian Ifanger

    Eu sou são paulino e fã incondicional do Marcos. Ele foi o grande goleiro da Copa de 2002, e ele é um dos maiores goleiros de todos os tempos que eu vi jogando (até me fez vibrar como “palmeirense” quando ele defendeu o penalti do Marcelinho). Acho ele até mais goleiro que o Rogério, mas o significado do Rogério, para todo são paulino, vai muito além de ser “simplesmente” goleiro.

    Também assisti o jogo dando aquela secadinha básica, mas não concordo que ele tenha feito “milagres” durante a partida…..um goleiro da capacidade dele tem que fazer aquelas defesas. Assim como nem achei falha dele no lance do gol do Sport, muitos acharam.

    O momento dele no jogo foi nas cobranças de penalidades……aí sim ele foi soberano. Honestamente, não deve ser fácil pra um jogador, além da pressão da decisão, ver no gol um goleiro como o Marcos……o gol deve diminuir muito.

  • Jovaneli

    Uma pergunta que não quer calar: por que toda essa idolatria em torno de São Marcos é tão mal explorada pelos responsáveis pelo departamento de Marketing do Palmeiras?
    Óbvio que o palmerense prefere comprar a camisa de um jogador de linha, a de cor verde, que diz mais sobre a paixão em relação ao clube do que a azul do goleiro alviverde.
    Então, não seria uma boa idéia fazer uma camisa especial de linha (verde) com o nome e o número do Marcão? Lógico que se o Palmeiras entra em campo com a camisa número 1, Marcão não pode usar essa camisa verde. Mas pode usá-la quando o Palmeiras estiver vestindo o uniforme 2. E o goleiro nem precisa abandonar a camisa azul que tanto gosta. Basta uma ou outra vez e pronto. Certamente, o torcedor palmeirense adoraria poder comprá-la.

  • Oliveira

    Por que os times de São Paulo tem q ROUBAR pra ganhar empatar ou perder de pouco ( 3 a 2)
    pro Atlético???

    BAndo de ladrões e a imprensa- paulista- não fala nada.
    Tal pai, tal filho… q pena

    AK: Pena é o seu complexo de perseguição prejudicar sua capacidade de compreender as coisas. Um abraço.

  • Marcio

    APITO AMIGO SÃO PAULINO COMEÇOU CEDO ESTE ANO. GOL CLARAMENTE IMPEDIDO DO ANDRÉ LIMA, SALVOU O SÃO PAULO DA DERROTA. E O PIERRE FOI INJUSTAMENTE EXPULSO E NÃO ENFRENTARÁ O SÃO PAULO NO PRÓXIMO DOMINGO. NÃO MERECEU NEM O PRIMEIRO NEM O SEGUNDO CARTÃO AMARELO. ANO PASSADO, O SÃO PAULO CONSEGUIU A VIRADA COM MUITOS “ERROS” DE ARBITRAGEM A SEU FAVOR. SERÁ QUE A HISTÓRIA VAI SE REPETIR ??

  • fato 1: Dentinho teria q ter sido expulso em Curitiba, quando o Atlético ganhanva de 3 a 0.
    fato 2: não foi falta no lance em que o corintians fez 3 a 1.
    fato 3:
    naõ foi pênalti no Ronaldo no jogo do Pacaembu
    fato 4: foi mão do Washington e impedimeto claríssimo no gol de empate do São Paulo..
    fato 5:
    em vez de responder aos meus argumentosw, vc prefere me agredir pessoalmente, q pena

    tal pai, tal filho

    AK: O que você chama de “fatos” são, na verdade, opiniões suas. Mas vamos lá:
    Opinião 1: discordo. Lance ríspido dos dois jogadores. Para amarelo.
    Opinião 2: discordo. Faltas como aquela são marcadas em todos os jogos.
    Opinião 3: concordo. Não foi mesmo. Mas foi o gol de pênalti que classificou o Corinthians?
    Opinião 4: ainda não vi esse lance.
    Opinião 5: seus “argumentos” estão respondidos. Não o agredi. Apenas usei o mesmo tom que você. É assim que funciona.

    Um abraço.

  • Bóris Luiz

    André,

    Sou assíduo leitor do seu blog. Parabéns pela qualidade do trabalho.

    Com relação à coluna dominical, parece a narração do que aconteceu na minha casa, pois sou são-paulino doente e estava secando descaradamente o Palmeiras, até o Marcos pegar o primeiro penalti.

    Gostei muito do texto.

    Abraços,

    Bóris Luiz

  • Pedro Valadares

    Excelente texto, André. Sou corintiano e também torci pro Sport como se fosse meu Timão lá jogando. Me irritei com as cobranças dos jogadores pernambucanos. Porém, não posso eu culpá-los, afinal estavam na frente do São Marcos. E os corintianos sabem muito bem o que significa essa sensação. Jogo decisivo parece que ele tem quatro braços!

    PS: Pô Oliveira, relaxa! Futebol é pra se divertir! Sou a favor da Campanha do Antero Greco pela volta da alegria no futebol!

  • Alexandre Reis

    André, obrigado por ter colocado a minha pequena mensagem em uma coluna.
    Agora fico ainda mais contente com o Marcos.

    Abs

    Alexandre Reis

    AK: Eu que agradeço. Um abraço.

  • André,

    Se você puder divulgar esse vídeo !
    Achei muito engraçado o guri não aceitando a camisa tricolor.
    Sei que pode gerar “brigas” … mas enfim, é engraçado:

    http://www.youtube.com/watch?v=xLv_BG3304U

    Abs !

  • Cassio Luis Parra

    Mas nesse caso, não era o nosso time, não o meu pelo menos, mas era o maior rival do meu time, e que se saiu bem com muita sorte. Aí é duro !

  • Jardel

    Muito legal seu texto, A.K. Aquele ‘secada’ básica é muito comum, em se considerando que torcemos por um time e secamos uns dez, mais ou menos. Então, a proporção dos jogos pra ‘secar’ o rival é bem maior. Seu relato da galera torcendo contra o Palmeiras me fez lembrar daquele Flamengo x America do Mexico, no Rio. Torci tanto para os mexicanos, que até hoje acredito que minha participação foi fundamental para aquele resultado histórico…ehehe

  • Lucas Brocolo

    Parabéns pelo texto, muito bonito!

  • Que belo texto! Voltarei mais vezes…

    AK: Obrigado. Seja bem-vinda. Um abraço.

  • Paulo

    André. Muito obrigado pela análise lúcida. Trabalhei com seu pai na CNT e confesso que tenho profundo respeito pelos dois. Sou palmeirense apaixonado, mas acredito que o futebol deveria ser muito menos ódio e muito mais respeito. Marcos, Rogério Ceni e Ronaldo são mitos, verdadeiros heróis do esporte. São três jogadores que hoje podem ser citados, mas poderiam realmente ser muito mais se esquecessemos mágoas, frustrações, raivas e nos recordássemos da beleza e do significado maior de Corinthians, São Paulo e Palmeiras. O Trio de Ferro do futebol do mundo.

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