COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

PRIMEIRA NECESSIDADE

Cenas de uma quarta-feira de futebol, em São Paulo:

A cabeça do corintiano começou a inchar no exato momento em que seu time começou a rebolar na Arena.

Ele sabia que Rafael Moura entraria em campo com todos os poderes de Greyskull para marcar no ex-clube. Até tinha dito que o Corinthians tomaria um gol dele. Mas nem em seus piores pesadelos imaginou ver o time, tal qual um Esqueleto impotente, levar tamanho baile liderado pelo super-herói.

Passe de Rafael, 1 x 0. Cabeçada de Rafael, 2 x 0, momento em que o cérebro do corintiano passou a latejar. E sabe como é, coisa ruim puxa coisa ruim, e Ronaldo não voltou para o segundo tempo. Suspeita de fratura na costela, praticamente simultânea ao terceiro gol do Atlético Paranaense. Gol que trouxe de volta lembranças aterrorizantes da Ilha do Retiro, e transformou o crânio do corintiano num panela de pressão. Com direito ao apito.

Então ele foi ao Google. Teclou “tempo recuperação fratura costela” no espaço de busca e, com a mão trêmula, encomendou a pesquisa. Os resultados não o aliviaram. Ao contrário. O “mediquês” era difícil de compreender, mas estava ali, num artigo de um site de fisioterapia, que era coisa para mais de mês. Próxima página, e veio a confirmação. Elias, um dos poucos que se salvavam em Curitiba, tinha quebrado a costela em 2008. Vinte dias fora.

O corintiano não conseguia processar tantos pensamentos pessimistas. Entrar no Pacaembu com 3 x 0 na cabeça, e sem Ronaldo, faria da final do Campeonato Paulista aquela festa em que você vai por obrigação, e fica olhando no relógio a cada 15 segundos. Fora o exemplo que o Atlético dava ao Santos. Sim, é possível. Nada sobre a costela de Ronaldo, mas a fratura exposta na confiança do corintiano já estava confirmada.

Quatorze minutos, pênalti (duvidosíssimo) em Elias. Chicão bate, a bola bate. Nas DUAS traves. E não entra. O corintiano solta dois palavrões, quase acorda a família, e decreta que parou com essa porcaria de jogo. Troca de canal. Revoga o decreto três segundos depois.

Mas São Jorge é pai. Em 15 minutos, Cristian e Dentinho garantem que haverá um jogo de volta. E chega a informação de que Ronaldo está inteiro. A cabeça do corintiano retorna ao tamanho normal.

A bola ainda rolava em Santiago, com o Palmeiras lutando para evitar a porta da Libertadores, apertando os chilenos com um a menos. TV sem som, frequência cardíaca ainda acelerada, o corintiano vê Cleiton Xavier armar um chute milagroso. Ouve um grito gutural, incontrolável, de um palmeirense vizinho, rasgando o silêncio da madrugada no bairro. “NÃO! PASSA! GOOOOOL!! GOOOLLLLLL!! GOOOOOOOOOLLLL!!!!!” Não fosse a rede, a bola chutada por Cleiton ainda estaria voando. E o palmeirense, ainda gritando. Que gol.

No dia seguinte, pelo telefone, o amigo são-paulino comenta que, lá pelas 23:45, o mundo era perfeito para ele. Corinthians fora da Copa do Brasil, Ronaldo fora por um mês, Palmeiras fora da Libertadores…

Numa batida do coração, tudo mudou.

E tem gente que diz que o futebol não é coisa séria.



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