COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

VIVEMOS NO PARAÍSO

O dinamarquês, que veio morar em São Paulo, manda para a família suas primeiras impressões. A seguir, a tradução do e-mail:

“Queridos,

Deixei Copenhague há seis meses, e ainda estou impressionado com o Brasil. Sei que é difícil acreditar, mas não encontrei nada que justificasse os assustadores avisos que recebi. Injustiça social? Corrupção? Insegurança? Acho que estavam falando de outro lugar.

Já andei por todos os cantos de São Paulo e não encontrei um sinal de pobreza. Não há moradores na rua, nenhum mendigo nas calçadas, ninguém pedindo dinheiro nos semáforos. Sabem aqueles garotos que limpam vidros dos carros por um trocado, que parecem estar em todas as esquinas dinamarquesas? Não existem aqui. Tenho certeza de que os índices de escolaridade (altíssimo) e desemprego (insignificante) têm algo a ver com isso.

E a sociedade se comporta de maneira exemplar. Os políticos que a representam têm uma conduta irrepreensível. Não se tem notícia de um episódio sequer em que um deputado seja suspeito de corrupção. No máximo, como os jornais publicaram nessa semana, umas passagens aéreas para a namorada, pagas com dinheiro público. Mas o parlamentar garantiu que fez o reembolso, e não há por que duvidar. Se fosse aí na Dinamarca, com escândalos semanais cada vez mais desavergonhados, quem acreditaria?

As pessoas andam tranquilas pelas ruas, a qualquer hora. Não testemunhei nenhum assalto no centro da cidade. Ao contrário. No metrô, vi duas vezes uma pessoa deixar a carteira cair no chão. Foi prontamente devolvida. E onde estão os carros blindados, que vemos aos montes nas cidades dinamarquesas? Ainda procuro o primeiro. No escritório onde trabalho, não se conhece alguém que tenha ficado sem o relógio ou o celular no trânsito. Aquelas histórias sobre motoqueiros armados só podem ser brincadeira.

Confesso que fiquei tão surpreso com a segurança, que decidi verificar por conta própria. Fui a uma delegacia. Vocês não imaginam o que encontrei. Policiais conversando na porta, o delegado lendo um livro em sua sala. Eram 4 da tarde e telefone tinha tocado só duas vezes. Uma era engano.

Aí entendi o que aconteceu no domingo passado.

Contrariando todos os conselhos, fui a um jogo de futebol. Corinthians e São Paulo, dois rivais, jogo decisivo. Achei que veria uma guerra, como acontece aí. Que nada. As pessoas assistem ao jogo juntas, sem separações. Não dá nem para saber quem torce para quem. Pouquíssimos policiais, quase sempre de braços cruzados.

O jogo estava empatado até os segundos finais, quando um jogador do Corinthians marcou um gol. Na comemoração, fez gestos obscenos para um grupo de torcedores adversários. A reação? Riram dele, que se constrangeu pela falta de educação. Ninguém tolera esse comportamento por aqui. Já aí, há quem ache até legal.

O jogador pediu desculpas, mas não teve jeito. Numa sociedade atrasada como a nossa, ele teria sido suspenso. Mas aqui, como tudo funciona, querem levá-lo à Justiça Comum.

Saudades de todos. Venham me visitar. Vocês vão adorar.”



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