COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

FALHAS NO ROTEIRO

Forrest Gump é marketing.

O maior contador de histórias de todos os tempos é um cara chamado Verbal Kint.

Kint é o personagem de Kevin Spacey, em “Os Suspeitos”. É ele que passa o filme inteiro enganando um investigador de polícia, dentro da delegacia, com uma fábula sobre uma quadrilha de bandidos que seria vítima da vingança de um criminoso cruel e lendário, o terrível Keyser Soze.

A trama é tão complicada e cheia de contornos, que prende a atenção do espectador aos mínimos detalhes, do primeiro ao último minuto do depoimento, quando o investigador percebe que alguns nomes mencionados por Kint estão presentes em vários objetos espalhados pela sala de interrogatório.

Se você não viu o filme (Oscar de melhor roteiro e melhor ator coadjuvante, para Spacey), desculpe contar o final. Mas, na boa, deveria ter visto.

E se você está se perguntando por que lê sobre cinema, numa coluna de um diário esportivo, é porque tem gente tentando ser Verbal Kint no futebol de São Paulo. Só que a história está pessimamente mal contada.

Falo do suposto suborno do zagueiro Jean, da Ponte Preta, e do circo que se fez em torno de um caso em que ninguém – repito, ninguém – tem certeza do que está falando. Vejamos:

O presidente da Portuguesa, Manoel da Lupa, não tem certeza. Foi procurado por duas pessoas que ouviram uma frase suspeita de alguém que teria ligações com o representante do jogador. Foi à imprensa antes mesmo de ouvir tudo que precisava ouvir.

As duas “testemunhas” (que fique claro: não acho que agiram de má fé) não têm certeza. Ouviram a frase suspeita, viram o jogo, ligaram os pontos e resolveram contar o que sabiam. Agora estão expostos.

O procurador de jogadores que teria dito o que não devia, também não tem certeza do que fala. Prova disso é que sua versão é que a tal frase foi uma brincadeira mal-interpretada. A própria frase é suspeita, em todos os sentidos: “para o Santos se classificar, só pagando 20 mil, 40 mil, 60 mil ou 80 mil”.

Sério, você já viu alguém se expressar dessa forma? É a mesma coisa que dizer “para saciar minha forme, só comendo uma, ou duas, ou três, ou quatro pizzas”. Ou, “para não pegar trânsito na estrada no feriado, só saindo às seis, ou às sete, ou às oito, ou às nove da manhã”.

E até quem diz que “um jogador que ganha R$ 25 mil reais não se venderia por 20 mil”, erra. Por que não? Há uma tabela para subornos no futebol? Quem se vende, se vende. Recebe a proposta e aceita, a não ser que se sinta ofendido (pilantras também têm sentimentos). E não dá para imaginar que 20 mil reais sejam motivo de ofensa.

Melhor seria dizer que Jean é uma pessoa correta, digna, e jamais aceitaria uma oferta de suborno, nem de 200 reais, nem de 20 mil, nem de 2 milhões. Eu nunca falei com ele, mas foi exatamente isso que ouvi de quem o conhece, gente que poderia ter se recusado a pôr a mão no fogo.

No futebol, não duvido de nada. Mas preciso de um mínimo de consistência.

Deve ser horrível se sentir como o policial que interrrogou Verbal Kint.



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