A OUTRA HISTÓRIA



Na última rodada do tal Torneio da França, o Brasil venceu a Inglaterra (1 x 0, Romário) no Parque dos Príncipes.

Naquela noite, Trajano tinha combinado de jantar com o Tostão e com Toninho Neves, ambos, à época, na TV Bandeirantes.

Obviamente, o local do encontro era o La Coupole.

Eu tinha visto o Tostão em Lyon, de longe, e me animei pela chance de apenas ouvir a conversa entre eles.

Por causa de uma matéria que precisava ser fechada, cheguei um pouco mais tarde.

Estavam na mesa Trajano, Tostão, Toninho e o João Castelo Branco, que mora em Londres.

Quando sentei, percebi alguma coisa estranha. Os quatro se olhavam com cara de cúmplices, e olhavam para mim.

Pô, pensei, só falta o cara estar aí de novo.

Não era nada disso. Eles queriam que eu participasse do joguinho que tomou conta da noite.

Na mesa ao lado da nossa, coisa de dois metros de distância, havia outro grupo de jornalistas. Eram ingleses. E também estavam acompanhados por um ex-jogador.

Trajano, Tostão e João foram os primeiros a chegar, e logo sentiram que os caras reconheceram o camisa 9 da Seleção Brasileira na Copa de 70.

Naquela de “olhar sem olhar”, eles também reconheceram o ex-jogador inglês. Era Kevin Keegan. Então, combinaram de testar o conhecimento alheio.

Toninho chegou logo depois. Foi recebido pela charada: não olhe agora, mas quem é o cara que está sentado ali naquela mesa, de frente para nós?

O que eu tenho de vida, o Toninho tem de carreira na imprensa, esportiva ou não. Fora a memória de elefante. Ele matou em um segundo: Keegan.

Aí eu apareci, atrasado. Eles me apresentaram a mesma situação. Não tinha como errar, Keegan era técnico do Newcastle na época. Qualquer pessoa que acompanhasse um mínimo de futebol internacional o reconheceria.

Olhei e disparei: Kevin Keegan. Pela reação da mesa, alguém achava que eu ia errar.

Fim do joguinho, jantamos maravilhosamente bem, sem pressa alguma. Eu ali, ouvindo e absorvendo.

Até que percebemos que, na mesa ao lado, o jantar já tinha acabado havia muito tempo, e ninguém levantava. E àquela altura, os ingleses não paravam de olhar para nós.

Mais um café, e outro debate: Tostão tinha sérias dúvidas sobre a capacidade dos ingleses de identificá-lo. Com razão. Afinal, ele tinha passado muito tempo longe do futebol, e era esteticamente bem diferente dos dias de jogador.

Keegan não jogou a Copa de 70, portanto não estaria aguardando para perguntar a Tostão como ele conseguiu, depois de se livrar de três marcadores, de costas, girar o corpo e jogar a bola no pé de Pelé, no lance do gol de Jairzinho.

A mesa brasileira inclinou-se a concordar. Mas qual era, então, o motivo da espera de Keegan e amigos?

No duelo “quem se mexe primeiro”, ficamos mais uns vinte minutos no mesmo lugar, o restaurante já quase vazio.

Tostão decidiu que era hora, e levantou. Imediatamente, Keegan se apressou, deu a volta na mesa, e lhe estendeu a mão.

Tostao…, disse ele.

Os dois trocaram gentilezas por alguns minutos. Nós ficamos esperando, conversando com os colegas britânicos.

E viva o futebol.



  • Willian Ifanger

    Pelo visto, “Boleiros 3” vai ser gravado nesse restaurante.

  • Marcelo David Macedo

    Seu estilo de escrita prende o leitor de uma maneira como poucas vezes vi. O “Aqui Tem!” é uma delícia, tanto pela carreira do Fininho, quanto pelo seu modo de contar histórias. Sem contar seu blog, obrigatório. Acho que você já ouviu centenas de vezes essa pergunta, mas eu não resisto a fazê-la: já pensou em escrever um livro com essas histórias, presenciadas por você, ou simplesmente contadas a você? A memória do esporte agradeceria… parabéns novamente, um abraço!

    AK: Essa é uma idéia para o futuro. Obrigado pelo comentário e pelo elogio. Um abraço.

  • Marcello

    Muito legal. Só prá variar.

  • Alberto Cruz

    André, o João Castelo é filho do Trajano ?!
    Um abraço !

  • “MD: já pensou em escrever um livro com essas histórias, presenciadas por você, ou simplesmente contadas a você? A memória do esporte agradeceria”

    “AK: Essa é uma idéia para o futuro. Obrigado pelo comentário e pelo elogio. Um abraço.”

    “FD: O que é o FUTURO para você? Tipo, ainda neste ano? Que tal início de 2011? Pós-Copa, pós centenário alvinegro, pós volta concreta do fenômeno, pós título do Corinthians na Libertadores (ok, chega… chacotas virão aos montes!). Isso me lembra Kevin Costner, no Campo dos Sonhos: “André, se você ESCREVER, eles LERÃO…”…”

    Serei o 1º da imensa fila, na noite de autógrafos! Just Do It! Você tem muito talento! Abraços!

    AK: Cara, neste ano não dá. Estou escrevendo, junto com o PVC, um livro sobre futebol que será lançado no final do ano. A ESPN é parceira do projeto, que logo será divulgado e contará com a participação do público, via internet. É bem legal. Mas o ano já está comprometido. Obrigado pela força e um abraço.

  • André, queria eu ter presenciado tudo isso haha

    como estudante de jornalismo espero um dia ter essas oportunidades. Uma que vou ter é ver sua palestra pela revista Cult dia 28 de março…

    sou aqui de Santa Catarina e estarei lá para ouvir suas história e trocar experiências. Ahh claro com certeza fazer algumas perguntinhas hehehe

    abraços

    obs: gosto muito do seu trabalho

    AK: Estaremos juntos no dia 28. Obrigado e um abraço.

  • Baita história , Tostão esse cara jogava muito !

  • Marcel Souza

    Esse seu livro com o PVC promete hein??? Bacana!!

    Essa história é sensacional. Muita modéstia do Tostão achar que o pessoal não reconheceria ele. O Tostão é “o cara” daquele jogo de 70!

  • Leonardo Dantas

    Ótima história!
    Quando puder, conte mais!
    Abraço.

  • Raphael Silva

    André, bom dia

    Sei que são meros homens – carnais, assim como eu, humilde desconhecido do outro lado do teclado; mas imortais pois sua história não será esquecida, enquanto a civilização como conhecemos existir.
    Mas, como é ter a oportunidade de conviver (ou ter momentos) com quem escreveu a história? Qual a sensação de ouvir a história contada pelos seus protagonistas?

    PS 1: Estas histórias deviam pingar mais vezes por aqui… Sensacional!!!
    Ps 2: Não esqueço, a sua narração (e a história) do Maradona, 86…

    AK: A gente costuma dizer que essas viagens são inesquecíveis. O que estraga são os jogos… (brincadeira). Obrigado e um abraço.

  • Jovaneli

    André, você é um “animal” escrevendo. Não contente em deixar todos nós que amamos a primeira história loucos para ler a segunda, dispara essa de que está escrevendo um livro com o mestre PVC. Não sei se sou eu que estou desinformado, mas parece que é a primeira vez que toca no assunto, digamos, em público. É a primeira vez que fala sobre esse projeto, certo?
    Resultado: agora, todo mundo está louco para saber mais sobre esse trabalho com o PVC. E, claro, imagino que não fará a maldade de não compartilhar, via blog, mais essa empreitada, certo?!! Hahaha.
    Demais, meu. Continue assim e logo nos sentiremos envergonhados por não pagar para lê-lo aqui. Tá cada vez melhor o seu trabalho. Abraço!

    AK: É um almanaque, sobre jogadores de futebol. Quem quiser participar do projeto, terá essa chance. Em breve falaremos mais. Obrigado e um abraço.

  • Felinto

    André, não lembro dessa história no seu outro blog ! Tens ctz q a escreveste? Um abraço !

    AK: Tenho quase certeza de que a contei no IG. Mas posso estar enganado. Um abraço.

  • Leonardo atleticano

    André, o Tostão é na realidade a figura que aparenta ser quando aparece frente as câmeras ou em seus textos? Comedido, inteligente, tímido, educado mas com muita coisa para acrescentar. Saborear uma boa comida, tomando um bom vinho, em um lugar agradavel, ouvindo as estórias do grande Tostão, não deve ter preço, não é mesmo André?

    AK: Na TV, no rádio ou no jornal, o Tostão é 100% a mesma pessoa. Uma figura incrível. E esse tipo de oportunidade não tem preço, mesmo. Um abraço.

  • Anderson Santos – SCS

    André,

    esse é meu 1º post, mas sou leitor há muito tempo….vou resumir em uma só palavra: magnífico

    admiro seu trabalho e do seu pai tbém, abraços

    AK: Obrigado, seja sempre bem-vindo. Um abraço.

  • Cássio Parra

    Isso é que eu chamo de “encontro de gigantes”. Mas com todo respeito aos dois astros do futebol, não superou a presença do rande Eric Clapton.
    Você aceitaria ser correspondente da ESPN em Londres ? Abraço.

    AK: A ESPN tem um repórter em Londres, o João. Sair do Brasil não faz parte dos meus planos. Um abraço.

  • Bruno Pereira

    André,

    Este post tem o único e sigelo objetivo de dizer-lhe: você é o cara mais “bunda-virada-para-a-lua” (com o perdão da expressão um pouco chulo) deste mundo. Você é pago para estar sempre nos melhores lugares nas melhores horas e com as melhores pessoas. Honestamente, acho que você tem o segundo melhor emprego do mundo. Perde só para um senhor octogenário chamado Hugh Hefner.

    um abraço

    AK: (rs) Um abraço.

  • BASILIO77

    Legal, bem legal. Bruno Pereira tá coberto de razão…hehehehehehe…
    A proposito…Tostão parou de jogar com quantos anos…26???
    Abraço.

    AK: 27. Abraço.

  • Antoniel

    Poxa, lamento muito que não existe muito material de Tostão na internet. Ja procurei no youtube há um tempo e tem pouquíssima coisa.

    Todas as imagens que tenho dele na memória são as da copa de 70. Tenho também um livro de “depoimentos” (faltou palavra melhor) sobre aquela copa, escrito por jornalistas do Rio Grande do Norte se não me engano. Esse livro tem várias fotos da copa, e em uma das fotos o olho de Tostão ta pior do que olho de monstro em filme de terror.

  • Leonardo Dantas

    André,

    Meu pai, que é santista (na verdade esta mais para “um santista, que é meu pai”), estava pensando em agir contra a distribuição irregular de ingressos para o clássico de domingo (pouco mais de 5% para a torcida do Santos) mas crê ser uma atitude oportunista. Sou radicalmente contra esse raciocínio, mas ele é o titular do direito.

    V. sabe da possibilidade de qualquer torcedor reclamar judicialmente, seja ele ou não um fã do clube prejudicado?

    Abraço!

  • Diego Brandão

    André, existe algum esportista que você queria encontrar nos dias de hoje e ainda não teve oportunidade? Que pergunta faria para ele?

  • Moiserine

    sensacional.

    A ESPN devia ter o Tostão no Linha de Passe ou em algum programa que eu possa assistir….

    Sonhos, sonhos…

  • Tárcio

    André, seu blog quanto a analise e noticias atuais do futebol, é normal, comum, como outros tantos que existem na net.
    O que faz seu blog ser diferenciado, são relatos como este, como o do superbowl definido na sua frente, entre outros, que você viveu em coberturas de eventos pelo mundo.

    parabéns

  • Tárcio

    se possível nos próximos posts, relata alguma noite de NBA,

    té +

  • Gustavo

    André, vc é um cara de sorte.

  • pilantrus

    Fala andré.. tudo em cima?

    Boa história, parabéns por tê-la vivido…
    Poderia fazer assim ó: colocar um dia da semana, igual o “Notinhas da rodada” para colocar algumas coisas assim pra nós…

    Um abraço e continue o bom trabalho… acompanho sempre…

  • Alex (EUA)

    Andre’, a tua otima historia me fez lembrar os meus dias de moleque, quando economizava o que podia para comprar a revista Placar e ler, antes de qualquer outro artigo, a coluna de Historias do Sandro Moreyra….
    Mande ver com um livro!!!!

  • Massara

    Apesar de o pessoal já ter comentado aos montes, como leitor assíduo do blog, tenho que dar uma passada pra dizer que as duas histórias são muito bacanas e foram contadas de forma genial.

    Parabéns. Aguardo ansiosamente o livro com o PVC.

    Abs.

  • Leonardo

    Cara, q inveja de vc (mas a inveja boa), queria ser jornalista esportivo, pena q não tenho talento pra isso, meu lance é outro. Continue contanto histórias para aguçar nossa imaginação.
    Abração.

  • Fábio Dorta

    Sensacional. E o Brasil não cultua seus verdadeiros ídolos. Uma pena.

  • Ricardo Schwarz

    Simplismente Fantástico. Tão quanto Tostão foi e é.

  • Marcio

    Um golaço de historia. De vez em quando posta outras…

  • Ricardo Antunes

    Correção: o Tostão parou de jogar há 37 anos (1972) e não ha 27 anos…

    AK: Correção: a pergunta não foi essa.

  • Diogo Moraes

    Olá,

    Adoro seus textos. Li log que publicou e só agora que lembrei de algo parecido.
    Tenho 25 anos e moro em campinas. Estudei engenharia na Unicamp e após nme formar fiquei morando por lá mesmo. Sou coritiano (graças a Deus). Um grande amigo que é da mesma turma que eu e são paulino também continua por aqueles lados. Somos recém formados (2 anos!!!) e ainda frequentamos os mesmos bares que iamos na faculdade…
    Bom, estavamos em barão geraldo as 2h da manha de uma quinta-feira (trabalhamos normalente na sexta e nao cheguei um minuto atrasado) quando o Careca chegou. Sim, vi muito pouco o careca em 1990, mas sei quem é a grandeza do cara. Quando entrou todos comentaram. E meu amigo sao paulino virou e me disse ” cara, não acredito. É o Careca!!!” entre este comentãrio e a próxima conversa foram 5 min…
    “seu celuar tira foto”, ele me perguntou. Resposta afirmativa.
    Depois “Cara, eu tenho de falar com ele. Eu tenho de contar isto para o meu pai.” O pai, sao paulino fanático ( saiu de sao paulo para ver a final no mineirao em 76, estava no maracana ano passado no jogo contra o fluminense, foi em todas as finais de copa libertadores…).
    ´Decidimos. Vamos iríamos lá pelo pai dele. (E era o Careca!! Maradona falou que era o melhor atacanete que jogou ao seu lado.) A abordagem foi a pior possível, ” Olá careca, sou seu fã, bla bla bla….” Soi solicito. Nos abracou e tirou fotos. Engraçado. Liguei para minha namorada naquela madrugada e falei para ela que era “amigo” do careca. Coitada. Era 3h da manha, Ela apesar dos mesmos 25 anos nao faz idéia de quem seja Careca. Mandei ela apenas comunicar o fato ao pai santista.
    Abraços.
    Diogo.

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