A NOITE EM QUE AMARELEI



(promessa é dívida)

Em junho de 1997, os franceses realizaram um torneio de futebol chamado “Tournoi de France”, como um aquecimento e um teste de organização para a Copa do Mundo do ano seguinte.

França, Brasil (vice), Itália e Inglaterra (campeã) jogaram o torneio.

O Brasil ficou sediado em Lyon, onde fez as duas primeiras partidas, contra França (quando Roberto Carlos marcou um espetacular gol de falta) e itália.

Eu lembro de todos os detalhes como se fosse hoje, porque essa foi minha segunda cobertura internacional. E minha primeira viagem à França.

Ocorre que, enquanto a Seleção Brasileira treinava para o torneio, um catarinense chamado Gustavo Kuerten começou a desbancar favoritos em Roland Garros. Quando Guga bateu o austríaco Thomas Muster, pela terceira rodada, José Trajano me mandou para Paris.

Fiquei entre as duas cidades (graças ao bendito TGV), alternando a cobertura do futebol e do tênis.

O jogo seguinte de Guga (contra o ucraniano Andrei Medvedev), foi paralisado no começo do quinto set, por falta de luz, e eu tive de dormir em Paris.

Zebra monstro. Eu não tinha hotel reservado, não falava nada de francês, e não tinha roupa para usar no dia seguinte. Parte de um aprendizado (em viagem, sempre estar preparado para ficar um dia a mais) que a gente só tem quando se dá mal.

Bom… consegui um hotel em Montparnasse, e um lugar para comprar desodorante, escova de dente e umas roupas. Falando no telefone com o Trajano, mais à noite, ele me deu uma dica de um restaurante que fica por ali desde os anos 30 do século passado.

Chama-se Brasserie La Coupole. Ernest Hemingway e Pablo Picasso eram fregueses da casa.

Morto de fome, caminhei alguns quarteirões (chance nenhuma de pegar um táxi) e cheguei após uns 10 minutos. O lugar é lindo, um salão enorme, todo decorado com pinturas nas paredes e colunas.

Não é nada de alta gastronomia, mas, obviamente, é impossível comer mal lá.

Eu estava começando a jantar, quando ouvi aquele frisson característico que toma conta de um ambiente quando alguém famoso chega, ou quando algo fora do normal acontece. Pessoas falando baixo, tentando não ser ouvidas, provocam um ruído impossível de ignorar.

Era Eric Clapton, com um amigo.

Eu não tinha nenhuma dúvida, mas mesmo assim chamei um garçom para me certificar. “Erríc Claptôn”, ele disse.

Para encurtar uma história que já está longa, retardei o processo com a maior calma do mundo. Comi devagar, pedi sobremesa, café, outro café, água, fui ao banheiro. Minha estratégia era esperar o cara se levantar, e me aproximar no momento em que, teoricamente, você incomoda menos.

Ele não parecia estar com nenhuma pressa.

Durante o tempo em que fiquei lá, ninguém (fora os garçons) se aproximou da mesa.

Na hora de decidir se ia ou não, cogitei a possibilidade de tomar um “mas você não está vendo que estou aqui com um amigo, jantando?”.

Seria devastador.

Decidi não correr o risco.

______

Juro que não é de propósito: há outra história legal (na verdade, muito mais legal) que aconteceu naqueles dias, no mesmo restaurante, envolvendo dois ex-jogadores de futebol.

Eu me lembro de tê-la contado no blog antigo, muito tempo atrás.

Se houver interesse, contarei de novo. Mas não hoje, pois tenho um compromisso logo mais.

Até.



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