AÍ, PODE



Então o goleiro Ben Foster, do Manchester United, usou um ipod para ganhar a Carling Cup

E teve gente querendo chamar o CSI britânico para investigar o caso. O ex-árbitro inglês Graham Poll (mais sobre ele em instantes) chegou ao ápice da diligência do apito, ao dizer que o revolucionário aparelhinho “tem o potencial de explorar um buraco na lei do jogo”.

Uau. Festa na sede da Apple, em Cupertino, Califiornia. O ipod, quem diria, também é uma escavadeira futebolística.

Aqui está o “delito” do reserva de Edwin Van der Sar, herói da conquista do Man Utd., nos pênaltis, contra o Tottenham: assistir um vídeo com cobranças dos jogadores adversários, no ipod do treinador de goleiros dos Diabos Vermelhos, Eric Steele.

É bem provável que ele tenha visto o meia Jamie O’Hara escolher o canto esquerdo, na disputa com o PSV, na Copa da Uefa 2008. Curiosidade: o brasileiro Gomes, hoje companheiro dele no time inglês, era o goleiro do PSV, e quase defendeu o chute.

No domingo, O’Hara insistiu na escolha, e Foster pegou.

A Associação de Futebol da Inglaterra já afastou qualquer possibilidade de punição ao goleiro ou ao clube, mas o fato recuperou o debate sobre o uso da tecnologia no futebol, e produziu declarações geniais como a de Poll (repito, mais sobre ele adiante).

É até ridículo ter de explicar por que ninguém, no exercício da sobriedade, pode pensar em ver algo de errado nesse episódio.

Se Steele tivesse mostrado ao pupilo uma folha de papel com a pesquisa das últimas cobranças dos jogadores do Tottenham, haveria problema?

Se ele apenas tivesse dito a Foster: “O’Hara costuma bater no canto esquerdo”, haveria problema?

Se Foster tivesse ido ao vestiário e visto, num jurássico VHS, o mesmo vídeo do ipod, haveria problema?

Então, uma última pergunta: qual é a diferença?

Na decisão da Taça Libertadores de 1992, entre São Paulo e Newell’s Old Boys, o preparador de goleiros Valdir Joaquim de Moraes se posicionou atrás do gol, e, aos gritos, informou Zetti sobre as preferências dos argentinos (incluindo uma bronca, quando Zetti o desobedeceu e levou um gol).

Se o ipod já existisse naquela época, Seu Valdir não precisaria gritar.

E não importa se, um dia, o vídeo será recebido por um chip implantado na retina do goleiro, ou por telepatia. Estamos aqui falando sobre tipos diferentes da mesma preparação: estudo de cobradores de pênaltis.

Felizmente, esta história tem pouca chance de chegar a uma reunião dos nossos queridos anciãos do International Board.

Eles são o tipo de gente – o que não tem nada a ver com idade, e sim com espírito – que demoraria anos para entender o que é um ipod.

E sobre Graham Poll, veja que interessante: um dos mais conceituados árbitros ingleses, com 26 anos de carreira, ele trabalhou (entre outras importantes competições internacionais) em duas Copas do Mundo.

Mas foi exatamente numa Copa que ele cometeu o erro que o levou à aposentadoria. No jogo entre Croácia e Austrália (adversários do Brasil na primeira fase do Mundial da Alemanha, em 2006), Poll deu TRÊS cartões amarelos para o mesmo jogador, o croata Josip Simunic, antes de finalmente expulsá-lo.

Isto, num jogo em que ele não marcou dois pênaltis, e validou um gol australiano em que Harry Kewell estava aparentemente impedido.

As lambanças o colocaram na lista dos 14 árbitros que foram enviados de volta para seus países, após o encerramento da fase de grupos da Copa.

Aposto que os lances não estão na memória do ipod dele.



  • Régis Forti

    André, brilhante como sempre!

    Mas fico com uma dúvida: o que você acha do ponto eletrônico que o Ricardinho usou em 2001? Seria diferente das anotações em “papel de pão” que o Mourinho e o Benitez cansam de enviar aos jogadores?

    Grande abraço!

    AK: Conceitualmente, não tenho nada contra o ponto eletrônico. Só que há o risco lesão séria se o cara levar uma bolada na orelha. É um caso que precisa ser estudado. Um abraço.

  • Enquanto isso, no site de um jornal de grande circulação no Rio Grande do Sul, eu leio que o futebl tem regras perfeitas, que o erro do árbitro é igual ao erro do atacante, faz parte do jogo e a tecnologia vai matar o futebol…
    E o que eu digo, André?

    AK: Nada, né? Só chore. Um abraço.

  • Jovaneli

    André, sabe de quem é a culpa? Sua. Ou melhor, de vocês três da ESPN – P.Antunes, Everaldo e André -, (bem) acostumados com a falida liga estadunidense de futebol.
    Quem vocês pensam que são para serem a favor de tanta coisa imbecil que tem no futebol deles? Vocês não têm vergonha de serem a favor de medidas de uma liga falida como a NFL?
    Por favor, deixem-nos adormecidos na nossa superioridade de esporte mais popular do mundo. Progresso? Para quê? Viva a estagnação!
    O pior é que tem quem ache que o futebol é popular porque não há poucas mudanças em suas regras. Como ermpresários, essas pessoas estariam fadadas ao fracasso, tamanha a pequenês.

  • Marcel Souza

    Eu acho que o futebol competitivo como é, nada mais natural os times usarem a tecnologia a seu favor. Parabéns pro goleiro do Man-U que estudou (na hora) e pegou o penalti!

  • thiago

    Cara, eu sou contra uso da arbitragem eletronica do futebol, como escrevi aqui (ou no blog antigo?) na época da sua proposta. Mas esse juiz aê viajou na maionese. Só pra registro, também sou contra jogo em estádios cobertos e em grama artificial. Mas a favor de determinadas novas regras. Forte Abraço

  • André,

    Eu fiquei aqui imaginando sua “revolta” digitando esse texto, hilário !
    Então o radio/walkie-talke/celular que os técnicos usam na área técnica tambem deveriam sofrer investigações da CSI/FIFA …

    Abraços !

  • Lenilson dos Reis Araujo

    Sou totalmente a favor da tecnologia no futebol e em outros esportes. O Renato Mauricio Prado defende que utilizem no futebol o mesmo esquema que usam no futebol americano. Quando um time desconfia de um lance, solicita que uma equipe de “juízes” analise pela tv a marcação do juiz do jogo, validando ou não o lance. Esses pedidos são limitados por jogo. Concordo com o Renato, acho que pode ser perfeitamente adaptado ao nosso futebol. Alguns falam que é muito caro, sendo assim, alguns campeonatos não conseguiriam bancar. Não vejo problema, pelo menos os principais torneios conseguiriam pagar. O Tênis é outro bom exemplo. Não perdeu nem um pouco a graça com a adoção da tecnologia em lances duvidosos. Também é caro e só é usada nas quadras principais de alguns torneios sem o menor problema. Mas os velhinhos da Fifa…

  • Ricardo dos Santos

    André! Até quando o esporte mais popular e mais apaixonante do mundo estará alheio às vontades retrógadas de anciãos do International Board? Será que nada será feito em favor da modernidade do nosso querido futebol? E mesmo quando eles aprovam alguma mudança, erram na dose como no caso da aprovação de 5 árbritos por partida: hoje são 3 errando…agora serão 5, ou seja, probalidades maiores de erros! Abraço!

  • Justíssimo

    André, Este tema do iPod + uma publicação recente numa famosa revista do exterior + a reunião da International Board fez voltar à tona o tema da tecnologia no futebol. Me lembrei daquele longo e excepcional artigo que você certa vez publicou chamado “Apito Eletrônico”… Penso que seria interessante você publicá-lo novamente (ou um link de referência a ele) para um novo debate… Talvez nós não estejamos vivos pra ver, uma pena, mas creio que num futuro ainda distante isto será uma realidade implementada com sucesso… Nossos “bisnetos” poderão gritar com orgulho que venceu o jogo o time efetivamente melhor, e a figura do árbitro será um mero detalhe que terá cada vez menos poder para interferir num resultado… E o que eu fico impressionado é que ainda tem muitos torcedores que dizem que o bom do futebol é a polêmica, são os erros e as discussões de boteco… Eu sou apaixonado por futebol, mas gosto acima de tudo de ver resultados justos em jogos e campeonatos… E posso te dizer que o meu time é um dos mais beneficiados por arbitragens no Brasil, mas mesmo assim eu insisto que o melhor teria que vencer sempre… Abraços…

  • O título foi muito bom…

    Mas não precisava desse veneno todo na última frase…

    Tá bom, vai, precisava.

    Eu quase caí da cadeira ontem, quando li que Associação de Futebol da Inglaterra não ia fazer nada a respeito; pensei a mesma coisa que você: “Ué, ERA PRA FAZER ALGO?!?!?”. Ridículo. Esse juiz deve ser brasileiro, só pode ser. (ê maldade! :-D)

    Grande abraço!

  • Leandro Thome

    Imagina se a NFL tivesse $$$$… O Heinsworth tinha ganho um contrato de 300 milhoes dos redskins (sem o cap) hehe

  • Rafael

    O cara lá em cima tá completamente equivocado sobre a NFL estar falida, é a competição mais rentavel do mundo, talvez apenas atrás da Formula 1, que gera mais dinheiro por evento. (são 17 em um ano, enquanto a NFL tem 17 rodadas com varios jogos simultaneos mais os Playoffs) O Super Bowl tem os comerciais mais caros do mundo e o dinheiro envolvido na liga é muito maior que na maior liga de futebol (premier league). Contratos como o que Kaká teria no Man. City, acontecem a todo instante na liga. Po exemplo, Matt Cassel, quarterback reserva do Patriots trocado pra o Chiefs vai ganhar somente em salarios esse ano 14,5 milhões !! E ele foi titular apenas por um ano dps de passar 3 na reserva do Patriots e mais 5 na reserva da Faculdade. A NFL é a maior liga do mundo.

    AK: Você não entendeu que ele foi irônico. Um abraço.

  • Diego

    O Lehman, goleiro da Alemanha, usou uma cola presa ao short para saber como os jogadores argentinos cobravam pênaltis, nas quartas de final da última copa.

  • Sancho, RS

    Nada a ver com a história, mas vou contar assim mesmo. O Grêmio perdeu uma decisão por pênaltis no ano passado em que o goleiro adversário saltou AS CINCO VEZES para o mesmo lado. Era desnecessário qualquer vídeo. Todos no estádio já sabiam que ele sempre saltaria para a direita. O Grêmio havia marcado as quatro primeiras penalidades e o goleirão lá, inabalável, saltando sempre em direção à mesma trave. Não é que o QUINTO cobrador gremista chutou naquele canto?! Perdeu a cobrança e o Grêmio foi eliminado pelo Atlético Goianiense em casa na Copa do Brasil. Não há informação – iPod, VHS, cola, etc. – que dê jeito quando o jogador não quer prestar atenção…

  • Anna

    Bem interessante esse post. Anna.

  • Jovaneli

    André, peço desculpas. Esqueci de abrir o texto com um “Atenção, é uma ironia: …”…hahaha
    O Trajano e o pessoal do Linha de Passe tem razão a respeito dos perigos de não avisar antes…rss
    Abraço!

  • Anna

    Rogerio Jovaneli,nao precisa de legendas quando se referir a ironias… Pode continuar fazendo sem elas. Anna

  • Anna

    Rogerio Jovaneli,estou no intervalo da aula e vou ter que sair mas queria me desculpar.Acho que fui indelicada com você no post anterior.Anna

  • Jovaneli

    Anna, não precisa pedir desculpas. Até achei engraçado. Abraço!

  • Comentário atrasado, mas vamos lá.

    “Eles são o tipo de gente – o que não tem nada a ver com idade, e sim com espírito – que demoraria anos para entender o que é um ipod.”

    O pior não é levar anos pra entender o que é um iPod, isso é até compreensível. O grande problema é que eles são o tipo de gente que proibiria o uso do iPod até descobrirem do que se trata, nunca descobririam e acabaria virando lei.

    Abraços, André! A cobertura do SB foi fantástica!

    AK: Obrigado, cara. Um abraço.

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