COLUNA DOMINICAL



(publicada no Lance! de ontem)

DEIXEM OS TÍTULOS EM PAZ

E aí, também está fazendo um dossiê?

Digamos que, há alguns anos, você ganhou um torneio de ping-bong (é assim que minha filha de 4 anos fala, e eu me recuso a contrariá-la) disputado apenas por quem trabalhava no seu andar. Partidas equilibradíssimas, um torneio que você suou para vencer.

Nos dois anos seguintes, ganhou de novo. Então você é um legítimo tricampeão do torneio de ping-bong do seu andar, a principal competição da empresa entre 2001 e 2003. Feito que não se apaga, está nos livros. Pode sentir orgulho e bater no peito.

Mas eis que o esporte cresceu e virou uma febre no prédio. Em 2004, foi criado o primeiro “Campeonato Geral de Ping-Bong” da empresa, com quase cem jogadores. Partidas disputadas na hora do almoço, em plena sala de reuniões da presidência, com cobertura total do jornalzinho interno. O campeão ganhava um troféu bonito, prêmio em dinheiro, e uma festa no restaurante da diretoria. Moral incrível.

Só que, sabe como é, com mais gente jogando, as dificuldades aumentaram, e você nunca sentiu o gostinho de entrar no elevador e perceber as pessoas se cutucando (“viu quem é? É o campeão de ping-bong!!). Ah, como deve ser bom…

Não passe mais um dia imaginando, amigo. Faça logo um dossiê e peça a equiparação dos seus títulos com os do Campeonato Geral. Você não vai ganhar o troféu, o dinheiro, ou a festa. Talvez não consiga nem comemorar. Mas e daí? Se aceitarem o pedido, na próxima vez em que o campeão geral entrar no elevador e as pessoas se cutucarem, você poderá dizer que ganhou o mesmo título.

Apesar de não ser o mesmo. Vai ter de explicar que o comitê do cafezinho equiparou os torneios, com base na importância dos primeiros campeonatos do andar. Não importa que eles tinham nomes diferentes, e que você não venceu o Geral. Você se sentirá campeão do mesmo jeito. Ou não?

Afinal, não é isso que alguns clubes de futebol estão fazendo? Palmeiras e o Fluminense querem que a Fifa resolva que a Copa Rio, que eles ganharam no começo da década de 50, é o Mundial de Clubes, criado em 2000. O Santos pede que a CBF equipare os títulos da Taça Brasil e do Robertão, conquistados nos anos 60, ao Campeonato Brasileiro, disputado a partir de 1971. Basta uma canetada, e a festa começa.

Será? Qual é o problema em ter orgulho do que se fez, quando se fez? Não há dúvidas sobre a relevância dessas conquistas. A Copa Rio era, comprovadamente, o principal torneio internacional de clubes de sua época. Do mesmo modo que a Taça Brasil e o Robertão eram o que havia de mais importante no futebol brasileiro, enquanto existiram.

Os troféus estão guardados, as glórias eternizadas, a história preservada. Ninguém – que esteja falando sério – pode negar. Mas querer transformar esses títulos, com outro nome ou uma equivalência ao que veio mais tarde, é ofender o esforço dos jogadores que os conquistaram.

O campeonato de ping-bong do seu andar não vale menos, só porque existiu antes do Campeonato Geral.

Ele só não é o Campeonato Geral.



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