COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

PELA ORDEM

Conheci Cássio Splitter em agosto de 2003, em San Juan.

A Seleção Brasileira masculina de basquete estava em Porto Rico, tentando (sem sucesso, como se sabe) uma vaga na Olimpíada de Atenas. Eu estava trabalhando, e Cássio, em férias.

Mas ninguém o viu nas areias do belíssimo resort onde estávamos hospedados, ou em passeios de barco pelas águas caribenhas, ou no bar da piscina, desfrutando daqueles coquetéis coloridos.

O motivo da presença dele na capital porto-riquenha era o filho mais velho, Tiago, à época, um ala-pivô-prodígio de 18 anos. Cássio queria acompanhar de perto o início da carreira do primogênito na seleção.

Há vários pais, mães, irmãos e amigos de atletas bem-sucedidos, que simplesmente param de dar prosseguimento à própria existência quando percebem que “o garoto” virou um jogador de verdade. Passam a viver a vida do outro, perdem a identidade, criam um séqüito que aparece sempre dois metros atrás do boleiro, nos ginásios, nas ruas, nas fotos. Uma bolha cuja missão é “proteger” quem deveria saber se virar sozinho, e que atrapalha muito mais do que ajuda. Em alguns casos, é realmente patético.

Mas me deixe esclarecer: a família Splitter não é nada disso. Cássio, de fato, é o oposto. Advogado muito bem estabelecido em Blumenau (SC), é o tipo de pai que trabalha pela felicidade dos filhos, seja ela qual for. E nada pede em troca. Em nossas conversas no lobby do hotel, Cássio relatou o sofrimento que foi viajar para a Espanha com Tiago (identificado pelos europeus, aos 15 anos, como um incrível jogador em desenvolvimento, noção que estava absolutamente correta), e voltar sem ele. Falou do chute que deu numa lixeira no aeroporto, quando caiu a ficha de que tinha deixado o menino sozinho, num país distante, porque esse era o sonho dele. Zero de egoísmo, zero de arrependimento, a lixeira apenas pagou por uma explosão de saudade precoce, momento que só quem viveu sabe como é.

Em Vitória, cidade espanhola do País Basco, Tiago se transformou num jogador formidável (nós o veremos na NBA em breve), como titular do TAU Ceramica. Como pessoa, acredite, é ainda melhor. Mérito dele e da formação que recebeu dos pais, Cássio e Elisabeth.

O mesmo se pode dizer sobre a irmã de Tiago, Michelle, que perdeu a luta de cinco anos contra a leucemia, na segunda-feira passada, num hospital de Campinas. Ela tinha só 19 anos. Quando se pensa no que Michelle era, e no que ela seria nas quadras e na vida, a conclusão é desgraçadamente triste. Impossivelmente triste.

No momento em que saímos da maternidade carregando um bebê no colo, percebemos, num segundo, que o que entendemos como “nossa vida” não nos pertence mais. Isso significa que nós, pais, devemos ir embora antes. Nunca depois.

Só que a natureza, por alguma razão que jamais entenderemos, às vezes inverte sua própria ordem.

É terrível. Mas para a sorte de Tiago, da família inteira, e de todos que o conhecem, Cássio Splitter ainda está por aí.



  • Leandro Azevedo

    Parabéns pela coluna…

  • jose carlos

    caro André,li ésta coluna com aquele nó na garganta,o fato de vc escrever “bem” (maravilhosamente, na verdade) é apenas um detalhe.
    Só nos resta prestar solidariedade a familia Splitrer

    abraç

  • De arrepiar (a história, muito bem contada pela coluna)!!

  • Marcio Cesar

    “No momento em que saímos da maternidade carregando um bebê no colo, percebemos, num segundo, que o que entendemos como “nossa vida” não nos pertence mais. Isso significa que nós, pais, devemos ir embora antes. Nunca depois.”
    Terrivelmente forte esta frase, só quem é pai ou mãe para entender o real significado, independente de ter filhos promissores ou não. Tem-se que ser forte para superar a dor da perda de quem amamos, ainda mais, quando imaginamos que se perdeu uma vida inteira pela frente, imaginando o que poderia ser uma pessoa que ainda estava em formação. Dolorido.
    Abraços

  • Marcel Souza

    Que história triste André…

    Toda minha solidariedade à família Splitter…

  • André,a coluna é muito boa! Você demonstra muita sensibilidade! E é muito bem redigida.Como sempre.Daquelas pra guardar.Abraço,Anna

  • Régis Forti

    Cara, sou seu fã há tempos e seu blog é meu destino diário (às vezes até mais de uma vez ao dia).

    Não costumo muito comentar, apesar de já tê-lo feito algumas vezes. Mas essa sua coluna foi simplesmente de arrepiar.

    Meus parabéns!

  • José A. Matelli

    Nunca depois…

  • Nelson Bigeschi Jr.

    Sensacional André

    Não há como não se emocionar com seu texto. Parabéns

  • Jovaneli

    Bela coluna, velho. Parabéns!

  • Leonardo atleticano

    Cássio e Tiago, quando temos uma coisa muito boa em nossas mãos, é dificil perder, é duro não ter mais, é triste a separação, dá uma vontade louca de morrer junto, de desistir. Mas vcs tiveram a Michele com vcs por 19 anos, Deus lhes deu uma jóia, por pouco tempo mas deu, não briguem com Deus. Tenho dois filhos e uma relação maravilhosa com eles, agradeço a Deus por cada dia com eles, e notícias assim, me faz ama-los mais ainda. Vivo a emoção de ser pai a sete anos, e lá atrás, se me fosse perguntado se eu abriria mão de viver as alegrias que tive por 19 anos, para não sofrer demais com uma eventual perda, eu escolheria perder, mas viver todas as emoções da paternidade, mesmo sabendo que uma parte grande de mim morreria também. Força meus caros.

MaisRecentes

Metamorfose



Continue Lendo

Classificado



Continue Lendo

Jogo real



Continue Lendo