COLUNA DOMINICAL



(publicada no Lance! de ontem)

AINDA ESTOU EM FÉRIAS

Há uma cena no filme “O Matador” (raro acerto do título em português, já que o original é “The Matador”), em que Pierce Brosnan – como o assassino de aluguel Julian Noble – chega a um hotel na Cidade do México e vai direto para o bar. Ele pede uma margarita e inicia um papo com o garçom sobre corridas de touros. Então o garçom pergunta se ele está na cidade a negócios ou prazer. E Julian responde que “meu negócio é meu prazer”.

O filme é fraco, mas a cena é boa. Pelo menos na opinião da minha memória, pois é a única que ficou registrada com detalhes (não lembro como a história termina), e volta à mente sempre que a profissão que escolhi me proporciona dias como os últimos, hoje, e, principalmente, o próximo.

Para quem acha que vale a pena (e vale, acredite) “perder” fins de semana e noites de descanso para testemunhar eventos esportivos, estar em Tampa na semana do Super Bowl da NFL não é algo que possa ser qualificado como “trabalho”. A melhor definição seria “diversão remunerada”, o que dobra a curtição porque, bem, eu obviamente pagaria para estar aqui. Por isso me identifico com Julian Noble, sinto-me como ele até, mesmo que nossas áreas de atuação sejam completamente diferentes.

Ocorre que há uma contrapartida para tudo. Ninguém me mandou para cá para aproveitar o conforto do meu quarto de hotel até o sol (está chovendo agora, mas não importa) da Flórida começar a tirar o time de campo. Também não vim para tomar todas as cervejas que estiverem ao alcance, ou comer todos os gigantescos filés (sempre ao ponto) que as famosas steakhouses americanas puderem servir. Não, definitivamente não.

Os dias começam bem cedo, terminam muito mais tarde do que deveriam, e passam rápido. O telefone não para, as matérias não acabam. É impossível fazer as refeições nos horários correspondentes, e a cabeça reclama adquirindo a forma (e produzindo o som) de um bumbo. Mas é uma delícia.

Talvez você não goste da bola oval, ou não entenda as regras. Geralmente, as duas coisas estão relacionadas. Talvez você não goste do que é “americano”, ainda que isso não deva interferir, pois o ponto é outro. Eu gosto de esporte, venha de onde vier. Sou um de cerca de 5 mil jornalistas, de 28 nacionalidades, credenciados para cobrir um evento gigantesco, que será transmitido ao vivo para 230 países e territórios, em 33 línguas. Do cantonês ao flamengo.

Neste ano, a transmissão em português será feita, pela primeira vez, de uma cabine no estádio, e não de um estúdio do outro lado do oceano. Fazer parte da primeira equipe de televisão do Brasil a narrar, in loco, o Super Bowl, é dessas coisas que a gente não explica. Apenas comemora.

E o engraçado é que este evento é tão global, que ninguém está surpreso por nos ver aqui. Como não deveria ser, para nós, uma surpresa quando um motorista de táxi americano pergunta de onde viemos, e passa a dissertar sobre o nosso futebol e os jogadores preferidos dele. Pelé, Zico, Falcão… Ele só não sabia direito pronunciar “Socrátis”.

Estamos todos no mesmo mundo.



  • Jovaneli

    Colega, dá para perceber o quanto ama a sua profissão. Sei exatamente o que sente. Ou melhor, imagino. Bela coluna, cara sobre as suas férias (e que férias, hein?!). A propósito, quantos chutes o Paulo Antunes errou antes de anotar aquele field goal que foi ao ar? Por que você e o Everaldo não tentaram o chute, também? Ou tentaram e…rss
    Abraço!

  • Rogerio Canada

    Não perguntaram sobre nenhum jogador do sp (Falcão não vale, só passou por acaso!)? Assim a torcida fica chateada. E ainda pensão que são conhecidos!

  • Willian Ifanger

    Eu imagino mesmo o trabalho que deva ser estar aí (e o quanto você e o Everaldo sonharam com esse dia….o Paulo Antunes já é véio de guerra)…..e a “diversão” serve mesmo pra motivar a canseira toda. Ainda mais que, no Brasil, algum evento “só existe” se a Globo estiver por trás.

    Como o PVC disse ano passado “para algumas pessoas, o campeonato italiano começou esse ano”. Então, por mais que o Brasil faça parte dessa lista de países, poucos são os privilegiados de acompanhar esse evento tão importante.

    Tudo bem que futebol americano lembra minhas tardes de domingo vendo jogos dos 49ers quando a “antiga” TV Bandeirantes passava no Show do Esporte. Não perdia por nada, nenhum jogo.

    O problema hoje de qualquer esporte americano, pra quem assiste pela tv, é a insuportável quantidade de paradas para inserção de propaganda. Aliás, foram criadas “tempos técnicos” para isso.

    Enfim, o importante é sempre filtrar e canalizar a essência do esporte….hoje a noite já preparada para o jogo.

    Boa sorte para vocês.

    (Desculpe se foi repetido)

  • Leandro Azevedo

    Espero que seja um jogo de ataques, e não da defesa dos Steelers… a chave pra uma possível vitória dos Cardinals é uma boa partida do Boldin, até pra liberar o Fitzgerald de um double coverage. E os Steelers estarem preparados para “tricky plays”, pois o Wizenhunt gosta disso, desde os seu tempo de offensive coordinator em Pittsburgh.

    Agora resta saber se o Warner vai conseguir enganar o Polamalu realmente, pq como dizem aqui nos EUA, “70% do mundo é coberto por água e os 30% restante pelo Polamalu” hehe

    Abraço e bom jogo.

  • André:

    Na época da ESPN Latin America, com escritório em Bristol, a equipe brasileira não narrou o SuperBowl direto do estádio?

    Não sei em qual ano, mas acredito que o saudoso André José Adler tenha narrado o SB in loco.

    Abraços!

    AK: A equipe de Bristol narrou dois SB’s no estádio. Mas não tinha repórter e, obviamente, não viajaram do Brasil. Um abraço.

  • Fernando

    Flamengo, nao flamenco. Flamenco e’ uma danca. Flamengo e’ uma das linguas que se fala na Belgica (flemish, em ingles). Eu nao me intrometeria se a diferenca nao fosse tao grande de significado. De resto, aproveite o show, porque esse tipo de profissionalismo no esporte nao existe na patria amada, idolatrada, salve salve.

    AK: Obrigado pela correção. Um abraço.

  • Almir Martins Vieira

    Prezado André,

    Diferentemente do que vocês informaram, a primeira música do show foi 10th avenue freeze-out…

    Parabéns pela transmissão!!!

    Abraços,

    AK: Obrigado pela informação. Um abraço.

    Almir Martins Vieira

    São Bernardo do Campo – SP

  • Roberto

    Que jogão.

    E que showzaço!
    Já vou providenciar minha passagem pra acompanhar algum show da turnê do novo disco do Chefe.
    Reparei que na transmissão você informou que os “shows costumam durar perto de quatro horas”, acho que tive algo a ver com essa correção hehe
    Parabéns a toda equipe pelo belo trabalho.

  • Fernando

    Andre, voce viu a entrevista do tecnico dos Cardinals depois do jogo? Se nao viu, veja. Nossos tecnicos tem muito o que aprender no quesito profissionalismo. Eu gostaria muito de ver um post seu comentando esse topico. Acho que esse tipo de informacao aparece pouco na imprensa brasileira. Usa-se muito a palavra (profissionalismo), mas acho que nao se faz uma analise profunda sobre o tema. Um abraco.

    AK: Vi uma parte da entrevista no estádio, e outra na TV. Achei que ele se comportou bem, disse o que tinha de dizer numa hora daquelas. Um abraço.

  • Thoronto

    Interessante como voce iniciou o post, sou sempre curioso para saber quem traduz os nomes de filmes para o Brasil, e porque erram tanto quando o titulo nao e tao obviou. Voce teria esta informacao?

    AK: Infelizmente, não. Mas tenho a mesma curiosidade. Um abraço.

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