DOZE ANOS DEPOIS



Eu me lembro do dia em que Michael Johnson quebrou o recorde mundial dos 200m rasos, na Olimpíada de Atlanta. Naquele dia, o “homem das sapatilhas douradas” se transformou no velocista que eu mais gostei de ver em ação. Nada a ver com as sapatilhas, e sim com a postura que lhe deu o apelido de “O Pato”. Peito estufado, cabeça “para trás”, Johnson corria com técnica incomparável. E vencia com tanta facilidade que era até engraçado. Em Sydney 2000, consegui dar uma escapada (espero manter meu emprego após a revelação) até o Estádio Olímpico, apenas para ver a final dos 400m rasos, prova que ele dominou por anos. No dia do recorde nos 200m em 1996, o momento que ficou marcado na minha memória foi a reação de Johnson. Ao olhar para o placar eletrônico, cruzando a linha de chegada, ele jogou os braços para o alto para comemorar a nova marca. Um velocista usando sapatilhas douradas, quebrando o recorde mundial dos 200m e celebrando como se fosse um gol. A cena se repetiu ontem, doze anos depois. E é apropriado que Michael Johnson, em Pequim como comentarista, tenha visto, in loco, o jamaicano Usain Bolt roubar dois centésimos de segundo (19″30) de seu recorde, o mais antigo do atletismo de velocidade. O Ninho de Pássaro testemunhou uma mudança de eras, com um fantástico velocista tomando o lugar de outro. Creio que não sou o único a comemorar a “chegada” de Usain Bolt. Assim como Johnson, Bolt é diferente dos outros. Enquanto o americano lembrava um pato, o jamaicano tem mais a ver com um jovem dobermann, correndo meio desengonçado, com os braços soltos. Mas os dois são muito semelhantes no que fazem com os adversários. Michael Johnson foi o primeiro homem a vencer os 200m e 400m rasos na mesma Olimpíada. Usain Bolt foi o primeiro a vencer os 100m e os 200m, desde Carl Lewis em 1984. E o primeiro a estabelecer novos recordes para as duas provas, na mesma edição dos Jogos. No sábado passado, ele venceu os 100m brincando no final, talvez porque o recorde já era dele. Na classificação dos 200m, correu com esforço estimado entre 30 e 40% pelos jornalistas jamaicanos que o conhecem desde que ele foi campeão mundial júnior, com 15 anos. Ontem, o mundo se impressionou com o que ainda não tinha visto: Usain Bolt com todos os motores ligados. A prova dos 200m é sua especialidade, seu evento favorito, e (era) o recorde que ele perseguia. Acostume-se a ver seu nome escrito ao lado de números inéditos. Meus colegas caribenhos dizem que Bolt já correu os 400m algumas vezes, com tempos na casa dos 43 segundos. O recorde mundial, estabelecido por Michael Johnson em 1999, é 43s18. Como escrevi aqui em maio, Usain Bolt tem o nome certo para um velocista profissional. Um dos significados de “bolt” é raio. Ele faz jus ao nome. Deixa o mundo de cabelos em pé.



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