USAIN E U200



Os jornalistas jamaicanos dominam a zona mista do Ninho de Pássaro. Da mesma forma que os velocistas jamaicanos dominam a pista nas provas curtas. São seis ou sete repórteres de televisão e rádio, que se transformaram nas estrelas da cobertura. Eles falam com todos os atletas da Jamaica, como se fossem os melhores amigos. Talvez até sejam. Um deles trabalha para uma emissora de TV, usando um telefone celular com câmera de vídeo. O atleta sai da pista e pára na frente dele. O cara prende o fone do ouvido do telefone no uniforme e se afasta um pouco. Faz duas ou três perguntas, e pronto. Depois é só transferir o arquivo para um laptop, e enviá-lo pela internet. O engraçado é que todas as câmeras de detentores de direitos de transmissão precisam ter um selo colado, para entrar nas sedes de competição. O selo da “câmera” do jamaicano é maior do que o telefone dele. E está colado no fio do fone de ouvido. Ontem, eu bati um papo com eles para uma matéria sobre as velocistas da Jamaica nos 100m com barreira e nos 100m rasos. A reportagem corria um sério risco de morte súbita, por causa do horário do final das provas, muito próximo do deadline do “Boa Noite Pequim”, da ESPN Brasil. Mas valia a pena arriscar, desde que o processo fosse acelerado (personagens ideais, não?). Enquanto as jamaicanas venciam três das cinco baterias dos 100 com barreira, e as duas semifinais dos 100m rasos, eu já escrevia o texto sobre o passeio, que deveria desembocar numa vitória do país na prova mais nobre. Estava tudo pronto. Se uma das três finalistas jamaicanas ganhasse o ouro, a matéria iria ao ar. Se não, teria de reescrevê-la, e acho que não daria tempo. Obviamente, eu era mais jamaicano do que meus companheiros de zona mista, na hora da final. Shelly-Ann Fraser, em sua primeira competição fora da Jamaica, disparou e ganhou com 10s78, para a minha vibração. Como se isso já não fosse mais do que suficiente, as outras duas (Sherone Simpson e Kerron Stewart) empataram com 10s98 e dividiram a prata. Um pódio inteiro para a Jamaica, final perfeito para a reportagem. Meus colegas de Kingston deram risada quando contei por que torci tanto para as compatriotas deles, e disseram que, se eu tivesse perguntado, não passaria nervoso. Eles tinham certeza do ouro. Como têm certeza de que Usain Bolt vencerá os 200m rasos, sua especialidade. “É 12, numa escala de 1 a 10”, disse um deles, hoje de manhã, após a eliminatória em que Bolt praticamente parou nos metros finais. “Nunca vimos, e nunca veremos, alguém como ele”, completou. É verdade. Esse cara tem uma sexta marcha.



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