A HORA DO ESPANTO



Se você tem estômago sensível, não leia. Considere-se avisado(a). A aventura a seguir aconteceu com um camarada meu, no segundo dia em Pequim. Ele me fez prometer que não divulgaria seu nome. Por causa do fuso, o dia seguinte à chegada ainda é bem complicado em relação a horários. Não se tem sono nem fome na hora certa, vive-se com a desagradável sensação de que estamos dormindo acordados. E se isso vale para dormir e comer, vale também para ir ao banheiro. Aquele despertador que toca diariamente, na mesma hora, fica meio desorientado. Pois bem. Eis que esse meu camarada estava no supermercado, comprando víveres para seu apartamento, quando o tal despertador tocou, lá pelo meio-dia. Primeiro aviso, e ele pensou: “não, agora não…” Tentou aplicar o truque psicológico (que só piora a situação) de enganar o próprio organismo. Como se não pensar naquilo mudasse alguma coisa. Veio o segundo aviso, um pouco mais rude, e o coitado pôs-se a calcular a distância entre onde ele estava e onde queria estar. Duzentos metros. Tão arriscado quanto tentar atravessar um rio cheio de crocodilos gigantes. Andar já era difícil. Não havia como fugir, a solução tinha de estar mais perto. O supermercado ficava em cima de um boulevard de lanchonetes de fast-food. Nenhuma delas parecia ter um banheiro. E se tivesse, perguntar seria uma perda de tempo precioso. Desceu as escadas, e encontrou aquilo que deveria temer, mas que àquela altura era um oásis. Um banheiro comunitário chinês. Terceiro aviso. Inconfundível como o início de um trabalho de parto. A checagem rápida do ambiente revelou um drama: dois cubículos com buracos no chão, canos expostos, pequenas poças de um líquido escuro. Uma visão capaz de tornar religioso quem não é. O cheiro turbinou o inevitável, mas havia um problema grave (sim, seria possível ficar pior): ausência de algo que pudesse ser qualificado como papel higiênico. Nova visita ao andar de cima, já durante um sísmico quarto aviso. Impossível manter um nível mínimo de educação com as pessoas na fila, ao abordar o balcão à procura de guardanapos. Mão cheia, desceu para encontrar seu destino. A essa altura, a natureza prevalece. O alívio é o objetivo supremo. E assim o problema foi resolvido. A entrada de um homem de meia-idade no cubículo ao lado quase passou despercebida. Após a cirurgia, quando nosso herói examinava a possibilidade de lavar as mãos, ouviu uma voz. Achou que o homem estava falando com ele, e cometeu um erro. Olhou. Ali estava o chinês. Falando ao celular, fumando, e fazendo o que as pessoas fazem em buracos no chão aqui na terra da Olimpíada.



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