COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 31.jan..2016 às 11:45h

(publicada ontem, no Lance!)

NOVA AGENDA

Da mesma forma que a importância da Primeira Liga transcende a realização de um torneio de futebol, a colaboração – tardia, mas inevitável – da CBF para acomodar a competição precisa significar muito mais do que o reconhecimento da confederação a um evento que independe dela. A segunda resolução emitida pela ex-sede José Maria Marin nesta semana, desdizendo a primeira, é o documento que simboliza uma oportunidade de alteração na discussão do futebol no Brasil. Se aproveitada, pode significar a emancipação das instituições que até hoje foram corresponsáveis pelo atraso do ambiente em que operam.

No final do ano passado, coube ao presidente do Grêmio, Romildo Bolzan Júnior, lamentar os primeiros sinais de rachaduras no projeto da liga. Os mesmos problemas políticos que sempre impediram que clubes brasileiros se relacionassem como sócios ameaçavam o embrião de um organismo diferente. Bolzan Júnior salientou o caráter propositor que uma associação de clubes deveria representar no debate dos diversos temas que lhe são comuns, uma amostra da quilometragem que ainda precisa ser percorrida. O fato de a competição estar em andamento, uma vitória para todos os participantes, não diminui a tarefa de estabelecer as relações mencionadas pelo presidente gremista.

Será preciso convencer o torcedor – aquele que entende que rivais em campo não apenas podem como devem ser parceiros do lado de fora – de que os dirigentes envolvidos neste movimento realmente encontraram uma agenda coletiva e estão dispostos a ampliá-la. A desconfiança de que esses clubes cederiam à postura intransigente da CBF, na noite de segunda-feira, revela que há quem pense que a Primeira Liga não é uma novidade, mas apenas uma camuflagem para as mesmas práticas e praticantes de sempre. A resposta só será clara com o exercício da novidade.

O colossal equívoco da CBF foi querer dizer a um enorme contingente de torcedores brasileiros que seus times não poderiam jogar entre si. Uma arbitrariedade que agrediu a relação sagrada que alimenta o futebol e funcionou como propulsor da decolagem do torneio. A arrogância de uma entidade enlameada causou indignação e mudou a maneira como uma parte do público enxergava a liga, a ponto de ter efeito contrário e multiplicado: a resolução que pretendia enterrar a Primeira Liga terminou atuando como fator de ocupação dos estádios na rodada de abertura.

É provável que o intervalo entre o primeiro apito de um jogo realizado à revelia da CBF e a divulgação da resolução que “autoriza” o torneio tenha surpreendido os clubes, no sentido de apresentá-los a uma amostra do que são capazes de construir juntos, acompanhados pela lei e pelo público que os justifica. Depende deles, agora, assumir um novo posicionamento, de acordo com o significado que possuem e o peso que descobriram. Os clubes não precisam adotar uma postura de confronto com ninguém. Só precisam conversar, entender o que é seu melhor interesse, e decidir. É assim em todos os lugares onde o futebol é relevante como aqui.

ROMÁRIO, 50

Em 1997, o jornalista espanhol Santiago Segurola escreveu sobre Romário. Brilhantemente:

“Em um mundo que aprecia com severidade eclesiástica os códigos de grupo, que valoriza mais do que nunca a homogeneidade, no futebol sem perfis que se prega nestes dias, Romário produz perplexidade. Como encaixar este individualista sinuoso na maquinaria coletiva de uma equipe e de um clube? Como adaptar um inadaptável ao compromisso comum necessário ao funcionamento de qualquer grupo? (…) É o egoísta mais consequente do mundo. Faz o que lhe agrada e não concede um milímetro à hipocrisia e à demagogia. Não procura a imprensa, recusa o aplauso enganador e entende o jogo como o último moicano do futebol: com uma pureza admirável, com uma confiança ilimitada em seus recursos. Com a ideia que, pelo visto, têm os artistas de seu ofício.”

CAMISA 12

por André Kfouri em 28.jan..2016 às 20:04h

A CBF desistiu de brigar com a Primeira Liga e, no dia seguinte à rodada de abertura do torneio, resolveu reconhecê-lo. A resolução da confederação foi divulgada nesta noite, diminuindo o prazo de validade de certos trechos do texto abaixo. Em nome dos que valem – e quem dera não houvesse nenhum… – aí vai:

(publicada hoje, no Lance!)

ALUCINAÇÃO

É mais do que surreal o que acontece no futebol brasileiro. A CBF, recordista em imagem negativa no país que tem os políticos que conhecemos, ousa apelar a regulamentos e “legalidades” para impedir clubes de jogar entre si. E o faz a serviço de uma figura diminutiva que personifica a classe dirigente que infesta o esporte no Brasil. Não poderia ser mais simbólico.

Rubinho da FERJ, dono de um cartório esportivo a caminho da inutilidade, esperneia em defesa da própria sobrevivência e enfrenta a Primeira Liga. Ele é como os irmãos de Marty McFly, desaparecendo da foto em “De Volta para o Futuro”, vítimas do paradoxo temporal. Mas os minions que hoje comandam a CBF são tão inacreditavelmente incapazes que se converteram em fantoches de um cartola em rota de colisão com a dupla Fla-Flu.

Quem é Rubinho diante do que representam Flamengo e Fluminense? O que é a FERJ diante de um torneio que reúne as torcidas envolvidas na Primeira Liga? Por que os presidentes dos clubes da liga, amparados pela lei brasileira e pela representatividade das instituições que dirigem, ainda perdem tempo dando atenção a quem quer prolongar o atraso?

Assim como os sindicatos de taxistas desenvolveram as melhores peças publicitárias a favor do serviço de transporte por aplicativo, a CBF, ao “proibir” a Primeira Liga, pode ter conseguido o que parecia impossível: unir os clubes e mobilizar o torcedor contra ela. Mais um movimento brilhante da confederação dos presidentes em fuga, que, por ironia absoluta, desta vez trabalhou pelo avanço do futebol no Brasil. Involuntariamente, claro.

E os minions não se satisfazem. A proibição da atuação do STJD no torneio é uma das mais fantásticas notícias que a Primeira Liga poderia receber. O que pode ser melhor do que um campeonato de futebol livre da interferência dos nobres auditores? Como você leu acima, é mais do que surreal. Muito mais.

DUCK

Conjecturas financeiras ou contratuais sobre o empréstimo de Alexandre Pato ao Chelsea nunca escaparão do que acontecer – ou não – em campo. Neste aspecto, Pato, que tem maiores possibilidades de render quando joga pelo lado, está chegando a um time que não parece precisar de mais um jogador com essa característica. Ele terá de disputar um lugar.

IR OU NÃO IR…

Sem julgamentos: é preciso estar na pele de quem recebe uma oferta insana de um futebol periférico, para entender o que isso significa e que forças falam mais alto. Cada um sabe da própria carreira e poucos sabem o que é ter de tomar esse tipo de decisão. A complexidade aumenta quando conhecemos casos como o de Lucas Lima, que disse “não, obrigado”.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 26.jan..2016 às 8:46h

(publicada ontem, no Lance!)

CURANDEIROS

Uma declaração de Tite, há poucos dias, tocou em um problema aparentemente insolúvel. Em conversa com o repórter Dassler Marques, do portal Uol, o técnico do Corinthians fez um apelo à racionalidade de quem acompanha o futebol. “Que as pessoas não hiperdimensionem a capacidade do técnico. Ele consegue potencializar os atletas que tenham virtudes e qualidades. Acham que existem soluções mágicas: tira todo mundo, põe todo mundo e acha que o Tite vai fazer milagre. As coisas não são assim”.

A incompreensão do processo de construção de um time de futebol está na origem do pedido de Tite. É inútil enfrentá-la quando parte de quem consome o jogo com o coração e está distante da realidade dos clubes, formando teses que desafiam a natureza complexa do trabalho de reunir jogadores, treiná-los de acordo com uma ideia e constantemente corrigir seu funcionamento juntos. O problema se agrava quando a crença em milagres é patrocinada por quem tem – ou ao menos deveria ter – acesso às informações para fazer um julgamento minimamente coerente, mas prefere incentivar a imagem de técnicos como curandeiros.

Foi o que aconteceu no Corinthians, há cerca de dez dias, quando o diretor de futebol Eduardo Ferreira se propôs a acalmar os torcedores impressionandos com a velocidade com que o time que conquistou o último Campeonato Brasileiro desaparecia. “O torcedor pode ficar tranquilo, pois estamos melhorando o time e mostraremos o futebol do segundo semestre de 2015”, declarou o dirigente. A única leitura positiva de uma frase tão desconectada do mundo real é que também é preciso estar em outra dimensão para levá-la a sério. O que, infelizmente, não diminui seu potencial de dano.

Ninguém pode garantir o desempenho de um time que não existe. Ninguém, nem o técnico. O raciocínio do dirigente corintiano seria um devaneio mesmo se o elenco campeão brasileiro estivesse intacto. Ou até se os jogadores que saíram fossem substituídos por nomes considerados superiores a eles. Manter uma base de jogadores por um prazo mais longo aumenta a chance de que eles funcionem no organismo do qual fazem parte, mas, como a torcida do Chelsea pode atestar, o futebol não acredita em promessas.

A pior repercussão desse tipo de anúncio é o aumento da pressão sobre quem tem, de fato, a responsabilidade de construir – no caso, reconstruir – o time. Uma sequência perversa, pois a obrigação de dirigentes é exatamente o contrário. Ademais, a tranquilidade do torcedor, se isso for possível, só se materializará quando ele notar que não foi ludibriado. Garantias vazias na pré-temporada não são a maneira mais inteligente de mostrar trabalho.

O Corinthians só tem uma certeza para a temporada que está para começar: seus jogadores estão nas mãos do técnico certo para a tarefa que se impõe. Dar a ele as condições para ser bem sucedido, além de contratar peças para um time desfigurado, é não fazer promessas que nem o próprio Tite é capaz de honrar.

ANO NOVO…

O ano virou e Del Nero, o Marco Polo que não viaja, segue dando as cartas na moderna CBF, aquela que não tem absolutamente nada a ver com as que conhecemos, mas que faz tudo da mesma forma. Uma das “novidades” do início de 2016 é a notícia de que o Doutor Ricarrrrrrdo, ele mesmo, trabalha – de onde? – forte nos bastidores da sucessão de Del Nero. O candidato do ex-presidente da confederação seria Rubinho, da FERJ, que age como proprietário de clubes como o Flamengo e o Fluminense, mais um exemplo da capacidade da classe dirigente do futebol brasileiro. O cenário é tão tragicômico que parece não haver mais nada que a cartolagem possa fazer para prejudicar a própria imagem e justificar a ruptura total, mas as questões continuam sendo de onde ela virá e se o torcedor de futebol no Brasil se importa com o futebol do Brasil.

UM ÓTIMO 2016…

por André Kfouri em 31.dez..2015 às 14:56h

… a todos. 

Férias. O blog retornará ao ritmo normal na última semana de janeiro. Até lá, descanso. 

Como sempre digo, é verdadeiramente um privilégio que este espaço exista e que aqui possamos nos encontrar. O tempo faz com que tomemos as coisas como garantidas e deixemos de ter a noção de que basta uma alteração conjuntural para que tudo mude.

Nos últimos meses, blogs foram encerrados, empregos desapareceram e a profissão sentiu o baque de uma crise econômica agravada pela crise existencial que já se prolonga, apresentando cada vez mais desafios. 

Sinto-me agradecido por poder continuar a escrever no Lance! e no Lancenet!, sempre renovando o compromisso de merecer a leitura de quem se interessa pelos temas que normalmente escolho. 

Desejo a todos uma passagem de ano tranquila e um excelente 2016. 

Muito obrigado por serem leitores. 

Um abraço. 

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 29.dez..2015 às 8:34h

(publicada ontem, no Lance!)

16 em 16

Dezesseis temas (não necessariamente nesta ordem) que marcarão o ano que vem, no futebol:

1) A investigação americana – A Justiça dos Estados Unidos marcou 2015 desde o dia 27 de maio, quando as primeiras prisões no Baur Au Lac começaram a derrubar os castelos do futebol feudal pelo mundo. Loretta Lynch, a quem o esporte deve o aroma de limpeza, insiste que o trabalho ainda não terminou.

2) A presidência da CBF – A ampulheta de Del Nero, o Marco Polo que não viaja, já tem mais areia na parte de baixo. Por quanto tempo o presidente licenciado ainda se sustentará? Nos gabinetes da ex-sede José Maria Marin, os estrategistas já olham para a gestão do coronel Nunes, o que simboliza o estado de penúria administrativa do futebol no Brasil.

3) A sociedade – Seguirá fazendo vista grossa com os políticos do futebol ?

4) A Bola de Ouro da Fifa – Há mais debate sobre quem deveria acompanhar Messi na cerimônia do prêmio de melhor jogador da temporada (a propósito: a ausência de Luis Suárez é um escândalo) do que sobre quem será o vencedor. Em 11 de janeiro, em Zurique, Messi receberá o quinto troféu.

5) A Copa Libertadores – River Plate, Boca Juniors, Peñarol, Nacional… as camisas tradicionais da Argentina e do Uruguai estarão presentes, garantindo a importância do torneio e dificuldades para os candidatos. Corinthians, Atlético Mineiro, Grêmio, Palmeiras e – provavelmente – São Paulo tentarão trazer o título para o Brasil.

6) Os técnicos estrangeiros – Edgardo Bauza é a novidade no São Paulo; Diego Aguirre recebe nova oportunidade, agora no Atlético. O futebol no país ganhará se maneiras diferentes de trabalhar tiverem a confiança e o suporte de que precisam. O São Paulo, que falhou com Juan Carlos Osorio, pode se redimir. Aguirre, mal tratado pelo Internacional, merece mais consideração em Belo Horizonte.

7) Muricy Ramalho – Seu retorno ao futebol, no Flamengo, será acompanhado com atenção redobrada. O discurso de renovação de conceitos estará no centro da conversa, acompanhado pelos resultados que sempre determinam o que é bom e o que é ruim no ambiente imediatista que conhecemos. O Flamengo se ajudará se deixar Muricy trabalhar.

8) O Corinthians – A próxima fase do projeto de Tite depende da manutenção do que ele já construiu.

9) A Seleção Brasileira – O ano olímpico pode trazer “a tão sonhada medalha de ouro” (está difícil lidar com a ansiedade?) no Rio de Janeiro. Além da Copa América do Centenário, as Eliminatórias Sul-Americanas prosseguem, a partir de março, com Brasil x Uruguai. Dunga será o técnico nos Jogos Olímpicos, uma oportunidade que o expõe ao risco de uma frustração que a Seleção não deveria ter.

10) Neymar – Muitos críticos, ou apenas antipáticos, ficaram sem palavras para atingi-lo neste ano. Troféus e atuações decisivas finalmente o elevaram ao nível de elite na Europa, que é o lugar em que ele merece estar. O noticiário repercute sua renovação de contrato e a cobiça de clubes rivais.

11) A Primeira Liga – Um torneio realizado por clubes brasileiros é mais do que apenas uma competição. É um passo no sentido certo e uma associação de ideias que não existe no país.

12) O Palmeiras – Mais um fim de ano ativo no mercado de contratações impõe a tarefa que Marcelo Oliveira não conseguiu completar em 2015: formar um time, no sentido coletivo.

13) Roger Machado – Sua aparição causou excelente impressão e proporcional curiosidade em relação à próxima temporada. O técnico do Grêmio parece reunir os atributos necessários para não ser apenas mais um.

14) A Liga dos Campeões da Uefa – Jamais houve um bicampeão. O monstro de três cabeças catalão será contido?

15) Guardiola – Qual será a próxima parada do principal técnico do futebol mundial? Todos o querem, mas o que ele quer? Seja onde for, será onde o jogo continuará se desenvolvendo.

16) Seu time. Nada é mais importante.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 27.dez..2015 às 10:17h

(publicada ontem, no Lance!)

AS PARTES E O TODO

O grande problema dos prêmios individuais para futebolistas é a dificuldade de extrair o desempenho de um jogador do contexto coletivo no qual ele se insere. Ao mesmo tempo em que as estatísticas são cada vez mais utilizadas e valorizadas em um esporte à mercê da imprevisibilidade, o isolamento do impacto de um jogador para o sucesso ou fracasso de seu time permanece um desafio.

A complexidade do problema acompanha a qualidade do time. Quanto mais desenvolvido é o jogo coletivo de uma equipe, mais difícil é a tarefa de identificar as atuações individuais que funcionam dentro dela. E talvez, um dia, cheguemos à conclusão que essa busca é um equívoco, porque o futebol não é um conjunto de confrontos, mas um confronto de conjuntos.

Para um jogador tecnicamente privilegiado, é mais fácil aparecer e se distinguir em um time que não funciona bem do ponto de vista coletivo, seja um zagueiro que se vê exposto em várias ocasiões e exibe sua qualidade no desarme em situações de um contra um, ou, no caso oposto, um atacante que maximiza suas oportunidades em lances individuais. Times avançados se comportam como unidades nas quais as associações entre jogadores – pequenos organismos dentro de um ser maior – constroem o jogo e as individualidades ficam restritas a momentos de definição e/ou emergência.

Em seu tempo no Barcelona, Pep Guardiola dizia que um gol em que Lionel Messi driblou cinco jogadores e o goleiro era um lance maravilhoso, sem dúvida, mas que não deveria ser levado em conta na análise do desempenho do time. Primeiro porque esse tipo de ocorrência não se treina, e depois porque uma equipe que pretende ser bem sucedida não pode depender dessas explosões autorais. Ainda que seja um extremo usar como exemplo um dos maiores times da história, aquele Barcelona trabalhava – sob o comando de Xavi – para oferecer a Messi situações em que ele pudesse ser decisivo. O argentino não era chamado a iniciar ou elaborar movimentos.

A era do jogador celebridade tem contribuído para enfatizar o aspecto individual em um esporte em que o que realmente importa é o sucesso coletivo. Títulos representam evolução profissional muito mais concreta do que elogios ao solista de uma orquestra desafinada, e não há, na história do futebol, relatos de troféus conquistados por apenas um jogador. O lendário técnico Helenio Herrera costumava inspirar o espírito solidário de seus atletas dizendo que “ele que joga para si mesmo, joga para o adversário. Ele que joga para o time, joga para si mesmo”. No funcionamento das equipes mais bem sucedidas do futebol atual, há cada vez menos espaço para preocupações exageradas com números pessoais.

Messi está a caminho de mais uma Bola de Ouro não apenas porque é o melhor, mas porque jogou no melhor time da última temporada europeia. E porque o resultado do desempenho coletivo de seu time pôde ser medido em taças. Uma das razões da decolagem de Neymar, que já lhe permite pensar no dia em que subirá ao palco da premiação com chances de segurar o troféu, é justamente fazer parte de um time assim.

PEP INGLÊS

Sinais apontam para a ida de Pep Guardiola para o Manchester City, a partir da metade do ano que vem. Guardiola trabalhou no Barcelona com executivos que hoje estão no time azul de Manchester, que teriam oferecido não um cheque, mas um clube inteiro em branco para que o técnico tivesse absoluto controle sobre o dia a dia. Guardiola nunca escondeu seu desejo de trabalhar no Campeonato Inglês, o que sem dúvida representa um desafio diferente dos que ele já teve como técnico. Nas ligas da Espanha e da Alemanha, o número de jogos que um time grande faz contra oponentes do mesmo tamanho é muito menor do que na Inglaterra, um nível mais alto de competitividade. Se Guardiola for mesmo para a Inglaterra, e lá tiver sucesso, até quem diz que ele só dirigiu times formados – “argumento” que denota desconhecimento – será obrigado e reconhecer sua genialidade.

CAMISA 12

por André Kfouri em 25.dez..2015 às 10:02h

(publicada ontem, no Lance!)

MEIAS

O Natal de Tite ficaria completo com apenas um presente: um armador para o lugar deixado por Jadson, autor de trezes gols e doze assistências na campanha do título brasileiro. Encontrar um jogador com as características necessárias para executar a função é a única solução que permitiria a manutenção da forma de jogar, sem provocar alterações que criariam outros problemas, alguns tão graves quanto a perda do meia que jogará na China.

A contratação de Marlone não está relacionada à saída de Jadson. Tite o vê como um jogador tático, de lado de campo, com força e mobilidade para entregar um trabalho semelhante, guardadas as devidas distâncias, ao que Jorge Henrique fez no Corinthians em 2011/12. Marlone oferece algumas opções, mas entre elas não está a articulação que Jadson passou a fazer desde que foi escalado com essa ideia em um jogo da fase de grupos da Libertadores deste ano.

Fágner estaria capacitado para ser o Jadson de 2016, se Tite estivesse disposto a transferi-lo da lateral para o meio de campo. Mas a hipótese não lhe passa pela cabeça. A saída pelo lado direito da defesa foi uma das marcas do Corinthians campeão brasileiro, e desfazer o mecanismo descaracterizaria o time. Tite não quer perder o lateral que considerou um dos melhores da posição na temporada.

Ele também não pretende alterar a função de Renato Augusto, bicampeão dos prêmios de melhor jogador do Brasileirão. A capacidade de leitura de jogo de Renato, que alterna entre meia e volante conforme o que a partida pede, provavelmente é mais importante para o sistema do Corinthians do que qualquer outro papel. Não lhe faltam visão e passe para atuar como Jadson, mas talvez falte alcance. Acima de tudo, Tite não quer arriscar.

O único jogador em todo o elenco que possui a configuração de armador é Matheus Pereira, que completará dezoito anos em fevereiro e tem três atuações pelo time principal. O plano é contratar um meia. Talvez dois.

BAUZA

A diretoria do São Paulo merece elogios por formatar uma linha de trabalho para o futuro técnico do clube, procurar o nome que considerava adequado para aplicá-la e estabelecer com ele um compromisso de intenções. A conduta serve como plano de voo e evita mal-entendidos. Além de evidenciar que o clube não é adepto do “resolve aí”. Postura profissional.

SELVA

As cotas da Libertadores são realmente baixas. Mas os clubes deveriam se empenhar mais em outras cobranças. Acabar com a cultura de violência que sobrevive no torneio, por exemplo, é urgente. E não só se fala pouco no tema, como a Conmebol pretende reduzir a punição aplicada ao Boca Juniors pelos tumultos no clássico com o River Plate, na última edição.

COLUNA DA TERÇA

por André Kfouri em 22.dez..2015 às 8:30h

(publicada ontem, no Lance!)

O JOGO EM PALAVRAS

Uma emissora de rádio de Madri ligou para César Luis Menotti, na sexta-feira passada. Queria ouvir o ex-técnico do River Plate e do Barcelona sobre a final do Mundial de Clubes da Fifa. A conversa durou quatorze minutos, vale cada segundo e graças à existência da internet (aqui, em link abreviado: http://bit.ly/1ZjfYmt), não ficou restrita aos ouvintes espanhóis. É uma dissertação sobre o jogo de futebol.

Uma das pérolas do debate foi um comentário feito por Menotti, quando questionado sobre a atualidade do futebol. Ele explicava por que prefere ver times que jogam bem, ignorando pontuações e tabelas de classificação, quando disse que “o Bayern de Munique é uma equipe sanadora. É como o Barcelona, te sana a loucura. Você vem dessa sociedade meio perversa, sobretudo no meu país, com a política… e se levanta no sábado pela manhã, às 11h30 o Bayern de Munique joga e parece que você está nos anos 40”.

Menotti nasceu em 1938. A década seguinte provavelmente foi o período em que o futebol o encantou ao construir as relações que o acompanharam por toda a vida de jogador, técnico e mestre Jedi. Não é necessário tê-la vivido para compreender o conceito que Menotti expressa, pois se trata de uma referência sentimental que todos temos. Na memória do coração de quem gosta deste jogo, existe um tempo em que fomos absolutamente felizes, plenos, otimistas. Essa sensação independe do contrato que assinamos com os times que escolhemos, uma história traiçoeira por natureza, sempre sujeita a instabilidades que não podemos controlar.

Menotti fala do amor por um tipo de jogo que está muito acima das vulgaridades com as quais lidamos diariamente, algo tão poderoso que é capaz de nos levar à superfície onde só existe o bem estar. Esse lugar, essa sensação e a felicidade por reencontrá-la sempre serão inalcancáveis para aqueles que só compreendem a vitória, por pura cegueira ou carência de exemplos. Pobres almas que vivem aprisionadas pela Matrix, pois fizeram a escolha errada quando Morpheus lhes mostrou as pílulas. Jamais entenderão.

Outro trecho memorável da conversa é a análise de Menotti sobre o trabalho de Luis Enrique no Barcelona multicampeão de hoje. Em tom aconselhador, ele entende que “é muito difícil reencontrar alguém que pinte a Gioconda. Se trata de não lhe pôr um bigode. Porque alguns, para ser originais, quando vêem o quadro, pintam um bigode na Gioconda e dizem que mudaram as coisas”. Gioconda é um dos nomes pelos quais se conhece a obra mais notória de Leonardo Da Vinci, a Mona Lisa, aqui em menção ao irrepetível Barcelona de Pep Guardiola.

Comparar um time a outro é maldade com Luis Enrique, pois o trio de atacantes sul-americanos, exatamente por ser tão formidável, impõe uma forma de jogar que distancia a equipe da obra-prima coletiva de Guardiola. Aquele time pode ter sido superado certas vezes em resultado, mas nunca em jogo. Por isso, talvez, o melhor a fazer é celebrar os momentos em que este Barcelona nos lembra daquele. É quando Menotti se sente nos anos 40, e todos somos felizes. Ou melhor: não todos, só os que sabem ser.

CAMPEÃO DO MUNDO

Por favor, não entenda mal: o Barcelona atual é um tremendo time de futebol. Tanto quando monopoliza a bola e hipnotiza o adversário por associação, quanto quando solta os monstros do ataque, que se entendem maravilhosamente. E Busquets continua a impressionar ao controlar, sozinho, seu próprio time e o oponente. Talvez ele seja o único jogador para o qual não haja substituto, pois Mascherano não possui a mesma formação.

FORMALIDADE

O River Plate fez o que pôde, pelo tempo que conseguiu, até sucumbir. O Mundial de Clubes se transformou em uma vitrine de desigualdades, em que o time sul-americano só tem alguma chance se o europeu desdenhar a ocasião ou estiver em um momento muito desfavorável. Em condições normais, é uma formalidade à qual se assiste com curiosidade cínica, aguardando um massacre ou um acidente constrangedor.

COLUNA DOMINICAL

por André Kfouri em 20.dez..2015 às 11:46h

(publicada ontem, no Lance!)

ESPARTANO

A escolha do São Paulo por Edgardo Bauza merece aplauso pelo simples fato de ser diferente. Como já salientamos neste espaço, o ambiente do futebol evolui quando se abre para novos métodos e conceitos, e se há uma carência no futebol brasileiro, dentro do campo, é exatamente a pasteurização de ideias. Outro aspecto positivo é que o treinador argentino não é um desconhecido ou um aventureiro, o que contribuirá para o estabelecimento das relações corretas dentro e fora do vestiário.

Ocorre que a diferença representada por Bauza não está diretamente relacionada à forma de jogar, característica que aumenta a curiosidade sobre o que motivou a opção da diretoria são-paulina, tendo em vista a experiência recente do clube com um técnico estrangeiro. Bauza não é uma Operação Osorio 2.0. De fato, eles não poderiam estar mais distantes no que diz respeito à visão de futebol. Não há juízo de valores aqui, apenas um fato que precisa ser considerado para que não se cometa um engano de expectativa.

Antes de contratar Juan Carlos Osorio, outros técnicos estiveram nos planos do São Paulo, sempre com a proposta de mudança de cultura. Podemos voltar até o ano de 2012, quando o português André Villas-Boas foi procurado sobre a possibilidade de trabalhar no Brasil. O clube conversou com Alejandro Sabella, Jorge Sampaoli e até com Marcelo Bielsa, técnicos cujo trabalho exigiria confiança, paciência e suporte total por causa de seu componente transformador, tratamento raro no Brasil e que Osorio evidentemente não teve. No caso de Bauza, a novidade que ele traz pede menos manutenção: é mais uma reforma de caráter do que de jogo.

Os times de Bauza costumam ser sérios, compenetrados e organizados a partir da defesa. Uma orientação que procura neutralizar as virtudes do adversário antes de pensar em como vencer. Imagine um competidor honesto, duro para seus oponentes e despreocupado com aspectos estéticos. Bauza se acostumou a lidar com orçamentos menores do que seus rivais e se especializou em um modelo espartano, em que a adesão dos jogadores a um plano defensivo é o ponto de partida para todos os objetivos. Assim ele conquistou a Copa Libertadores duas vezes, com a LDU e o San Lorenzo. É possível que a habilidade de ser competitivo com recursos menos generosos tenha atraído o São Paulo, um clube em situação financeira preocupante.

O problema – ok, talvez não seja um problema, mas algo a se pensar – é que o tipo de equipe que Bauza monta, com sucesso, normalmente fala espanhol, pois o jogador argentino médio é mais sóbrio, mais obediente e mais consciente do que sabe e não sabe fazer do que o brasileiro. Essa realidade pode impor a chegada de futebolistas estrangeiros para facilitar a transição de comando, e muito provavelmente significará uma mudança de rotina no ambiente do São Paulo, criticado (com certo exagero em alguns casos, pois o caos administrativo precisa assumir sua capacidade destrutiva) pela falta de ambição.

TRADUÇÃO

Ainda sobre Bauza, uma coisa se pode afirmar: ele corre bem menos risco de ser incompreendido, por falta de conhecimento, do que Osorio. O colombiano foi prejudicado por uma audiência que não tinha vontade e/ou capacidade de identificar suas intenções. Bauza pratica um jogo mais simples e de consumo mais fácil.

RECICLAGEM

A saída de José Mourinho do Chelsea atinge sua reputação de técnico de vanguarda e líder adorado pelos jogadores que comanda. O português não está ultrapassado, mas seus métodos perderam a validade, assim como a insistência no futebol opaco e essencialmente resultadista. Seria muito interessante se, com a vasta experiência e conhecimento que possui, Mourinho deixasse de jogar joguinhos e se dedicasse a jogar futebol. O esporte hoje pede uma abordagem mais aberta e voltada ao desenvolvimento do jogo.

CAMISA 12

por André Kfouri em 17.dez..2015 às 16:46h

(publicada hoje, no Lance!)

DESLIGA

O presidente do Grêmio, Romildo Bolzan, manifestou a posição mais sensata a respeito da quase natimorta Primeira Liga. A cautela antes de elogiar dirigentes do futebol brasileiro não deve prevenir o aplauso à mensagem, desde que se creia que é sincera. No caso, é o que parece.

Em conversa com a ESPN Brasil nesta semana, sobre os problemas que ameaçam a competição, Bolzan disse que “o que menos importa neste momento é o torneio em si. O que mais importa para mim é criar o ambiente político e o debate. Por mais que a Liga tenha um sentido de organização de futebol, de um torneio, ela também é um forum político, de propositura de uma cultura nova do futebol”.

Bingo. É absolutamente urgente que os clubes adquiram a capacidade de pensar, juntos, em um novo futebol. Um cenário em que times sejam rivais em campo, instituições sejam sócias em estrutura e dirigentes sejam os executivos desta propriedade. Antes de um torneio, uma liga é uma associação, um organismo que representa marcas e ideias, um “fórum corporativo, que os clubes hoje não têm. Os clubes se ressentem de um ambiente em que possam discutir todos os temas que lhe são comuns, de naturezas contratuais (…) da nossa cultura de convivência”, continuou Bolzan.

Divergências políticas corroem o embrião e o argumento financeiro, precipitado, se sobrepõe à chance de mudança de cultura. A Primeira Liga pode não chegar a fazer jus a seu nome por causa dos mesmos defeitos que a criaram. “Na primeira dificuldade, nós já criamos um problema político, e se nós não tivermos condições de superá-lo, aí sim nós estamos demonstrando a todos que também somos frágeis do ponto de vista da organização”, disse o presidente gremista.

O coronel Nunes desconhece o que é uma liga de clubes não apenas porque é míope, mas também porque seus interlocutores jamais conseguiram construir um exemplo. Talvez não haja outra oportunidade tão promissora quanto a que se apresenta agora.

PODE PIORAR?

O coronel Nunes, eleito vice-presidente da CBF na assembleia realizada ontem, também nunca viu ou soube de corrupção no futebol. E não pode falar nada sobre a situação de Marco Polo Del Nero porque não teve acesso às acusações contra ele. Ao final da sessão, Eurico Miranda defendeu a CBF. Sim, Eurico Miranda. A confederação está realmente em apuros.

NÃO SEI…

Eis uma redefinição dos parâmetros do constrangimento. Trecho dos questionamentos de Romário a Marco Polo Del Nero, ontem, na CPI do Futebol:

Romário: Por que o senhor não viaja com a Seleção Brasileira?

Del Nero: Porque meus advogados me aconselharam a não fazê-lo.

Romário: Medo de ser preso?

Del Nero: Não sei. Os advogados me aconselharam a não fazê-lo.