Na Copa dos técnicos, Argentina faz 5 a 1 no Brasil: por que isso acontece?



Os 32 técnicos que dirigirão as seleções durante a Copa do Mundo nasceram em 24 países diferentes. Apenas cinco se repetem, e o número mais impressionante é o da Argentina: serão cinco treinadores nascidos no país. Também terão mais de um técnico Alemanha, Colômbia, França e Portugal, com dois cada um. Brasileiro, apenas um, Tite.

Embora não seja segredo que técnicos brasileiros têm pouco ou praticamente nenhum espaço nos principais centros do futebol, é impressionante que até em seleções mais fracas eles tenham ficado em segundo plano. O último brasileiro a dirigir uma equipe em Copa do Mundo que não seja a do próprio Brasil foi Carlos Alberto Parreira, que em 2010 comandou a África do Sul, primeira seleção de país-sede eliminada na fase de grupos. O próprio Parreira já havia dirigido Kuwait (1982), Emirados Árabes (1990) e Arábia Saudita (1998), além do próprio Brasil. Paulo César Carpegiani, em trabalho marcante, dirigiu o ótimo Paraguai de 1998, que levou à prorrogação o jogo contra a França nas oitavas de final. Ao todo, dez brasileiros comandaram seleções estrangeiras em Copas.

Em 2014 e 2018, nada. Apenas Luiz Felipe Scolari e Tite dirigindo o Brasil. O assunto “técnicos estrangeiros” costuma irritar os treinadores brasileiros, que se dizem no mesmo nível dos principais técnicos do mundo. Mas faria bem uma autocrítica. Se são tão fortes assim, por que basicamente só dirigem clubes do Oriente Médio e da China? Nem na MLS, a liga americana, há um brasileiro à frente de uma equipe. Pra não falar na Europa.

Na década passada, Felipão treinou com sucesso a seleção de Portugal e teve passagem curta pelo Chelsea, como também foi curto o trabalho de Vanderlei Luxemburgo no Real Madrid. Nesta sexta-feira, a rádio Sagres 730, de Goiânia, revelou que Tite foi procurado por representantes do Real. Ainda assim, é evidente que são exceções, não regra.

José Pékerman, da Colômbia, um dos cinco técnicos argentinos na Copa

José Pékerman, da Colômbia, um dos cinco argentinos na Copa (Foto: Marco Bertorello/AFP)

Do outro lado, os argentinos, vistos como ótimos treinadores no aspecto tático, estão no banco de 15% das seleções que jogarão o Mundial: Jorge Sampaoli (Argentina), que sequer foi jogador profissional, Héctor Cúper (Egito), José Pekerman (Colômbia), Ricardo Gareca (Peru) e Juan Antonio Pizzi (Arábia Saudita), que é naturalizado espanhol.

Aspectos táticos e técnicos à parte, insisto no ponto de que os treinadores brasileiros precisam de uma autocrítica. Sair do discurso de “somos tão bons quanto qualquer um” e entender por que, então, eles não têm espaço fora do país, ou pelo menos em países relevantes e em seleções capazes de chegar a uma Copa do Mundo. O movimento recente de treinadores brasileiros indo à Europa estudar é importante, mas insuficiente. Não será um mês de curso ou acompanhar treinos de alguns times que mudará a situação. E o fortalecimento dos treinadores fortaleceria também todo o futebol brasileiro.

A CBF também deveria se movimentar. O diploma de técnico da associação argentina, por exemplo, é reconhecido pela Uefa. E isso também ajuda os treinadores de lá a conseguir espaço no futebol europeu. A autocrítica precisa ser acompanhada de ações individuais, coletivas e da confederação. O que dificilmente acontecerá. Mas é o melhor cenário. A união entre os profissionais no Brasil é uma utopia didaticamente explicada em reportagem do “Agora S.Paulo” que mostra a falta de laços entre vários deles. O próprio Tite não tem relações com Luiz Felipe Scolari e Mano Menezes.

A goleada de técnicos argentinos na Copa do Mundo esfrega na cara do futebol brasileiro, mais uma vez, pelo menos uma de suas deficiências. Como já havia acontecido no 7 a 1, que na prática pouco mudou além de se olhar mais para jovens treinadores em vez de fazer um revezamento de medalhões. O que será feito a partir de mais esta mostra de que algo precisa ser mudado, se é que vai ser feito, aí é uma outra coisa.

Ainda sobre o assunto, recomendo o perfil dos 32 técnicos feito pelo colega Thiago Arantes.

Tite comanda a seleção em amistoso contra a Croácia

Tite é o único técnico brasileiro na Copa do Mundo (Foto: Lucas Figueiredo/CBF)