O que um jogo da segunda divisão da Inglaterra me mostrou



Foi a primeira vez que fui a um jogo da segunda divisão inglesa. Na tarde de sábado, vi o Fulham empatar em casa por 1 a 1 com o Norwich pela primeira rodada. Ambos sonham com o retorno à vitrine mundial e milionária da Premier League, que frequentaram recentemente. O que aprendi naquelas horas no Craven Cottage, o estádio no sul de Londres? Que se o futebol moderno é inevitável (e é), ele não precisa acabar com o passado e com as tradições.

O Craven Cottage foi erguido em 1896 e hoje tem 25 mil lugares, dos quais 20 mil estavam ocupados. Por 35 libras, sentamos, meu amigo e eu, em cadeiras confortáveis (e modernas) na segunda fileira, a pouco mais de 3 metros da linha lateral. As cadeiras repousam sobre uma arquibancada com piso de madeira. E todo o acesso aos lugares marcados é feito por corredores acanhados, mas com pinturas brancas bem cuidadas.

O goleiro David Button, do Fulham, em jogo contra o Norwich

O goleiro David Button, do Fulham, evita gol do Norwich (Foto: Divulgação/Fulham FC)

Não há grandes redes de fast food, não há marcas fazendo “ativações” dentro do estádio. Há duas ou três opções de cerveja e cidra, café, chocolate quente e chá (sim, chá), além de opções rápidas para comer, como cachorro quente, hambúrguer e salgadinhos prontos. Nem todos os lugares são cobertos, e ver o jogo tão perto do gramado pagou seu preço: uma chuva de dez minutos entre os 35 e 45 do primeiro tempo, não muito intensa, mas daquelas com pingos d’água pesando 1 quilo cada.

A torcida é animada (e a do Norwich ainda mais, é obrigação dizer), a corneta é liberada, como deve ser, embora não toque tanto assim, e o futebol foi feio de doer. Mas ali o futebol me parecia de verdade, não de plástico. Estávamos todos ali para ver um jogo, não tive a sensação de que fui levado a um evento esportivo apenas para ser convencido a comprar algum produto. Até mesmo a lojinha do Fulham fica num canto quase escondido e apenas com os itens mais comuns, como camisas, bonés, cachecóis e canecas.

O charmoso Crave Cottage, no sul de Londres, fundado em 1896

O charmoso Crave Cottage, no sul de Londres, fundado em 1896 (Foto: Fulham FC)

Não sou dos que odeiam o futebol moderno, mas estou entre aqueles que esperam que o passado e as tradições sejam respeitadas. Já vi jogo da Premier League e digo aqui que no Craven Cottage me senti mais em casa, me senti mais à vontade. Na Premier League pareço um convidado estranho numa mansão de luxo. No jogo da Championship, como é chamada a segunda divisão, eu parecia um convidado bem recebido. E em paz, sem brigas, torcedores dos dois times circulando juntos.

É uma experiência isolada. Se é assim sempre em vários estádios seria necessário mais tempo (e dinheiro) para afirmar. Mas estar naquele estádio no sábado tive a sensação de que voltarei mais vezes aos jogos de times menores e divisões inferiores do que à Premier League. O futebol de verdade estava ali, naquela mistura de conforto e simplicidade. Não era um “evento”. Era um jogo de futebol. Como deveria ser sempre.



  • carioca66

    Rodrigo – se você ficar em Londres até sábado que vem, vai para o jogo entre Brentford e Nottingham Forest. Brentford joga o melhor futebol do Championship e Forest é um time de tradição, duas vezes campeões da Europa. E o ambiente é bem melhor que no Fulham.

  • Douglas Pacheco

    Cada vez mais o futebol real de cada pais está nas segundas divisões.

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