A Série B é o paraíso improvável do São Bento



Além de comemorar o acesso à Série B, volante Éder também completou 70 jogos com a camisa do São Bento (Foto: Jesus Vicente/Repórter Autônomo)

Além de comemorar o acesso à Série B, volante Éder também completou 70 jogos com a camisa do São Bento (Foto: Jesus Vicente/Repórter Autônomo)

por Fernando Cesarotti *

Eram quase 21h quando Dewson Freitas apitou o fim do jogo em Sorocaba na noite de domingo: o empate por 0 a 0 com o bravo Confiança garantiu o acesso do São Bento para a Série B do Brasileiro e a vaga nas semifinais da Série C. Ali sentado no barranco atrás do gol, em meio aos fogos e aos gritos de torcedores, derramei algumas lágrimas, lembrei do meu pai, que me transmitiu o amor pelo clube da cidade, e pensei no quanto aquilo tudo seria improvável alguns anos atrás. E em como pequenos detalhes podem fazer a diferença.

Por exemplo, o gol do Markinho. Era a antepenúltima rodada da Série A2 do Paulista em 2014, um sábado de manhã, um jogo truncado contra o Santo André no ABC, com transmissão pela Rede Vida. Um 0 a 0 que era ruim para os dois times azuis na briga pelo acesso à elite estadual. Até que, lá pelos 46 do segundo tempo, saiu o gol do Markinho: um lateral cobrado meio de qualquer jeito para o atacante franzino, que errou a dominada – mas o zagueiro do Santo André chutou a bola em cima do companheiro e a bola sobrou limpa para Markinho, que era reserva e mal entrava nos jogos, fazer o gol da vitória que botou o time novamente no G4. Vitórias sobre Guaratinguetá e Catanduvense nas rodadas finais garantiram o terceiro lugar e o acesso.

E pensar que não fazia muito tempo que o São Bento estava praticamente falido. Em 2011, o time jogava a mesma A2, para onde tinha caído quatro anos antes após uma derrota em casa para o Palmeiras. E, durante o campeonato, começaram atrasos em salários, jogadores expulsos de hotéis por falta de pagamento e até uma ameaça de WO: torcedores fizeram vaquinha na frente do estádio e foram até a casa de alguns jogadores para convencê-los a não perder o jogo contra o União Barbarense, em Santa Bárbara d’Oeste – o jogo estava marcado para as 19h e o ônibus saiu de Sorocaba pouco depois das 15h. O time arrancou um empate por 1 a 1, mas perdeu todos os jogos restantes e caiu para a Série A3.

Em 2012, depois de uma década me revezando entre veículos de imprensa da capital, eu enfim tinha meu primeiro emprego em Sorocaba, na afiliada local da Globo, e uma das missões era cobrir o São Bento nessa volta à A3, que o time não disputava desde 2001.

O torcedor de time grande não sabe o que é uma Série A3 de Paulista. Eu me lembrava: em 1996, fui ao estádio numa manhã de 1º de maio, feriado, para ver o Bentão ganhar por 2 a 1 do União de Mogi das Cruzes e conquistar o título simbólico do primeiro turno, que garantiu a vaga no quadrangular final. Em campo pelo time visitante havia um atacante chamado Neimar, ou pelo menos foi assim que o jornal grafou seu nome. Esse atacante tinha um filho de 4 anos que hoje é o jogador mais caro do mundo – e definitivamente não faz a menor ideia do que é uma Série A3.

A A3 de 2012, aliás, foi um desastre: o São Bento ficou em nono lugar na fase classificatória e não conseguiu nem sequer avançar aos quadrangulares que definiam o acesso. Enquanto isso, semanas depois, o rival da cidade, o Atlético Sorocaba, subia para a elite. O inferno parecia um lugar agradável para o torcedor beneditino.

Eram tempos complexos. Num domingo de manhã, ainda em 2012, fomos a São Paulo para cobrir um jogo contra o Juventus pela Copa Paulista – o torneio tapa-buracos que é disputado pelos clubes do Estado sem série no Brasileiro. O São Bento abriu o placar, mas levou a virada em lances discutíveis nos minutos finais. Quando fomos até o vestiário entrevistar o técnico e os jogadores, a torcida veio reclamar que a gente falava demais do Paulista de Jundiaí e do Ituano, ambos então da elite. Quando fomos embora, alguns idiotas tinham riscado a lataria e quebrado os espelhos do carro da TV.

Felizmente eram só alguns idiotas para um grupo enorme de pessoas boas. Que se reuniu, por exemplo, para completar a reforma e pintar o CT do clube, debaixo de um belo sol matinal em janeiro. Era o começo de 2013, o ano que marcou a virada. O ano do centenário, do título da A3, do acesso que parecia fácil mas só saiu chorado, com gol aos 48 minutos do segundo tempo após uma cobrança de falta antecedida por um beijo na bola. Por onde andará Veloso, herói daquela noite de sábado com nada menos que três assistências contra o Sertãozinho?

De lá para cá, o São Bento pegou o elevador. Subiu direto da A2 para a elite, onde fez uma participação razoável em 2015 e brilhou em 2016, chegando às quartas de final e conseguindo a vaga na Série D do Brasileiro – na qual, mais uma vez, conseguiu um acesso de cara. Neste ano, depois de um Paulistão sofrível, fugindo do rebaixamento só na última rodada, o time conseguiu se reerguer e disputar uma Série C honesta, com força especialmente na defesa – foram apenas 10 gols sofridos em 20 jogos até agora, melhor marca entre as três primeiras divisões do Brasileiro.

Não será a estreia do São Bento na segunda divisão do Brasileiro – o time disputou a chamada Taça de Prata em 1981 e 1983, além de ter jogado o Brasileirão de 1979, aquele de 94 clubes, com direito a enfrentar o Flamengo no Maracanã (perdeu por 4 a 0 e Zico nunca esqueceu a partida ). Mas é a primeira vez nesses tempos “modernos”, com acesso e descenso, pontos corridos e temporada cheia. Eu mesmo cheguei a pensar se não seria um passo maior do que a perna subir já para a Série B, uma vez que a transição é complexa e a infraestrutura ainda é precária. Mas time que se preza não escolhe torneio para se dar bem e agora não é hora de pensar nisso, e sim de comemorar. Se alguns sofrem para escapar “do inferno da Série B”, também há quem comemore estar nela. Para quem viveu anos na A3 do Paulista, o inferno é algo bastante relativo.

E pensar que nada disso talvez tivesse acontecido sem aquele gol do Markinho.

* Fernando Cesarotti, 39, é pai do Davi, jornalista por formação, professor por gosto e oportunidade. 



  • Pedro Courbassier

    Muito bom!

  • Joao Batista De Souza Joaoboy

    Parabéns são Bento de sorocaba sp…parabéns Fernando Césarotti , pela matéria.

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