As delícias do acesso do Sampaio Corrêa (e da queda do Moto Club)



Por Paulo Roberto Araujo Filho*

“Aqui, no Maranhão, quem manda é o Tubarão!”. O grito de guerra que ecoa frequentemente nas arquibancadas do Estádio Castelão ganhou um significado especial para a torcida do Sampaio Corrêa na campanha coroada com o retorno à Série B do Campeonato Brasileiro, um ano depois do doloroso rebaixamento à Série C com uma sucessão de erros e humilhações.

O sabor foi especial porque a Bolívia Querida caiu, sim, mas foi para ter um encontro com o Moto Club e dar um empurrãozinho no maior rival rumo ao rebaixamento para a Série D. Ó, gostosa vingança por todos aqueles memes de 2016, por aquela foto de um Tubarão branco banguela, aquele mesmo do filme do Spielberg.

Jogadores do Sampaio Corrêa celebram a volta à Série B

Jogadores do Sampaio Corrêa celebram a volta à Série B (Foto: Divulgação)

A caminhada para o acesso foi irregular, o início do ano foi ruim, com altos e baixos dentro de campo e troca de técnico, mas Francisco Diá encontrou um padrão de jogo para um novo dia raiar para o time mais amado da capital brasileira do reggae. O hino do Sampaio enaltece a “Bolívia Querida, de maior torcida do Maranhão, de nossa história o mais antigo esquadrão”. Chama-o de time de “escol”. Como São Luís é conhecida também como Atenas Brasileira, pela sua rica tradição nas letras de grandes escritores, vamos pedir ajuda ao “Aurélio”: escol significa “O que há de melhor ou de mais distinto numa coletividade. Nata, flor”.

De uma perspectiva mais pessoal como torcedor boliviano, confesso que estou em dívida com a arquibancada do Castelão, de tão envolvido na grande missão que é ser pai de primeira viagem. Mas lembro com carinho da campanha de 2015, quando o Sampaio brilhou e chegou a estar no G-4 da Série B, empolgando a todos com nossas ilusões e sonhos de um acesso inédito à elite do futebol nacional. Em meio a esse doce delírio, que não se concretizou, revivi a infância ao levar meu paizão ao estádio para um jogo contra o Boa Esporte, algo que não fazíamos juntos há décadas, e ali não consegui guardar o segredo combinado em casa de que minha mulher estava grávida de quatro semanas e que seria ser avô de novo. Foi uma tarde encantada.

Miguel Francisco chegou no dia 11 de junho de 2016. A campanha ruim do Tricolor e as noites mal dormidas no quarto de bebê não facilitaram em nada a fidelidade na dor durante a campanha do rebaixamento no ano passado, mas, para um pequeno grande time de torcida enorme, a esperança não demora a renascer das cinzas. Para o Sampaio também chegou um Francisco, Diá raiou em meio à noite escura, e o assunto parou de ser como o futebol da Bolívia estava horrível como o cabelo do quase craque prata da casa Valderrama, que tão bem imita a juba do famoso meia colombiano dos anos 90, mas na qualidade da bola. Bem, em festas não é bom ficar falando mal dos heróis.

A torcida do Sampaio ainda descobriu um sabor alegre para o rebaixamento: “Tínhamos que cair para terminar de matar o Morto Club, daqui a pouco a gente volta…”. E não demorou nada, de fato a gente voltou, e ver o rival despencando para a Série D enquanto subimos para a segunda divisão foi uma daquelas alegrias futebolísticas que não têm preço.

No ano que vem, voltarei ao Castelão com mais frequência, levando Miguel Francisco e seu avô, um são-paulino convicto que está flertando com a ideia de assistir a um Sampaio Corrêa x São Paulo na Série B 2018 com estádio lotado. Pelas limitações financeiras de quem vive em um dos estados mais pobres do Brasil, que alguns chamam de Sarneyquistão, não temos que nutrir no momento tantas ilusões de Série A como aconteceu em 2015, estamos felizes primeiro por estarmos de volta à segundona, divisão na qual vários clubes de maior orçamento não conseguem se manter.

Todos os adversários deverão se lembrar do grito de guerra: “Aqui, no Maranhão, quem manda é o Tubarão!” Este bendito predador dos mares já devorou muita coisa dura: vasos sanitários, placas de carros velhos, botas de pescador e até motocas enferrujadas. Alguns dentes foram quebrados, mas para quem foi tantas vezes chamado de Tubarão banguela, agora é moleza saborear um filezinho ou um belo sorvetão nas cores da Bolívia e do reggae: verde, amarelo e vermelho. E a cereja da sobremesa? Vermelha e preta, como todas as cerejas são. Perdoem-me, motenses, não queria provocá-los depois dessa felicidade que nos deram, mas a rivalidade não me permitiu resistir à tentação.

* Paulo Roberto Araujo Filho é jornalista por graduação, hoje auditor-fiscal por profissão e pai de primeira viagem do novo boliviano-corintiano Miguel Francisco (1 ano e 3 meses)



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