Por que não tem ‘clima de Copa’ no Brasil?



A pergunta tem se tornado corriqueira, já a ouvi algumas vezes. E até programas na TV e na internet já passaram por alto pela questão: onde está o clima de Copa? Faltam 11 dias para o Mundial e o torneio não é ainda um assunto dos mais quentes, não há ruas enfeitadas e até a imprensa parece dar menos destaque do que em edições anteriores.

Não faz sentido uma comparação com 2014, porque a Copa era no quintal de casa e era óbvio que o clima seria intenso, com tantos turistas pelas nossas cidades. Mas, ainda assim, o Mundial que começa em menos de duas semanas parece não ter conquistado o coração do país que provavelmente vive mais intensamente este mês a cada quatro anos.

Podemos supor algumas razões, e talvez no topo delas esteja a situação política, econômica e social do país. O povo com a esperança em baixa, não acreditando que vai haver uma melhora em pouco tempo. Também podemos falar sobre a falta de identificação da torcida com os jogadores. Há cada vez menos convocados que estão em clubes brasileiros (são três desta vez), ainda que acompanhar os jogadores que estão fora seja cada vez mais fácil.

Jogadores reunidos antes do amistoso contra a Croácia

Jogadores reunidos antes do amistoso contra a Croácia (Foto: Oli Scarff/AFP)

Mas a sensação de distância é grande demais. O mundo daqueles que jogam fica muito longe daqueles que, teoricamente, os apoiam. Quem consegue ter identificação com jogadores de mundos estrelados, com amigos famosos e Ferrari na garagem? Mas não é questão apenas de conta bancária. É de postura. Quem consegue se enxergar numa mesa de bar com pessoas que não demonstram (e nem parecem querer demonstrar) interesse em sentar em uma cadeira de metal ou plástico e dar risada? “Eles parecem não se importar com vitória ou derrota. Na semana seguinte estarão na Espanha, na Premier League ou na China. Tanto faz”, me disse um amigo, que certamente não está só.

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Jogadores têm salários milionários há muito tempo. Mas, cada vez mais embalados pelo marketing e por contratos com patrocinadores, eles estão amarrados, padronizados e raros conseguem demonstrar qualquer carisma (palmas para as exceções). Entrevistas são feitas de respostas sem qualquer importância e a sensação, no fim, é de se torcer por robôs. Até demonstrações que parecem espontâneas às vezes são patrocinadas.

Mas, no fim das contas, a distância para os jogadores até poderia ser deixada de lado. Mas a combinação dela com as mazelas cotidianas e o desgosto da população fazem a combinação para que o clima de Copa mal tenha aparecido até agora. É provável que ele dê as caras quando a bola rolar. Mas se o parâmetro for 2018, é legítimo afirmar que o tesão pela Copa do Mundo se resume basicamente ao álbum de figurinhas (ainda não completei e tenho repetidas, inclusive).