Libertadores com final única é uma aberração assinada pela Conmebol



A partir de 2019, a Copa Libertadores da América será decidida em final única e em país neutro (Foto: Conmebol)

A partir de 2019, a Copa Libertadores da América será decidida em final única e em país neutro (Foto: Conmebol)

A Conmebol oficializou nesta sexta-feira o que já era dado como certo nos bastidores: a partir de 2019, a final da Copa Libertadores será decidida em partida única e em país neutro. Esqueçam também as decisões numa noite de quarta-feira. A partir do ano que vem, a final será disputada em um sábado, no fuso horário dos Estados Unidos, buscando ampliar a visibilidade e o potencial turístico do evento esportivo.

“Esta decisão obedece ao objetivo estratégico de potencializar o desenvolvimento esportivo do futebol sul-americano (…) Além de gerar mais dinheiro para investir no desenvolvimento esportivo, a final única será uma grande oportunidade para que a América do Sul dê um grande salto na infraestrutura esportiva, organização de eventos, controle de segurança, comodidade e atenção nos estádios” declarou Alejandro Domínguez, presidente da confederação.

O pomposo discurso de Alejandro Domínguez ignora dois pontos fundamentais: o histórico amador da Libertadores e as particularidades do futebol-sul-americano. Não é a final em jogo único que dará a oportunidade do continente aprimorar infraestrutura, organização e segurança de eventos. Há décadas o símbolo-mor da Libertadores é o policial com o escudo levantado para proteger o jogador visitante na cobrança de escanteio. Já houve uma série de absurdos em diversas edições, e penas brandas e risíveis mostraram claramente o grau de preocupação da Conmebol. Para pegar os episódios mais recentes: a morte do torcedor boliviano Kevin Spada, o gás de pimenta da torcida do Boca Juniors no clássico contra o River e a briga generalizada entre Peñarol e Palmeiras no Uruguai.

A entidade conseguiu a aprovação da medida puxando também pelo lado financeiro. Cada finalista arrecadará 25% da renda geral, além de US$ 2 milhões. Não se trata de um valor que justifique uma mudança tão radical. Na ânsia de se equiparar à Champions League, é preciso compreender a questão cultural. Até na fase de grupos a competição da Uefa está lotada de turistas em jogos de clubes como Barcelona, Real Madrid, PSG, Manchester City e Bayern de Munique. A final em jogo único é realmente um produto turístico que rentabiliza tudo ao seu redor. O evento mobiliza a cidade-sede por quatro dias, com o Uefa Champions Festival, incluindo a final da Liga dos Campeões feminina, shows, amistosos com ex-jogadores de expressão, visitação à taça e fan fests.

Na América do Sul, não se consegue nem criar uma logística minimamente segura para torcedores visitantes. Também é inevitável comparar a facilidade de locomoção na Europa, com passagens aéreas muito baratas pra viajar dentro do continente e muitas opções de trem, algo que inexiste na América do Sul.

O fator torcida é algo determinante por aqui. É muito difícil vencer partidas fora de seus domínios na Libertadores, justamente pelo perfil das arquibancadas. Nem sempre o futebol é vistoso e os principais craques estão justamente desfilando na Europa, mas, numa noite de Libertadores da América, ninguém aplaude um gol. O tom dramático que se vê nos estádios é algo tão rico que, por si só, já torna a decisão da Conmebol uma aberração. Imagine só uma hipotética final entre Flamengo e Boca Juniors em Lima? Duas torcidas gigantes no continente que não teriam a chance de promover suas próprias festas.