Flamengo: o choro mal cabe nas pequenas mãos de Isaac



Isaac, filho de Márcio Araújo, volante do Flamengo

Isaac é um garoto como milhões de outros que fatalmente escolhem um time como uma religião particular, sem as amarras do pecado e perdão. A eles não cabe o terço, e sim o hino; a igreja é o estádio, assim como a túnica é a camisa vestida como segunda pele. A bola rolando é a cerimônia que os fazem acordar cedo no domingo imaginando a redenção possível horas depois.

Isaac é filho de Márcio Araújo, volante do Flamengo tão criticado por torcedores. Era assim também nos seus tempos de Palmeiras, quando o jogador se tornou uma piada interna que acumulava jogos e o espaço cativo independente do treinador com o colete na mão.

Márcio Araújo não jogou o colérico Flamengo e Fluminense de ontem, válido pelas quartas de final da Copa Sul-Americana. Rueda não o deixou nem no banco de reservas. Mas Isaac estava lá na arquibancada do Maracanã, torcendo por um Flamengo aguerrido e pela sombra do pai que percorria um gramado imaginário. E torceu de forma apaixonada e delirante, que é a única forma aceitável em um mata-mata. E chorou logo após o apito final do empate em 3 a 3 que garantiu a classificação do Flamengo.

O vídeo publicado por sua mãe é de uma beleza colossal por diversos motivos. Em nenhum momento se vê o rosto de Isaac. O peso das lágrimas o obriga a usar as mãos, como quem carrega um fardo tão complexo para uma idade tão mínima. Ao seu lado, outro garoto o consola, em um daqueles momentos que transformam uma amizade em um pacto muito mais profundo. Ao fundo, ouvem-se os gritos de comemoração da torcida rubro-negra, como um coral celestial que jamais precisará de ensaio ou regista.

Não deve ser fácil ser filho de Márcio Araújo. Não é justo cobrar de um garoto a tranquilidade que o pai tem para lidar com as críticas durante toda a carreira. Imagine as piadas na escola, a leitura dos jornais, o adulto na arquibancada fazendo careta quando o volante é chamado para entrar na partida. No ideal de heroísmo que percorre a relação entre filho e pai, os ruídos são incapazes de alterar o sentimento que os une. Isaac sempre será fiel a Márcio Araújo, assim como o torcedor trata seu time com algo indissociável de sua própria existência.

Isaac percorreu mais uma vez o caminho que transforma um garoto. O futebol como prioridade de uma jornada ainda desprovida de maiores responsabilidades. As conquistas coletivas enxergadas como trunfos individuais. A simbiose incontrolável durante 90 minutos. O seu choro é a materialização de um amor que carregará pelo resto da vida. Pelo Flamengo na noite de ontem e pelo pai a cada segundo.

Nao é so futebol! É amor!!!! Paixaoooo!!!! @flamengo

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