‘Nosso’ Hugo Calderano terá entre seus rivais a torcida brasileira



Não será surpresa se em pouco tempo o Brasil virar o país do tênis de mesa. Como já foi o país do automobilismo. Do tênis. Da ginástica artística. Hugo Calderano, 21 anos, conseguiu um resultado histórico neste domingo ao ser vice-campeão do Aberto do Catar, um dos mais importantes torneios da modalidade.

Calderano já havia chamado a atenção nos Jogos Olímpicos, quando terminou em nono lugar, igualando o melhor resultado de um mesatenista brasileiro. Aqueles que acompanham o esporte olímpico de perto já haviam alertado sobre o talento do brasileiro.

Se confirmada a ascensão de Hugo, que agora está entre os dez melhores no ranking mundial, o tênis de mesa deve viver seu período de glória no Brasil. E veremos um fenômeno igualmente comum: o da apropriação coletiva dos resultados de um indivídulo.

Como aconteceu com Gustavo Kuerten, com Daiane dos Santos e outros fenômenos isolados do esporte brasileiro, Hugo já começou a ser tratado como “nosso brasileiro”. E seu resultado no Catar, celebrado como um resultado “do Brasil”. Os resultados de Hugo Calderano pertencem a ninguém mais além dele mesmo, daqueles que são próximos e dos patrocinadores que o apoiam. São milhões aqueles que nunca ouviram falar do atleta carioca, mas que agora o tratarão como “nosso”.

Hugo Calderano rebate bola

Hugo Calderano já é um dos dez melhores do mundo (Foto: Divulgação/ITTF)

Calderano compete em uma modalidade individual, seus esforços são desconhecidos de praticamente todos os seus compatriotas, mas agora há muita gente pronta para celebrar e dar tapinhas nas costas, querendo uma casquinha de um resultado sem ter qualquer direito a isso.

Torcer por alguém da mesma nacionalidade é legítimo e gostoso, é uma das graças do esporte. Mas o que acontece no Brasil é um curioso fenômeno de querer tomar pra si resultados que não são seus. E Calderano sofrerá no primeiro revés importante que tiver: caso siga evoluindo, conquistando mais resultados e falhar em alcançar uma medalha em Tóquio 2020, será tratado como um fracassado, sensação já experimentada por atletas como o ginasta Diego Hypólito, vice-campeão olímpico em 2014, e Fabiana Murer, campeã mundial do salto com vara, entre tantos outros.

Na média, há no Brasil uma torcida aproveitadora: para ela, nós ganhamos, mas ele perde sozinho. Hugo, que não deve satisfações aos 200 milhões de seu país, precisa trabalhar de forma antecipada a pressão que sofrerá caso se estabeleça de fato como um dos melhores do mundo de sua geração. No país dele, a torcida pode ser a maior aliada e também a maior inimiga.