Grêmio: os cangurus passeando pela América



Por Eduardo Manera *

Há alguns anos, foi produzida nos EUA a série Flash Forward, que partia de uma premissa espetacular. Os habitantes da Terra haviam sofrido um desmaio coletivo. Todos dormiram por seis minutos e, neste período, viram em flashbacks ao contrário o seu próprio futuro. Quando acordaram, o cenário era apocalíptico. Acidentes de carro, de avião, incêndios por toda parte. Mas o mais intrigante era que, enquanto isso, um canguru passeava tranquilamente por Los Angeles.

A série não foi renovada, teve apenas uma temporada e ficou inacabada. Uma pena, principalmente porque nunca foi possível entender o sentido da presença daquele animal exótico, aparentando tranquilidade, em pleno caos californiano. Assim como, dois dias após a conquista, ainda está sendo difícil compreender o sentido do tricampeonato gremista na Libertadores da América.

Não que títulos sejam um animal exótico na história do Grêmio. Apesar de pouco mais de uma década de vacas magras, nós, torcedores, sempre estivemos acostumados a grandes conquistas e vitórias épicas. Mas nunca, nada, foi como esta Libertadores. O canguru californiano gremista foi um time que ganhou tocando bola em vez de deixar o adversário jogar para depois contra-atacar. Uma equipe que foi superior por suas habilidades técnicas, e não por sua garra e determinação. Um grupo que não se notabilizou pela marcação forte, beirando a violência, mas sim pela criatividade de seu meio de campo e por um ataque veloz.

Carreata em Porto Alegre para saudar os tricampeões da América (Foto: Grêmio)

Carreata em Porto Alegre para saudar os tricampeões da América (Foto: Grêmio)

Se fosse necessário explicar a superioridade tricolor nesta Libertadores em apenas um lance, o gol de Luan no jogo de volta contra o Lanús sintetiza tudo. Uma bola roubada na intermediária, Arthur domina, gira, livra-se de um marcador e aciona Jaílson rapidamente, que com apenas dois toques lança Luan livre na intermediária adversária. O meia atacante gremista se atrapalha no domínio da bola, tira a velocidade do lance de forma quase displicente. E, enquanto se dirige à grande área, deixa os zagueiros argentinos completamente perdidos, tamanha a sua tranquilidade. Ele vai passar? Ele vai chutar? Enquanto ninguém entende esse Grêmio, Luan vai entrando mansamente na área, até dar uma humilhante cavadinha que bate o goleiro adversário.

Golaço. Golaço. Grêmio fazendo golaço em final de Libertadores? Isso não existe. Grêmio ganhando de todo mundo com autoridade e aparente facilidade? Isso não existe. Grêmio jogando melhor fora de casa do que na Arena? Isso não existe.

Não existia. E é por isso que os significados ainda são pouco compreendidos. Pela primeira vez na história, o Grêmio não sofreu numa Libertadores. Talvez os dois confrontos contra o Botafogo tenham sido os mais difíceis, mas, ainda assim, o tricolor nunca esteve ameaçado de eliminação. Mentes ansiosas, como eu, previam um desastre iminente. Mas não aconteceu em momento algum. Domínio total e absoluto. O Grêmio tornou fácil uma Libertadores que, de fácil, não tinha nada.

Ainda que com características completamente distintas no que nos conduziu à vitória, o sentimento é o mesmo. E é incrível voltar a festejar uma Libertadores 22 anos depois. Ainda mais sendo presenteado com um torneio mundial a disputar dentro de apenas quinze dias. Ganhar o mundo de novo, tendo o Real Madrid na mesma competição, aparentemente é algo que não existe. Mas, e daí? Com este Grêmio que insiste em desafiar as suas características, já estou aqui, sem medo, torcendo para que um canguru passeie tranquilamente por Abu Dhabi.

* Eduardo Manera, 37, é jornalista não-praticante, dá palpites sobre automobilismo e qualquer outra coisa relacionada a culturas inúteis ·  blogdocapelli.com.br



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