A violência coloca, sim, o GP do Brasil de Fórmula 1 em risco



Por que a Fórmula 1 corre em Interlagos? Há o aspecto técnico: a pista paulistana é clássica e já proporcionou algumas das grandes corridas da categoria. É também uma prova popular, com uma torcida apaixonada que enche as arquibancadas do autódromo na zona sul de São Paulo. O país já teve três gênios, Fittipaldi, Piquet e Senna. E, por fim, existe o acerto comercial com a categoria, cumprido pela organização do GP. O atual compromisso prevê mais três corridas, até 2020. E depois?

Bem, depois disso ninguém sabe, mas não devemos descartar que a falta de segurança para os envolvidos na prova pode ser um fator levado em conta. Os assaltos cometidos contra equipes na região de Interlagos não são uma novidade. Não começaram este ano. Em 2010, Jenson Button, então atual campeão, sofreu uma suposta tentativa de sequestro. Neste ano, as vítimas foram funcionários da Mercedes, que tiveram armas apontadas para suas cabeças. Horas depois, algo semelhante aconteceu com a Sauber, que teve sua van batida por um carro que tentava pará-la.

“Fiquei horrorizado. Todo ano isso acontece e continua acontecendo”, disse o tetracampeão Lewis Hamilton. “A sensação era de guerra civil. Talvez a gente não tome atitudes fortes porque o Brasil é um país muito legal. Mas não podemos mais aceitar”, disse Toto Wolff, chefe da equipe alemã.

Lewis Hamilton no GP do Brasil de 2017

Lewis Hamilton se disse horrorizado: “Sempre acontece” (Foto: Carl de Souza/AFP)

Felipe Massa se disse com vergonha, embora não ache que seja motivo para o Brasil perder sua corrida. O prefeito de São Paulo, João Doria, aproveitou pra fazer sua previsível propaganda pela privatização do autódromo, uma de suas obsessões desde a campanha eleitoral (não acontecerá e ainda que acontecesse não seria solução para os problemas sociais na região). Apenas quatro dos 19 autódromos que recebem a F-1 são privados.

As declarações sobre mais um episódio de violência em Interlagos são muito fortes. E acho que guardam, nas entrelinhas, uma possibilidade clara de não renovação de contrato. Para acrescentar, o Brasil não terá pilotos na F-1 a partir de 2018, o que pode até diminuir em parte o interesse pela prova, daqueles que gostam de ver brasileiros correndo, não de corridas em si. Interlagos proporciona espetáculos maravilhosos. Mas quem está disposto a correr riscos todos os anos em nome de bons espetáculos? “Há dez anos vejo isso acontecer”, disse Hamilton, referindo-se ao seu tempo na F-1.

O GP do Brasil corre, sim, risco. E não dá pra lamentar caso saia do calendário a partir de 2021. Houve tempo suficiente para melhorar a questão, revitalizar a região do autódromo e dar dignidade à população muito pobre que ali vive. Enquanto houver graves problemas sociais no entorno, a Fórmula 1 sempre correrá risco ao sair dos portões.