Morrer na Série C? Fortaleza espantou seu maior pesadelo



Por Marcelo Bloc *

“Vai morrer na Série C”. É esse o grito que o Fortaleza conseguiu calar no último sábado (23), quando avançou à semifinal da Série C, finalmente garantindo no campo o acesso à Série B após 8 longos anos.

Nesse período, essa frase fora usada sempre que havia uma discussão entre torcedores do Fortaleza e do rival Ceará, cortando o já dilacerado coração dos tricolores. E essa zoação não se deve apenas aos últimos 8 anos, pois a lista de fracassos do tricolor cearense na competição é ainda mais longa.

Rebaixado para a então Terceira Divisão em 1994, o Fortaleza só conseguiu sair dela em 2000, quando fora criada a Copa João Havelange e, com vagas sobrando, o leão cearense pulou para o equivalente à segunda divisão por ter a melhor média de público da terceirona. Ficou, no entanto, a mancha na história de não ter conseguido o acesso em campo.

Tudo parecia um sombrio passado, visto que em anos seguintes vieram 2 acessos à Série A, mas em 2009 um novo rebaixamento para a agora chamada Série C reviveu o velho fantasma. Com requintes de crueldade para os tricolores, a queda foi consolidada no mesmo horário em que o rival Ceará garantia o retorno à Série A após 17 anos.

As temporadas seguintes tiveram algumas alegrias no âmbito estadual, mas o objetivo principal sempre fora um só: conseguir o acesso à Série B.

Em 2010, ainda com regulamento parecido com o que é hoje a Série D, o Fortaleza fora eliminado invicto, ainda na primeira fase. Em 2011, o caos. A queda para a Série D só fora impedida nos minutos finais da última rodada, quando uma reação desesperada contra o CRB garantiu gols em sequência e a permanência. A reação gerou inclusive questionamentos que foram bater no Tribunal, gerando um desgastante julgamento que absolveu o Tricolor de Aço.

O pesadelo acabou: o Fortaleza enfim consegue o acesso á Serie B (Foto: Divulgação Fortaleza)

O pesadelo acabou: o Fortaleza enfim consegue o acesso á Serie B (Foto: Divulgação Fortaleza)

Em 2012, novo regulamento, mais jogos e o começo de um novo calvário. Líder desde o início e com melhor campanha da competição, o Fortaleza chegava às quartas contra o Oeste como franco favorito. Empate em 1 a 1 em Itápolis e derrota inesperada em um PV entupido. Foi o primeiro dos ‘quase’.

Em 2013, campanha menos convincente, mas o Leão chegava à última rodada dependendo apenas dele para se classificar e ter vantagem no mata-mata. Após abrir 2 a 0 no Castelão contra o Sampaio, o Tricolor cedeu o empate. Se o 2 a 1 dava ainda a classificação em 1º do grupo, o 2 a 2 jogou a equipe para 5º, tamanho o equilíbrio. Eliminação com Castelão abarrotado de tricolores.

As campanhas seguintes terminaram sempre com classificação tranquilo e a teórica vantagem de decidir em casa. Todas elas tiveram o mesmo fim, eliminações frustrantes, em casa, contra Macaé, Brasil de Pelotas e Juventude. Morrer na Série C parecia algo ainda mais assustador, pois o clube não conseguia pagar em campo o acessão que ‘devia’ desde quase 2 décadas atrás.

O errado que deu certo

Se em outros anos as coisas pareciam feitas de forma correta, com boas campanhas, times elogiados e salários em dia, em 2017 tudo foi diferente.

Após a eliminação de 2016, o clube se desfez de todo o elenco. A equipe montada mostrou fragilidade desde o início, indo mal na Copa do Brasil, Copa do Nordeste e sequer chegando à final do Campeonato Cearense.

A crise era grave e a presidência do clube mudou. Os novos comandantes mexeram no elenco, mas já era tarde. O grupo do Fortaleza era considerado bem aquém dos de anos anteriores.

Na reta final da Série C, houve ainda a troca de comandante. Zago chegou para substituir Paulo Bonamigo.

De algoz a salvador

Quis o destino que o Fortaleza chegasse à Série B sendo comandado por Antônio Carlos Zago, técnico que um ano antes subiu o Juventude justamente no Castelão, fazendo o torcedor leonino chorar mais uma vez. Ao final daquela partida, sem imaginar que um dia pudesse defender o clube cearense, Zago disse que, apesar da alegria imensa pelo acesso, ficava triste em ver um clube que colocava 60 mil pessoas no estádio passar 8 anos na terceira. “A Série C não é o lugar do Fortaleza”.

Com ele, a classificação desta vez veio com ares de sofrimento, na última rodada.

Mas o elenco chamado de limitado conseguiu o que outros mais badalados falharam ao tentar, levou o Fortaleza Esporte Clube à Série B em 2018, algo ainda mais especial por se tratar do ano do centenário tricolor.

Muito o que comemorar

Quem lembra do Fortaleza na Série A há pouco tempo, como em 2006, quando fora o único clube nordestino na competição, pode até estranhar o tamanho da festa por um mísero acesso à Série B, mas quem viveu todos esses anos sabe o quanto pesava nas costas de cada tricolor essa ‘maldita Série C’.

A festa tomou conta da capital cearense no desembarque da delegação, neste domingo (24). Como é exaltado no hino do clube, o Fortaleza recebeu um ‘sincero abraço da torcida tão leal’ e juntos puderam chorar. Mas agora chorar de alegria. O pesadelo acabou.

* Marcelo Bloc é jornalista, mora em Fortaleza e acredita que a arquibancada forma caráter.



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