O grito do Flamengo e a obsolescência programada do Maracanã



O Flamengo anunciou na noite de ontem uma decisão que praticamente sepulta a chance de concorrer à gestão do Maracanã, que ainda depende de edital do governo do Rio de Janeiro. O presidente Bandeira de Melo informou que o clube exerceu a opção de compra de um terreno na Avenida Brasil para a construção de seu estádio, com capacidade para receber 50 mil torcedores. A estimativa inicial é que o projeto do novo estádio gire em torno de R$ 500 milhões, já incluindo a compra do terreno de 160 mil metros quadrados.

O importante passo é uma resposta a uma situação ridícula criada desde a transformação do Maracanã em Arena, por conta da disputa da Copa do Mundo de 2014. Flamengo e Fluminense, os dois clubes com interesse em jogar por lá, precisavam negociar jogo a jogo as condições operacionais e financeiras com a Concessionária Maracanã — liderada pela construtora Odebrecht. E os custos para mandar os jogos lá cresceram tanto que os clubes, após descontar os custos com aluguel, segurança, logística, entre outros, ficavam apenas com pouco mais de 30% da renda das partidas.

O Maracanã então virou palco para jogos com maior demanda, clássicos e finais, como a que abre hoje o duelo pelo título da Copa do Brasil entre Flamengo e Cruzeiro. Enquanto o rubro-negro começou a mandar jogos na Ilha do Urubu, um estádio mais acanhado, com capacidade reduzida e, consequentemente, ingressos salgados, o Tricolor levou alguns jogos para Edson Passos, estádio do América, ao menos diminuindo (e não eliminando) o tamanho do prejuízo. Na outra ponta, há o Vasco com o antigo São Januário e o Botafogo, que assumiu a administração do estádio Nilton Santos, construído para sediar partidas de futebol e competições de atletismo para o Pan-Americano de 2007.

A situação é tão melancólica que, diante do custo geral e sem possibilidades de ampliar ações comerciais no local, nem mesmo a concessionária tem interesse em continuar gerindo o estádio – em abril, a Odebrecht havia acertado a venda da concessão à empresa francesa Lagardère, que desistiu logo depois que o governo anunciou que uma nova licitação para a gestão do estádio seria realizada.

Após custar mais de R$ 1,3 bilhão, o Novo Maracanã, construído para ser o estádio principal da última Copa, corre o risco de de se tornar um gigante cada vez mais adormecido, muito longe do palco mundialmente admirado e motivo de orgulho para os cariocas. E ainda traz como rescaldo a falta de transparência e credibilidade desde o início do processo de reconstrução, intensificada nesta semana por delatores que afirmam terem pagado propina ao ex-governador do Rio Sérgio Cabral.

Crédito: Gilvan de Souza/Flamengo

A situação é tão melancólica que nem mesmo a concessionária tem interesse em gerir o estádio (Crédito: Gilvan de Souza/Flamengo)

Ao anunciar a intenção de compra do terreno e os planos para levantar sua nova casa, o Flamengo pressiona ainda mais o governo do Rio e diminui as chances de uma gestão compartilhada entre os clubes para o uso futuro do estádio. Se nada excepcional acontecer nos próximos meses, a discussão ganhará outro enfoque, buscando alternativas para rentabilizar o Macaranã, como também acontece em São Paulo com o estádio do Pacaembu, em processo de privatização.

Sem o Flamengo na jogada, a obsolescência do Maracanã caminhará em maior velocidade. E a morte de um patrimônio do futebol brasileiro, ainda que descaracterizado após sua reforma, é uma possibilidade que não deve mais ser descartada.