O dia em que a minha filha levou figurinhas da Copa para trocar na escola



“Pai, queria te pedir uma coisa”.
 
E foi assim que começou a conversa com a Maria Eduarda, até definirmos que ela levaria algumas figurinhas repetidas para trocar com os amigos na escola. Ela se preparou, como quem sabe que existe todo um ritual neste processo. Colocou os cromos em ordem crescente, deixou em casa aquelas que ela não estava disposta a trocar, anotou no papel as que faltam para completar o álbum e ouviu atenta os meus alertas: “Filha, a troca é uma por uma figurinha. Não aceita nada diferente disso”.
 
Passei o dia imerso no trabalho, mas pensando de vez em quando como ela se sairia, se teria desenvoltura para entrar nas rodas e como isso faz parte de um processo de sociabilização dentro de um universo bem particular.
 
Às 20h40, viro a chave na porta e ouço passos rápidos em direção à porta. Lá estava ela, com os olhos arregalados. “Vem ver, pai, consegui trocar duas. A gente completou o Peru”. Feliz, sorridente e me puxando pelo braço para mostrar as figurinhas já coladas no álbum como um troféu. Matheus, o irmão mais novo, fica ao lado dela, puxando o papel para atualizar a contagem.
 

A Copa do Mundo já desperta muita curiosidade neles. As bandeiras, os grupos, os jogadores que eles conhecem pela TV e agora buscam reconhecer em cada retângulo preenchido no álbum. Há menos de três meses para o início da disputa, eles vão acumulando mais informações e expectativa.
 
O futebol nem sempre é o resultado do campo. Muitas vezes , é um caminho percorrido que permite pais e filhos dividirem a mesma paixão. Mesmo que a figurinha fique um pouco torta no álbum. É até melhor que fique: será sempre a marca de uma cumplicidade construída ao longo da vida.
 
“Pai, posso levar mais repetidas amanhã para trocar?”.
 
A minha resposta é tão previsível quanto a vontade dela.