O Fair Play Financeiro não foi feito para os clubes ricos



Por Walter Paneque *

A ideia de introduzir o Fair Play Financeiro na Europa partiu de preceitos claros: o sucesso de um clube deve ser resultado de uma administração consciente e um bom planejamento, e não da simples capacidade de gastar mais em contratações. Apesar de na teoria ser algo fantástico, no papel a regra não conseguiu traduzir a proposta. Pelo menos não totalmente.

O Paris Saint-Germain, que contratou um especialista em Fair Play Financeiro para acompanhar as ambições do clube, garante que não burlou nenhuma regra da UEFA. Os franceses inclusive dizem ter se reunido com a Federação antes de concluir a contratação do atacante Kylian Mbappé para demonstrar o cumprimento de todos os pré-requisitos de saúde financeira. E acredite: é muito possível que o PSG não tenha mesmo feito nada que infrinja o FFP.

Isso porque, essencialmente, o Fair Play Financeiro não tem como objetivo frear o investimento de grandes clubes, muito menos tornar os campeonatos mais equilibrados. A versão de bolso da regra diz apenas que um clube não pode ter um prejuízo maior do que 30 milhões de euros em um intervalo de três anos.

A ideia é nobre porque parte de um problema recorrente no futebol europeu na década passada. No período de criação do FFP (2009), metade dos clubes registrados na UEFA vinha de balanços negativos no ano anterior, sendo que 20% dessas equipes corriam risco iminente de falência. Além de controlar o endividamento dos clubes, a UEFA deu um passo além: criar a CFCN (Club Financial Control Board), órgão desenhado de modo que pudesse acompanhar a geração de receita dos clubes, assegurando que a arrecadação fosse feita por fontes legítimas (venda de ingressos, cotas de televisão, patrocínios).

Ocorre que, para os clubes milionários, em sua maioria ligados a grandes fundos de investimento ou outras pessoas jurídicas, o caminho para driblar o FFP é óbvio. Por meio da assinatura de acordos comuns de patrocínio, os donos conseguem injetar dinheiro nos clubes e alimentar os cofres sem maiores preocupações. É papel da CFCB supervisionar esse tipo de operação, mas ao mesmo tempo é impossível barrar a maior parte delas.

Contratados pelo PSG, Mbappé e Neymar 'quebraram a banca' na última janela de transferências

Com Mbappé e Neymar, PSG ‘quebrou a banca’ na última janela de transferências (Crédito: FRANCK FIFE/AFP)

O que impede um ‘superclube’ do porte de Barcelona, Manchester United ou Paris Saint-Germain de assinar um novo contrato milionário? O Fair Play Financeiro não conseguiu ainda frear esse tipo de investimento, e nem deve conseguir. Por outro lado, para se manter competitivos, os clubes médios e pequenos precisam também sair em busca de investidores – e não têm a mesma sorte para escapar da regra.

Isso porque um investimento milionário muitas vezes gera um salto de 200, 300% na receita de um clube pequeno, o que inevitavelmente atrai a atenção da CFCB. É papel do órgão assegurar a saúde financeira desses clubes e, desta forma, é comum que esse tipo de operação seja inibida. Principalmente pelo risco que a saída desse tipo de investidor representa para o futuro dos clubes com menor capacidade de gerar receita por conta própria. Ao tentar proteger os menores, a UEFA acaba também aumentando a distância entre pequenos, médios e os gigantes.

Isso, no entanto, não significa que o FFP seja pouco efetivo. Pelo contrário: as taxas de débito dos clubes europeus têm caído drasticamente a cada ano. Segundo informações da própria UEFA, a dívida dos clubes de primeira divisão da Europa foi reduzida em 700 milhões de dólares em três anos após a implementação do Fair Play Financeiro.

O Fair Play Financeiro exclui ainda da conta os gastos dos clubes com categorias de base e infraestrutura, por isso é comum que alguns clubes pertencentes a árabes ou russos passem a renovar suas instalações. A liberdade para gastar com a formação de jogadores busca ainda fazer com que se revele mais e melhor, algo que ainda é tabu para muitos times milionários.

Por essas e outras que as contratações de Neymar e Mbappé dificilmente implicam em quebra da regulação por conta do Paris Saint-Germain. Mesmo porque é óbvio que um clube do porte do PSG não teria feito tamanho investimento se não tivesse certeza do cumprimento do FFP, colocando em risco sua própria participação em futuras janelas de transferências.

O fato é que o Fair Play Financeiro ainda tem muito a evoluir. Por conta da grande influência dos ‘superclubes’ na própria UEFA, o atual modelo foi desenhado com a participação deles. E deve ser assim por muito tempo, o que não apaga os bons resultados que o mecanismo acumula até o momento.

* Walter Paneque é jornalista e escreve sobre o Borussia Dortmund no ESPN FC Brasil  e futebol alemão no Endspiel